segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O caso do menino Joaquim

Embora já acreditasse no que foi confirmado, confesso que fiquei meio embasbacado quando o corpo do menino Joaquim foi encontrado em Barretos. De qualquer forma, por mais que as evidências indiquem, ainda não foi provado que o autor do crime brutal é o padrasto de Joaquim.

Todas as evidências apontam para Guilherme, o padrasto. Um cão farejador da PM cheirou suas roupas e seguiu rumo a um córrego que passa a 250 metros da casa. Depois voltou à residência e cheirou as roupas do menino, fazendo o mesmo trajeto. Em seguida, cheirou as roupas da mãe, mas não seguiu para o rio. A mãe do Joaquim, Natália, tem sido muito hostilizada, mas não dá para saber se ela é ou não conivente, caso tenha mesmo sido Guilherme o autor do homicídio.

Natália é psicóloca e conheceu Guilherme numa clínica para recuperação de dependentes químicos em que trabalhava. Ele estava em recuperação. Iniciaram um relacionamento e foram viver juntos. Têm um filho de três meses, irmão de Joaquim. Ele confessou que, recentemente, teve recaída e voltou a usar cocaína. Na madrugada do desaparecimento do garoto, Guilherme foi o último a vê-lo com vida. Ele disse que colocou Joaquim na cama às 0h30. Depois saiu de casa sem que a esposa percebesse, para tentar comprar droga. Disse que não encontrou e voltou quarenta minutos depois, indo dormir.

A imprensa ainda relatou um suposto desentendimento entre Guilherme e Joaquim na noite anterior ao desaparecimento, por conta do celular da mãe, que o garoto usava para assistir um vídeo. Mas minimizaram o fato. No dia seguinte, Joaquim desapareceu. Se foi ele, se alguém entrou na casa ou ainda se a mãe é conivente, só a Polícia Civil vai poder dizer.

Em Ribeirão Preto, segundo reportagem do Jornal A Cidade, desde 2008, foram quatro casos de crianças mortas pelo padrasto. Em dois dos casos, houve conivência das mães. Nos outros dois não. Se confirmado mais este caso de Joaquim, o quinto em apenas cinco anos, é uma estatística altamente preocupante. Os padrastos têm se destacado no notíciario de forma tétrica.

De qualquer forma, mesmo que Guilherme seja culpado, não cabe à população fazer justiça com as próprias mãos. Nem hostilizar ou agredir os pais dele, que não têm culpa caso o crime tenha mesmo sido praticado por Guilherme. O que nos resta é orar pela alma de Joaquim e pela família. O pai de Joaquim, Artur, apesar de toda dor, ainda está encontrando forças para pedir que não façam justiça com as próprias mãos. Que os mais exaltados possam ouvi-lo.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial

Aumentar IPTU para cobrir acordo com empresários do transporte coletivo na capital e privatizar nosso petróleo mostram divergências do PT de hoje para o de ontem


Tudo bem. É verdade. Esse título inspirado na obra de Caetano Veloso já foi usado em uma infinidade de artigos, inclusive alguns publicados no Observatório da Imprensa. Mas não há nada melhor para definir o que estou sentindo e pensando do que este refrão da música Fora da Ordem. Independente da polêmica envolvendo a opinião de um dos líderes da Tropicália em relação às biografias não autorizadas, Caetano Veloso foi ímpar ao escrever a letra e, em especial, esse trecho da música.

No começo dos anos 1980, ainda vivíamos sob o rigor da ditadura militar, que se instalou no Brasil em 1964 e oficialmente encerrou-se em 1985, com o fim do mandato do general João Baptista de Oliveira Figueiredo, o último dos militares a ocupar a presidência no Brasil. Por volta de 1982, o PT despontava como uma alternativa à política então vigente. De um lado, havia o partido oficial, a Arena – que depois passou a ser o PDS. Do outro, com ares de submissão e até subserviência, estava o MDB, que já abrigara o MR-8, um grupo de revolucionários que lutou contra a ditadura e que tinha bons nomes em seus quadros, mas não representava os anseios da maioria do partido. Tempos depois, mudou para PMDB.

Lembro que eu, Sílvio, Hélcio, Eduardo, Edmilson, Gérsio e outros amigos, simpatizávamos com o PT. Meu flerte com o partido durou até a virada do século XX. Acreditava que aquela legenda havia vindo para mudar o jeito de fazer política. Um partido que atraia estudantes, intelectuais e trabalhadores - principalmente os de carreiras ligadas aos sindicatos atuantes, já devidamente conscientizados politicamente. Mal imaginava que, passados pouco mais de 30 anos, o PT mudaria seus rumos radicalmente.

A começar com Lula. Era nossa esperança. Quando digo nossa, falo em nome dos amigos que militavam. Acho que hoje, só o Eduardo ainda é petista e tem lá suas razões. Lula era uma liderança, mas, em minha opinião, transformou-se em uma decepção. Logo que assumiu a presidência da República, tornou-se mais populista que o maior líder populista brasileiro, Getúlio Vargas. Aquele mesmo que, no início da Segunda Guerra Mundial, flertou com o nazismo, oferecendo a Adolf Hitler a judia russa Olga Benario – mulher do líder comunista e seu desafeto político, Luís Carlos Prestes – em sacrifício. Um detalhe: Olga estava grávida de Prestes quando foi entregue ao nazismo para, tempos depois, ser morta em um campo de concentração.
Anos depois, Getúlio deixou o flerte com o nazismo e apoiou os Estados Unidos na guerra, tudo para se eternizar no poder.

Tal qual fez Lula, que até no futebol intercedeu para garantir a construção do estádio para seu time do coração, o Corinthians, usando todo o seu poder e prestígio em fim de mandato - espero que seja só isso. Mas Lula superou Getúlio com programas pseudossociais onde dá ajuda, mas não capacita o cidadão. Isso o atrela eleitoralmente ao governo. Tudo pago com impostos para garantir a continuidade de seu grupo no poder.

Fora da nova ordem mundial

E um de seus afilhados políticos seguiu a cartilha do novo PT. Fernando Haddad – também já sendo citado como Malddad -, enfrentou protestos no efervescente junho deste ano. Foi obrigado a tergiversar e acenar com uma redução na tarifa dos ônibus urbanos. Agora aprovou na Câmara Municipal de São Paulo um projeto de aumento abusivo no IPTU para fazer jus às possíveis perdas das empresas que operam o transporte coletivo na Capital. Quer dizer, toda a população, inclusive a que não utiliza o transporte coletivo, vai pagar a conta. Fosse em outros tempos do PT, seriam os empresários, com seus lucros tidos como exorbitantes, quem pagariam a conta.

Mas este não é o principal problema, a meu ver, no PT do novo milênio. A maior aberração, em minha opinião, foi mesmo a privatização do nosso petróleo. Com o Leilão de Libra, a presidente Dilma Rousseff apareceu para dizer maravilhas sobre sua obra. E justificou que, "é claro que as empresas vencedoras do leilão visam o lucro, mas o Brasil saiu ganhando". Sou totalmente incrédulo a essa afirmação da presidente.
A meu ver, houve sim a privatização de nossas reservas petrolíferas. Não haveria necessidade de entregar para empresas do exterior o direito de explorar nosso petróleo e receber quirelas por essa operação. O Brasil poderia, ele próprio, administrar isso e contratar tais empresas para prestarem serviços. Talvez rendesse 30% para eles e 70% para o Brasil, não o contrário como foi feito com a privatização.

O efeito pode ser ainda mais devastador. Além de entregar nosso petróleo, Dilma pode também ter decretado a falência da Petrobrás, que terá de cobrir sua participação com capital no "negócio da China", num momento em que, apesar de garantirem que há caixa, há muitas incertezas em relação à saúde financeira da empresa de economia mista que controla o petróleo brasileiro.

Não tivesse Caetano escrito a música em 1989, certamente não lhe faltaria inspiração para escrever agora. Afinal, o PT está privatizando nosso petróleo. E o PSDB está protestando contra a privatização. "Alguma coisa está fora da ordem. Fora da nova ordem mundial".

Adalberto Luque
Jornalista

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Blog do Adal: Maioridade penal

Blog do Adal: Maioridade penal: Bom dia, amigos. Pensando na volta do Blog, em periodicidade ainda a ser definida - e aproveitando para agradecer aos pedidos para que volta...

Maioridade penal

Bom dia, amigos. Pensando na volta do Blog, em periodicidade ainda a ser definida - e aproveitando para agradecer aos pedidos para que voltasse a publicar meus textos -, segue um ensaio, lembrando que opiniões e críticas são sempre bem vindas:

O tema tem sido recorrente e vejo pessoas que respeito muito, para se manifestar contrariamente à questão, postando outros temas que, igualmente, merecem atenção. Mas que não são suficientes para afastar a necessidade da discussão. Como jornalista, atuando na área policial há mais de 20 anos, acredito que a questão deva sim ser tratada com seriedade e tomo aqui a liberdade de expor minha opinião.

É ingenuidade acreditar que a não redução da maioridade penal é desnecessária e que a violência dos menores pode ser resolvida com ações sociais. Tais ações são necessárias, indiscutivelmente. Principalmente no campo da educação pública que deveria ter muito mais qualidade e ser tratada com o devido respeito pelos governantes nos âmbitos municipal, estadual e, sobretudo, federal.

Assim como a questão dos cursos técnicos de qualidade para formar profissionais para o mercado de trabalho. Outra questão que merece consideração é o fim dos projetos que mais causam dependência social do que resolvem a questão da população de baixa renda. Chega de auxílio isso ou auxílio aquilo. Precisamos sim que o governo deixe o populismo de lado e crie instrumentos para gerar empregos e absorver a mão de obra, inclusive a recém-chegada ao mercado de trabalho.

Mas a questão da redução da maioridade penal é uma necessidade urgente. Não se trata apenas do lugar comum em se afirmar "se tem discernimento para roubar, tem discernimento para responder pelo crime". Trata-se, sobretudo, de acabar com a sensação de impunidade. Igual àquela que levou um menor a matar um estudante de jornalismo no bairro do Belém, em São Paulo, de forma brutal e covarde. O assassino confesso completou 18 anos poucas horas depois de ceifar uma vida e destruir as esperanças de uma família.

Este é apenas um entre incontáveis casos. Aí sim, eu também recorro ao lugar comum: se uma pessoa já é considerada cidadão aos 16 anos para votar - e o voto é, sim, uma arma perigosíssima no Brasil, então ele também deve ser responsável pelos crimes que cometer. Pode votar, mas não pode cumprir integralmente uma pena por homicídio?

É bem verdade que as medidas sócio-educativas às quais os infratores menores de idade são submetidos, na verdade, não recuperam ninguém. Nos centros onde os menores cumprem as tais medidas, chamadas em São Paulo por Fundação Casa, as populares Febem (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor - na sigla usada até meados dos anos 1990), não há uma recuperação verdadeira. Ao contrário. O regime que impera nesses centros de reclusão de menores é o mesmo verificado nas cadeias, detenções e presídios pelo Brasil afora.

O primeiro e mais importante passo seria, sim, mudar o sistema prisional e penal. Para maiores e menores de idade. Depois exigir que quem cumpra pena trabalhe e estude. Não de forma paliativa, mas de forma efetiva. Principalmente na Fundação Casa. Se a Constituição Federal garante o ensino para todos, torna-se fundamental aplicar cursos nos centros de reclusão de menores.

E o passo principal é, sim, tratar um menor potencialmente perigoso, que banaliza a vida de terceiros e a sua própria, como responsável por seus atos, submetendo-o às penas efetivas da Lei. Só com o fim da sensação de impunidade é que a sociedade terá condições de reduzir o ingresso de menores de idade no contexto da criminalidade. Caso contrário, o crime organizado continuará de portas abertas, recrutando um exército de menores para suas ações, respaldados pela impunidade garantida por nosso Código Penal.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Ainda somos os mesmos e vivemos...

Há cerca de duas semanas, achei bastante interessante um artigo do jornalista Marcelo Canellas, com quem tive o prazer de trabalhar e conviver na EPTV (Globo) de Ribeirão Preto. No texto, ele escreve com muita propriedade a forma pela qual se enxerga e que ainda se surpreende ao ver que, no espelho, não está aquela pessoa que ele tem em sua memória.
Marcelo Canellas se vê exatamente como no auge de sua mocidade, com vinte e poucos anos, vigor de "foca" (jornalista iniciante, se bem que isso ele mantém até hoje), cabelos negros e quilos a menos. Porém, quando ele se mira no espelho, vê um reflexo totalmente adverso ao que tem em sua mente sobre sua própria pessoa.
Comigo acontece exatamente a mesma coisa. Eu até evito olhar no espelho, porque a decepção é sempre grande. Além dos quilos a mais, dos cabelos começando a ficar grisalhos e bem mais ralos que nos áureos tempos em que cultivava uma cabeleira de "roqueiro contestador", começam a sobressair as marcas de expressão. Mas tão logo saio da mira destruidora do espelho, volto a me sentir como antes, tão logo entrei para a fase adulta de minha vida.
No último final de semana, entretando, percebi que essa relação vai além do espelho. Eu já havia até parado para pensar que vejo Martha, minha esposa, exatamente do jeito que ela era, há 29 anos, quando nos conhecemos ainda no colégio, ou há 27 anos, quando começamos a namorar, nos primeiros dias de faculdade.
Mas reunimos uma turma que não se via há um bom tempo, na sexta-feira, 24 de agosto. O encontro reuniu uma galera do colégio - hoje ensino médio - e que trabalhou junto em uma empresa de consórcio de automóveis, a Conprof. Pois família por família, cada um que chegava ao local, a sensação era a mesma: ninguém mudou nada.
Nem mesmo o tempo, a distância, as marcas adquiridas - com merecimento e até com orgulho, pois chegamos até aqui. Nada disso fazia com que visse aquelas pessoas como muitos as vêem hoje. Maria Edna, Nilza, Sandrinha, Cláudio, Ariane, Álvaro, Ivone, Amarildo, Iara, Baduca, Eduardo Theodoro, Sandra Valverde, Mirinha... Estavam todos do mesmo jeito, ninguém mudou nada. Talvez para o Dimas e para os filhos, aquela turma não passava de um grupo de pessoas rumo a meio século de vida. Mas para nós, aquele encontro significou muito mais. Significou que o tempo nem sempre é soberano. E que a distância não é suficiente para apagar de nossas memórias os bons momentos da vida, nem mesmo diante das adversidades que todos ali enfrentaram ou enfrentam.
Foi um momento tão mágico quanto o retratado na música eternizada por Elis Regina: "apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais".
E a coisa não parou ai. No sábado festa da Giovana, irmã do Cauê e filha da Dani... e do Sílvio. Meu amigo em atividade por mais tempo. Nos conhecemos em 1979 e, desde então ainda mantemos amizade. Pois fomos à festa e lá encontramos o Edson, também da galera do Comercial. E encontramos os irmãos do Sílvio, um capítulo à parte. O Silas ainda é o mesmo menininho que se divertia fazendo roda-roda com a chave do carro do meu pai. Ou que jogou futebol de botão comigo a manhã inteira no dia em que eu me casei, ajudando a passar o tempo e deixar mais calmo - embora ele tenha ganho com o seu Palmeiras do meu São Paulo. A Sueli é a mesma baixinha invocada que adorava - e adora - Educação Física. O Sérgio e seu jeito reservado daquele garoto que vivia com violão às costas, sempre admirável. O Sidnei ainda é o molecão que vivia querendo saber de tudo para aprender mais. E o Sílvio é o mesmo que me ensinou a curtir Caetano Veloso e Beatles.
Mais à noite, passamos pela casa da minha irmã Angelica e ela e meu cunhado Luiz estavam do mesmo jeito que em 1985, quando se casaram naquele 19 de janeiro. Talvez isso explique, por exemplo, porque ao ver a foto da Fani no facebook, com quem trabalhei no BHU/Aymoré, não a reconheça da forma como ela é hoje, mas me venha à lembrança como ela era nos anos 1980.
Alguém que estiver lendo, certamente vai se perguntar: então ninguém envelhece? Claro que envelhece, mas isso que senti e sinto talvez só Freud explique. Isso é um tipo de memória menos cerebral e mais do coração.
ADEUS
Quando desembarquei em Ribeirão Preto, há quase 25 anos, fui a um telefone público e pedi, através do 102, o número da TV Globo local. Pedi para falar na Chefia de Reportagem e um homem com voz grossa e jeito matuto me atendeu. Ouviu meu pedido de emprego e me convidou a ir até o local. Não fosse João Garcia, talvez eu jamais tivesse mudado para Ribeirão Preto e aqui construido minha vida familiar e profissional. Ele foi o meu grande padrinho no jornalismo, deu-me a oportunidade da vida. Autor de três livros, João Garcia foi certamente o melhor jornalista na concepção da palavra com quem tive o prazer de trabalhar. Ontem, aos 65 anos, ele nos deixou, vítima de um mal súbito. Vai com Deus, João Garcia. Certamente terá muitas ótimas pautas para onde vai. E obrigado por tudo!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Muito obrigado

Aproveitando as férias escolares de julho, vou tirar alguns dias para recarregar a alma, ao lado da esposa e dos filhos. E gostaria de agradecer a todos os amigos que diariamente ou eventualmente passam por aqui para ler minhas opiniões, para pontuar o que pensam, enfim, para nos comunicarmos através dessa ferramenta maravilhosa que é a internet.
Quando voltar, o Blog do Adal deixa de ser diário e passa a ser eventual. A razão é que pretendo falar quando tiver o que falar, para não cansar ninguém com informações sem conteúdo. A princípio, o único dia fixo do Blog na semana será a sexta-feira. Nos demais dias, quando houver assunto e oportunidade, estarei presente. E vou me comunicar com as ferramentas que uso atualmente, o que não impede que você dê uma passada por aqui e releia os textos. Eles estarão sempre aqui.
Conto com a participação, sugestão, crítica e apoio de cada um dos amigos - dos que conheço há anos e dos que conquistei com este Blog. Cada um de vocês é ,por demais, importante em minha vida e me faz renovar, a cada dia, minha missão de informar, objetivo que tracei lá atrás e que pretendo manter até o meu último dia de vida. Até o próximo texto e tenham um ótimo final de semana.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Faroeste urbano

Ele cresceu na periferia de Guarulhos. Sua mãe casou-se cedo com seu pai, aos 14 anos. Era 10 anos mais nova que o marido, vindo do sertão da Bahia. Os dois tiveram mais de 10 filhos, mas apenas quatro deles sobreviveram ao parto, aos primeiros dias ou à infância.
Quando se mudaram para o bairro, bem distante e isolado do resto de Guarulhos, ele tinha nove anos. Cresceu como se vivesse em cidade do interior. Logo que chegaram ao conjunto habitacional, um vendaval destelhou várias casas e eles foram alojados, temporariamente, num conjunto de prédios que estava sendo construído na zona norte, no Jaçanã, perto do Clube de Campo Guapira.
Mas foi no Veloso que ele se divertiu à valar. Como todo moleque naquela época, vivia na rua. Soltava pipa, rodava pião, jogava bolinha de gude e adorava brincadeiras coletivas, como pega-pega, queimada e outras do gênero. Em pouco tempo, tornou-se uma espécie de ídolo dos mais novos. Cuidava dos menores sempre com muito carinho. Inclusive de uma sobrinha seis anos mais nova que foi morar com ele por um tempo após ter perdido o pai.
A vida foi passando e o menino virou homem. Ainda assim, era muito popular e com muitas iniciativas. Foi procurar emprego e conheceu as más companhias. Junto com as más companhias, conheceu a maconha. Tal qual a música "Faroeste Caboclo", do Legião Urbana, "já no primeiro roubo ele dançou e pro inferno ele foi pela primeira vez".
Assaltou um ônibus e acabou baleado e preso. Ficou um tempo atrás das grades até que a família conseguiu soltá-lo. A essa altura, estava prestes a ser pai. Tomou jeito na vida e tratou de se dedicar à família. Mas tinha outros vícios: o cigarro e a bebida. Mas continuou tocando sua vida.
Nasceram dois meninos, com intervalo de um ano entre ambos. Inconformado com a relação patronal, ele sempre tentou se virar e, em algumas ocasiões, se deu bem em seu improviso. Aprendeu a misturar massa, assentar pisos e azulejos e fez as vezes de ajudante de pedreiro. Achou que podia e passou a pedreiro.
Foi mais além e envolveu-se com políticos. Sempre popular, tornou-se uma espécie de cabo eleitoral naquela periferia de Guarulhos, esquecida pelos homens. Ajeitou as imediações de onde morava. Com sua habilidade, construiu em cimento armado uma grande mesa. Lá a garotada se dividia para desafiá-lo em partidas de pingue-pongue e futebol de botão. Os filhos cresceram vendo o pai ser aquele herói da longínqua periferia.
Reunia a molecada e passavam a madrugada nos brejos das imediações capturando rãs. O banquete no almoço do dia seguinte era farto. Ele mesmo limpava os saborosos anuros, tirando a pele e temperando. Depois fritava, divertindo-se com os espectadores, que viam a rã tento espasmos musculares na frigideira, como se viva ainda estivesse.
Algumas tubaínas para a molecada e a festa estava completa: rã com tubaína. No pedaço era autoridade. Fazia pipas como ninguém. Passou a misturar componentes químicos que comprava em casas de produtos agrícolas e passou a fabricar veneno para combater insetos em residências. O produto era bom e a procura cresceu a ponto de juntar algum dinheiro e comprar um pulverizador, fazendo dedetização nas casas do bairro e região.
A essa altura, ele tinha mais dois filhos e as imediações de seu bairro, finalmente, chegaram por linhas tortas até a última área habitável de Guarulhos. Houve invasões dos sem teto e o bairro acabou integrado à cidade. O que muitos não sabia é que, mesmo durante todo esse período de popularidade, dedicação e bons exemplos como pai, ele manteve seu lado oculto e continuou consumindo drogas.
A coisa só ficou escancarada quando ele já estava viciado no crack. Sua aparência o denunciou. Sua debilidade o sentenciou. A família se desestruturou. A mulher, que sempre trabalhou como doméstica em casas de família, passou a sofrer com a diabetes e ter dificuldade para trabalhar. A filha foi mãe solteira com menos de 16 anos. Os dois filhos mais velhos tiveram problemas com a justiça. Todos foram se separando. Hoje os dois filhos se recuperaram e tocam a vida. A mulher, a filha, o outro filho e o neto também sobrevivem com dificuldade.
Ele perdeu o pai - talvez a maior perda de sua vida - quando tinha 16 anos e há alguns anos a mãe. Ficou com a casa, velha, com impostos atrasados e que mais parece um castelo mal feito, tantos os "puxadinhos" lá existentes. Vive como zumbi. Seu tempo se divide entre consumir crack e se recuperar no que pode para acender um novo cachimbo. Ele até tentou se tratar, parentes chegaram a interná-lo, mas a fissura é maior que qualquer remédio ou vontade própria.
Antes silenciosa, a droga hoje escancara para o mundo mais um da enorme legião de zumbis. Quem não o conhece jamais imagina que atrás daquela figura mal ajambrada existe um homem que foi um moleque feliz, que foi exemplo para seus filhos e que foi admirado. Ali está apenas e simplesmente para a maioria das pessoas, mais um viciado, uma pessoa que muitos querem simplesmente apagar de sua visão. Esse é o resultado do crack e das drogas em geral.