segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Memórias de office boy

Tenho muitos amigos que, assim como eu, orgulham-se de terem começado no mercado de trabalho atuando como office boy. Profissão quase extinta nos dias atuais, diante da possibilidade de pagar contas pela internet ou pelo fone bank. E os poucos que atuam, na verdade, deveriam chamar-se office old, pois algumas empresas contratam idosos para pagar contas, diante do benefício que têm em atendimento prioritário nas agências bancárias.
Mas ter sido office boy, ou simplesmente boy, ensinou-me muita coisa na vida. E lembrei muito da "carreira", quando deparei com uma foto de João Bittar, ou simplesmente "Mestre" Bittar, um dos grandes fotógrafos da imprensa paulistana. Ele posava sobre um viaduto, tendo ao fundo a avenida 23 de maio. Vendo aquela foto, lembrei-me dos bons tempos de boy em São Paulo.
Estudava pela manhã e trabalhava apenas das 14h00 às 16h00, de segunda a sexta-feira. Minha rotina era sempre a mesma: pagar contas, fazer depósitos, reconhecer firma, lavrar documentos em cartórios. Enfim, esmiuçar o centro velho da Capital Bandeirante. Trabalhava para um advogado, hoje criminalista famoso que atua em programas de televisão. Seu reduto era na Rua Tabatinguera, uma ladeira que sai atrás da Praça da Sé e vai até o Parque Dom Pedro.
Quando o boy começava a se enturmar com seus pares, a vida ficava sempre mais fácil. Nas enormes filas do BaCen (Banco Central), só mesmo sendo amigo de outro boy para não ficar a tarde toda na fila. Se isso ocorresse, o boy teria vida curta no emprego. Então, uma mão lavava a outra e as duas se enxugavam juntas. Era chegar lá, sempre tinha um boy para ajudar, pegar o serviço e ficar na fila. Em contrapartida, o que chegava depois pegava o "trampo" dele em cartórios, juntava com o que tinha e seguia. Depois, se encontravam por volta das 17h00 - sim, no BaCen ou na agência anexa do Banco do Brasil, que ficava na esquina das rua São Bento com Av. São João, não se saía antes desse horário. Trocavam os serviços feitos e seguia cada um rumo ao seu escritório, entregar o que foi feito ao patrão.
Nos cartórios, a história era diferente. Não tinha esse negócio de senha, como é hoje. Tampouco fila única. Ou era na base da cotovelada, ou na base do carisma, da simpatia. Descobri isso rápido e, sempre que entrava nos cartórios da Rua Líbero Badaró, era atendido rapidamente. Tinha um prédio abarrotado de cartórios. Cartório de Títulos e Protestos, de Registro de Imóveis, de Registro de Pessoas Físicas e por aí vai. Ele ficava na esquina da Rua Líbero Badaró com o Viaduto do Chá.
Falando no Viaduto do Chá, muitas vezes passando por lá sempre tinha alguém tentando suicídio. Aí era aquela aglomeração e a pessoa não pulava. Quando os boys se reuniam e viam que não ía dar em nada, em grupo, gritavam: "Pula, pula, pula". Aí os bombeiros retiravam o candidato a suicida, ouviam algumas vaias - na verdade, ninguém queria ver alguém pulando, mas as vaias compunham o repertório dos boys - e tudo voltava ao normal.
Sempre valia a pena, quando cruzava o Viaduto do Chá rumo à rua 7 de Abril, dar uma parada na cafeteria das Lojas Mappim, que ficava, se não me engano, no terceiro andar. Tinha salgados deliciosos. O que me desmotivou a continuar lá foi que, numa dessas tardes, naqueles elevadores talvez da época da fundação de São Paulo de Piratininga, despenquei do segundo andar, num tóininhoinioim que ficou em minha cabeça por uns dois ou três dias.
Quando o assunto era Detran, eu adorava. Geralmente o patrão pagava um táxi até lá. No trajeto, ia deslumbrado com os prédios no entorno da 23 de Maio. Lembro de quando começaram a construir o Centro Cultural, ao lado da estação Vergueiro, do Metrô. Lá foi um point de minha turma, no colegial (também conhecido por segundo grau ou, atualmente, ensino médio). Ele passava sob o início - ou final - da Avenida Paulista e já avistava o Obelisco. Na descida até lá, à direita, tinha uma construção em forma de navio. Era a Casa de Portugal, restaurante chique, que nunca tive como ir com meu próprio salário.
Falando em salário, o meu primeiro foi gasto com uma lata de doce sírio. Comprado na Galeria Pajé, região da rua 25 de Março, hoje dominada por chineses e coreanos. Naquela época, quem mandava lá eram libaneses, sírios e vários decendentes de países do Oriente Médio. Na própria Galeria Pajé, não tinha essa febre de eletrônicos. Eram roupas. Tinha sempre alguém com um cartão na mão gritando: "É Lee, Levi's, Staroup, US Top. Vai aí, patrão?". Bons tempos aqueles da sempre mágica cidade de São Paulo.

4 comentários:

  1. hehehe muito bom Adalberto, essas lembranças geralmente nos faz bem. US TOP eu nunca mais tinha ouvido falar hehehe
    abraços

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  2. e eu ainda frequento as "lanchonetes" ´sírias para comprar esfiha e ralew(não sei se escreve assim)na região da 25 de março.Só que agora os camelôs gritam : ó o pen drive,pen drive,pen drive,rsrsrsrsrrss

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  3. O que é eterno não se discute, Edu!
    Amigo anônimo, é bom saber que ainda vendem o tal doce sírio. O ralawi era e é o meu preferido. Foi com uma lata dessas que gastei meu primeiro salário.

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    1. A amiga anônima compra para vc quando vc vier para SP, mas me avisa antes, tá, meu lindo irmão...kkkkkkkk Faço esse sacrifício de ir na 25...kkkk
      Angelica.

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