A bandidagem anda à solta e muita coisa que deveria servir para trazer alegria ao povo virou meio de vida para alguns. O maior exemplo disso pode ser visto na tarde da terça-feira gorda, ainda carnaval, mas já com a apuração das notas do carnaval paulistano, por imposição da Rede Globo, que como de costume dita as normas em tudo o que se mete, de futebol a carnaval, de show a missa. Sim, pois até a Santa Missa em Seu Lar e a missa do Padre Marcelo Rossi são realizadas de acordo com interesses da emissora.
Pois bem, já de muito tempo o Carnaval deixou de ser algo meramente cultural para tornar-se meio de vida para alguns. Muito dinheiro público em jogo, despertando cobiça de grupos paulistanos que, a exemplo do Rio de Janeiro com seus bicheiros, dominam os bastidores das escolas de samba. A coisa piorou com a chegada da Gaviões da Fiel. Desde que subiram, há mais de uma década, ao grupo especial, o Carnaval vive momentos de tensão. O grupo de torcedores violentos acha que, por conta de agradarem à sua própria torcida, única e exclusivamente, já é motivo para torna-los favoritos ao título do carnaval. E sempre há confusão, brigas, protestos, atos de vandalismo explícito.
Com a chegada da Mancha Verde e agora da Dragões da Real - e talvez no próximo ano da Torcida Jovem, o carnaval paulistano vê agremiações tradicionais perderem espaço para as torcidas organizadas, algumas das quais que agem como bandidos da mais alta periculosidade no entorno dos estádios. Seus dirigentes, não raras exceções, têm voz ativa nos clubes e ameaçam jogadores que não se identificam com as uniformizadas. A Mancha, por exemplo, esteve envolvida em diversas situações, inclusive em agressão a jogadores. Depois minimizam dizendo ser ato isolado de alguns torcedores com as camisas das torcidas.
Agora chegam ao carnaval. O que o bando de torcedores animalescos da Gaviões fez, ontem, no sambódromo, durante a apuração, mostra esse ânimo. E faltou muito pouco para haver um enfrentamento entre as outras torcidas. A Mancha, que não acompanhou a apuração por acordo prévio, estava nas imediações e, não fosse a ação das Polícias Militar e Civil, haveria uma tragédia sem precedentes.
O carnaval, que já vinha sendo manchado, perdeu o mínimo de notoriedade que buscava junto ao cidadão comum. Pior foi ver que policiais militares e civis tiveram que sair às ruas com viaturas, helicópteros, carros especiais para gerenciamento de grandes crises e muita estratégia tentando evitar um mau maior. Mas essa ação foi ela própria um absurdo, pago com imposto de cada um dos leitores. Afinal, manter helicópteros, viaturas e efetivo nas ruas para conter um bando de animais irracionais custa muito. Sem dizer que houve um risco iminente de onda de roubos em outras regiões da cidade, que ficaram desguarnecidas graças ao carnaval paulistano.
E o que se viu ao final? Nada. Nem sequer falaram até agora em banir definitivamente a Gaviões da Fiel do carnaval paulistano. Nem as outras agremiações ligadas a torcidas de futebol. Ao contrário, ficou o dito pelo não dito. Bons tempos aqueles dos desfiles na Avenida São João e na Avenida Tiradentes. E nem mesmo Oscar Niemeyer assumiu a autoria do sambódromo paulistano, tão propagada pelas autoridades políticas. Primeiro porque ele não fez. Segundo, porque certamente não concordaria com o que se passou ontem em sua pseudo-obra. Chega de torcedores de times no carnaval. Chega de dirigentes gananciosos. Que se resgate o carnaval de outros tempos ou, simplesmente, que se acabe com a mania já arcaica de esperar o carnaval acabar para o ano começar. O Brasil precisa é de trabalho, pois de meio de vida muita gente sobrevive muito bem.
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