Falando ontem com minha irmã Angelica, ouvi dela que janeiro é um mês que deveria ser apagado do calendário. Aí analisei a situação do Rio de Janeiro - o estado da Cidade Maravilhosa - e comecei a pensar que o Rio poderia ser de qualquer outro mês, menos de janeiro.
Há anos seguidos, o Estado é duramente castigado e conta seus mortos no mês de janeiro. Apenas para ficar nos casos mais recentes, houve o deslizamento de encostas em Angra dos Reis e Ilha Grande há cerca de dois anos; o deslizamento de encostas na região Serrana no ano passado e, neste ano, o desabamento de três prédios. As três tragédias mataram, juntas, centenas de pessoas. Mais de mil vidas tiradas assim, de uma hora para outra.
Mas não venham dizer que isso é pura fatalidade. Não é. Trata-se do reflexo de uma situação vivida em todo o País, mas que nas terras guanabaras se evidencia ainda mais. A ocupação de encostas, colocando vidas em risco, é um problema social visto por todo o Brasil, é verdade. Mas acentua-se no Rio de Janeiro. Como no primeiro mês do ano o índice pluviométrico é maior, a coisa fica mais complicada, suscetível a tragédias. E como os políticos lavam as mãos durante ocupação - quando não são os próprios que incentivam-nas visando obter vantagens políticas no futuro.
Na questão do desabamento dos três edifícios na Cinelândia, a coisa é um pouco mais complicada. Alia a ganância de pessoas que querem gastar pouco e obter grandes lucros - no caso dos causadores -, com a corrupção, descaso, omissão de quem deveria fiscalizar e primar pela vida das pessoas.
Em abril deste ano, fará exatamente um ano que estive no Rio de Janeiro com minha família. Lembro que na quinta-feira, véspera do dia da Paixão de Cristo, estive no Amarelinho, tradicional bar na Cinelândia. E num raio de menos de 500 metros de onde estive, três pontos seriam protagonista de tragédias com morte. Isso não faz nem um ano.
O primeiro deles foi o Bondinho de Santa Tereza. A estação de embarque fica a poucos passos dos prédios que desabaram, em frente à sede da Petrobrás, um portentoso prédio cravado no centro carioca. Por conta de manutenção inexistente, vidas foram ceifadas após um dos bondes perder o controle e sair, literalmente, dos trilhos.
Pouco tempo depois, também a poucos passos de onde estive, no Amarelinho, e a menos de uma quadra dos prédios que desabaram, foi a vez do Filé Carioca explodir, matando, inclusive, quem passava na calçada em frente. Agora foram os prédios. Isso para ficar apenas nesse cenário. E o que tem em comum essas três tragédias? Como já disse, descaso, omissão, corrupção. No caso do trem, as peças eram, certamente, cobradas do erário público. Os pagadores de impostos pagavam para que tais peças fossem utilizadas na manutenção. Mas o que se viu foi um bonde destruído e, no sistema de freio, apenas clipes e arames improvisando as tais peças.
No Filé Carioca, o problema foi a fiscalização. O prédio não podia armazenar botijões de gás, mas o proprietário do estabelecimento o fazia, independente da ação de fiscais, o que, certamente, se ocorreu, foi apenas para "coletar" a caixinha e não para autuar. Já no caso dos prédios, ao que tudo indica, obras sem autorização, clandestinas e sem o mínimo conhecimento estrutural, foram executadas, comprometendo a estrutura do prédio mais alto, o Edifício Liberdade, pondo abaixo outros dois e a vida de muitas famílias.
E o que poderia se fazer para evitar as tragédias? Simples: fazer valer a Lei. Apenas isso. Fazer com que a manutenção dos bondes fosse feita. Fazer com que os botijões de gás não estivessem no Filé Carioca. Fazer com que a obra tivesse cumprido todos os trâmites e fosse aprovada por setores competentes.
No Rio de Janeiro, essa situação é mais evidente que no restante do País, embora ocorra indistintamente. Justamente no local onde, em pouco tempo, será uma das sedes da famigerada Copa do Mundo da FIFA e das Olimpíadas de 2016. Mas, fazer o quê? Afinal, o Rio de Janeiro continua lindo.
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