sexta-feira, 30 de março de 2012

A vida é um reality show

Quando Jim Carrey estrelou The Truman Show - no Brasil recebeu o nome de O Show de Truman -, ainda não se falava em reality show. O filme, lançado em 1998, mostrava pela TV 24 horas por dia da vida de um homem, desde que veio ao mundo. Ele vivia numa cidade cenográfica e contracenava com outros atores, sem sequer imaginar que estava tendo sua história transmitida ao vivo em cadeia nacional.
Apenas dois anos após o lançamento do filme, surgia no Brasil o programa No Limite, um reality show inspirado em Survivor, grande sucesso nos Estados Unidos. Antepondo-se ao lançamento do BBB (Big Brother Brasil), um formato onde pessoas são confinadas numa casa, que estreou em 2002, o SBT de Sílvio Santos lançou em 2001 o Casa dos Artistas. A fórmula, infelizmente, caiu no gosto popular e hoje os programas do tipo reality show se multiplicam pelas emissoras de TV.
Uns mais bizarros que os outros, os reality, sempre acompanhados pelas câmeras que captam, editam e transmitem para o público todo o tipo de barraco, são realizados em casas, ônibus, academias. Reúnem cidadãos comuns, "artistas", aspirantes a modelos e jogadores de futebol.
A questão é que o País literalmente para e discute as "ideias e ideais" dos confinados como se aquilo fosse a solução de todos os problemas. E quando a audiência está em baixa, nada melhor do que um fato extraordinário para dar fôlego ao programa. Que o diga a última edição do BBB, encerrada ontem. Quando parecia que tudo seria um grande fracasso, até porque a fórmula repetida à exaustão em 12 edições já cansou, uma suposta prática de estupro foi detectada e divulgada em cadeia nacional.
Jornais, revistas, portais de internet, emissoras de rádio e TV, todos voltaram-se para a tal da "casa mais vigiada do Brasil", como propaga aquele que outrora foi um grande jornalista e hoje demonstra ser grande comunicador e apresentador, Pedro Bial. Como se nada mais no mundo estivesse ocorrendo. Saio do meu prédio e ouço a faxineira conversando com a outra sobre o caso. Vou ao supermercado e vejo duas mulheres indignadas com o que ocorreu. Entro na fila da lotérica para "fazer uma fezinha" e dois homens quase trocando tapas. Um dizendo que a mulher consentiu e outro dizendo que o rapaz abusou dela bêbada, sem que soubesse o que fazia.
Não bastasse isso, a emissora que transmite o BBB está emendando um reality em outro. Terminada a última seção dominical do BBB-12, a Globo começou outra competição em uma casa formada por aspirantes a lutadores de artes marciais livres. Isso me faz questionar onde iremos parar. Qual será o nosso próximo brilhante reality show? Que tal trancar duas turmas, uma de meninos e outra de meninas, para ver quem é o melhor na bolinha de gude e a melhor no jogo de amarelinha? Mas não bastará apenas jogar, eles terão que se superar na convivência. Quem sabe um BBB em marte, na lua, sei lá.
Talvez seja por essa febre de reality shows que o povo não se deu conta que a vida, "aqui fora", é um verdadeiro BBB. Basta ver a quantidade de câmeras espalhadas. Você entra no banco e tem câmera para todo lado. Vai ao Shopping e as câmeras te acompanhando. Sai às ruas e câmeras de segurança de prédios, casas e estabelecimentos comerciais ou industriais gravam tudo. Isso quando não é as câmeras da Polícia, acompanhando o movimento nas ruas. Outro dia fui levar minha cachorrinha Pandora para dar uma volta. Em dado momento, dou de cara com uma placa, à porta de uma academia, onde estava escrito, em tom ameaçador: "sorria, o cocô do seu cachorro está sendo filmado". É puro reality show!
Bom final de semana a todas e a todos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Tenho medo de dormir

Hoje, excepcionalmente, deixo de publicar o texto divulgado ontem à tarde por conta de alguns acontecimentos "inesperados". Prometo, aos "fãs" dos reality shows, que amanhã estarei escrevendo sobre o assunto. Mas o que me levou a mudar os rumos do meu artigo diário foi, ao abrir o jornal, perceber que tenho medo de dormir, pois quando acordo, há tantas novidades que não é possível se conter.
Na semana passada, foi na calada da noite que vereadores de Ribeirão Preto, numa atitude talvez não ilegal, mas imoral, aumentaram seus vencimentos para a próxima legislatura em mais de 39%. Pois bem, Ribeirão Preto vive, a exemplo de tantos outros municípios, a concreta possibilidade de aumentar o número de edis. Mesmo contrariando a grande maioria da população, que é contrária ao aumento.
Nada contra o legislativo municipal, seja de Ribeirão Preto, de São Paulo ou de qualquer outra cidade. Ao contrário, precisamos dos vereadores para evitar mal gasto com o dinheiro público por parte de prefeitos. Cabe ao vereador fiscalizar todos os gastos municipais, além é claro, de apresentar projetos que beneficiem a população - não somente propostas para nomes de ruas e praças ou títulos de cidadania, ações que têm seu valor a título de homenagear pessoas, mas que não são o único atributo da edilidade.
E, especificamente em Ribeirão, existe um grande movimento protestando contra o aumento dos atuais 20 para 27 vereadores no próximo mandato, que se inicia em 2013. Eles terão mais sete cadeiras por aqui, contrariando a vontade da população. E ainda assim, reajustam seus salários acima da média, com justificativas de que estão dentro do permitido em relação aos vencimentos de deputados estaduais. Ou que é melhor aumentar do que ver a corrupção emperrar. Tristes justificativas. Mas foi tudo feito na calada da noite e, quando houve protesto da população, alguns ignoraram o fato e outros disseram que foi algo orquestrado por vândalos que querem depredar o patrimônio público.
Lei Geral da Copa
Também foi na calada da noite que mais um grande absurdo do governo foi engendrado por congressistas em Brasília. A FIFA, entidade digna de muitas denúncias de escândalos, abusos do poder econômico, corrupção e outros temas para não perder tanto tempo listando-os, diante de seu patrocínio com uma companhia de cerveja, queria que a venda de bebidas alcoólicas fosse autorizado dentro dos estádios durante a Copa do Mundo no Brasil, contrariando o Estatuto do Torcedor, que proíbe tal prática.
Há alguns anos a bebida está banida dos estádios brasileiros mas, a FIFA, do alto de sua empáfia e arrogância, quer legislar sobre nós brasileiros. Quer criar um verdadeiro estado de exceção. E graças a um governo de posições fracas, vem conseguindo fazer o que quer. O Congresso ontem praticamente garantiu a venda de bebidas, passando aos estados a decisão final, colocando governadores contra a parede. Não havia o que se discutir. Se no Brasil não se vende bebidas alcoólicas nos estádios, não haveria de ser por ordem da FIFA que isso mudaria somente durante o período da Copa. Ou se mantém ou se libera de vez. Sou a favor da manutenção do veto à venda de bebidas alcoólicas nos estados. Mas nossos políticos deram uma grande parcela de colaboração.
Pode beber e dirigir se não houver bafômetro ou exame de sangue
O STJ (Superior Tribunal de Justiça) decidiu ontem que testemunhas, incluindo guardas de trânsito, e testes onde o médico examina clinicamente o motorista não mais podem ser utilizados para incriminar um motorista flagrado dirigindo embriagado. Somente o exame do bafômetro ou teste de sangue é que serão utilizados para incriminar e punir um motorista que estiver dirigindo bêbado. A medida vai beneficiar o motorista bêbado que se recuse a produzir provas contra ele mesmo, independente de haver apenas sido parado em uma blitz ou ter se envolvido em um acidente com vítima fatal.
Em síntese, o motorista está bêbado, envolve-se em um acidente e mata uma pessoa inocente, mas não pode ser penalizado se ele próprio não concordar em realizar o teste do bafômetro ou o exame de sangue. Sou leigo em direito, mas vejo uma grande inversão de valores. Mas tudo bem, morto não tem mais voz. Por isso volto a afirmar: tenho medo de dormir.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Nova fórmula de trabalho escravo

Há cerca de um ano, uma polêmica envolve o São Paulo Futebol Clube, o Internacional de Porto Alegre e o jogador Oscar. Formado nas categorias de base do Tricolor Paulista, Oscar conseguiu, junto à justiça, sua liberação alegando problemas no contrato assinado quando ainda era menor de idade e foi emancipado para essa finalidade por seus pais.
A história não é tão simples quanto parece e, apesar de Oscar conseguir um parecer favorável e desligar-se do São Paulo para jogar no Internacional, a briga continuou em outras esferas do Tribunal do Trabalho. O problema envolve ainda seu empresário, que segundo a mídia, teria orquestrado toda a situação para que Oscar saísse do São Paulo sem pagar multa e pudesse ser negociado com o Inter e, posteriormente, para o futebol no exterior, com grandes lucros para Oscar e seu empresário. Até aí, nada de anormal, não fosse o fato de que há Leis que impedem tais abusos.
As Leis escritas por linhas tortas após a Lei Pelé receber famigerada avalanche de emendas que a desvirtuaram totalmente. Hoje Oscar está, no momento, derrotado na Justiça e tem a obrigação de se reapresentar no São Paulo, para voltar a trabalhar. Do ponto de vista do trabalhador comum, isso é como se fosse um trabalho escravo, onde o trabalhador não está livre para trabalhar onde quer.
Do ponto de vista dos exageros praticados no futebol, isso é resultado de uma série de situações que fez com que tradicionais clubes do interior do Brasil sucumbissem. A ponto de cidades lutarem para ter seus times sob o risco de vê-los atravessar as fronteiras. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Grêmio Barueri, que passou a ser Grêmio Prudente e após negociações, voltou a ser o Grêmio Barueri. Ou com o Guaratinguetá, que transformou-se no Americana, voltando em 2012 para Guaratinguetá.
Rasgam a tradição das cidades no futebol em troca das negociatas. A coisa é tão complicada que times como o União São João de Araras, que revelou jogadores como Roberto Carlos, levam seus torcedores ao desespero. O União pode ser rebaixado para a terceira divisão, onde encontram-se, por exemplo, Ferroviária de Araraquara e Inter de Limeira - este último, campeão da principal divisão do Paulista. Botafogo e Comercial de Ribeirão Preto, estão morrendo afogados abraçados, dando adeus à elite, que tem os grandes dominando o cenário.
O futebol brasileiro mudou, radicalmente. Imbróglios como o de Oscar com o São Paulo não são novidades e desestimulam. E que se deixe bem claro: nenhum lado é santo. Principalmente o de Oscar, que ouviu muito o seu empresário e agora se vê contrariado. Nem São Paulo, nem Oscar, querem se reconciliar. O que está em jogo é pagar ou não uma multa milionária.
Tão milionária quanto o status do Corinthians, que de time do povão passou a ser cultuado pela elite. Só para ficar no futebol, sem citar o extra-campo, o Timão, que antes se orgulhava de ter torcedores humildes capazes de qualquer sacrifício para acompanhar um jogo do time no Morumbi ou no Pacaembu, na década de 70, tornou-se time de ricos. Afinal, pagar mínimos R$ 300 por jogo da Libertadores não é coisa para assalariado. E olhe que o Pacaembu, nestes dias, lota, com rendas milionárias destinadas ao time de Parque São Jorge.
Isso tudo tem tirado o brilho do futebol. De tal forma, que a Seleção Brasileira não empolga ninguém. Nem mesmo o técnico Mano Menezes, que disse estar desapontado com o futebol de seus comandados. Então por qual razão ele não convoca jogadores de fato dignos para as vagas na Seleção? Por qual motivo ele deixa empresários "escalarem" a Seleção da Nike, ops, da CBF?
Do outro lado, os verdadeiros escravos. Uma minoria de jogadores é milionária e uma legião de trabalhadores da bola ganham salário mínimo - quando ganham -, por amor ao futebol. É só ver os times das divisões inferiores e os pequenos e médios times. Jogadores que não seguem seus estudos por amor à carreira, à camisa, mas que não despontam para o esporte. O abismo criado há anos e alicerçado pelas mudanças canibais implementadas na Lei Pelé. Tudo pelo nosso futebol.

terça-feira, 27 de março de 2012

A violência no futebol

Quem viveu nas décadas de 1970 e 1980, pôde aproveitar o final do prazer em se ir a um estádio de futebol para assistir a grandes jogos. Os chamados clássicos sempre movimentaram um grande número de torcedores. Não somente nas finais de campeonato, mas em partidas das etapas iniciais dos torneios, assistir a clássicos era sempre a certeza de ter estádios cheios e muita festa.
Brigas isoladas até aconteciam, principalmente porque as torcidas não eram totalmente separadas - pasmem. Na década de 1970, não havia separação. Quem chegasse antes, escolhia os melhores lugares. Claro, as torcidas uniformizadas - hoje organizadas - sempre tinham suas receitas: alguns membros chegavam antes e estendiam os bandeirões nas arquibancadas, reservando espaço para os outros que chegariam depois. E, naturalmente, as torcidas uniformizadas rivais ficavam distantes, umas das outras.
Mas tinha de tudo, inclusive famílias inteiras que iam ao estádio para ver seus times de coração. Ver da arquibancada um jogo entre São Paulo e Corinthians, São Paulo e Palmeiras, Corinthians e Palmeiras, era uma emoção indescritível. Principalmente se o time preferido vencesse a peleja.
Na década de 1980, as coisas começaram a se complicar um pouco, principalmente com a "profissionalização" das torcidas uniformizadas. Criaram-se, então, os cordões de isolamento. A Polícia Militar separava as torcidas com cordas. A violência entre as torcidas foi crescendo e, ao final da década de 1980, verdadeiras muralhas foram construídas para separar torcedores de clubes rivais nas arquibancadas.
E ir a clássico deixou de ser uma coisa tranquila. Lembro que em 2000, arrisquei e fui com meu sobrinho assistir São Paulo e Santos. A torcida do São Paulo era maioria no estádio, cerca de 80%. Mas isso não impediu que, enquanto estávamos a caminho do Morumbi, um grupo de santistas em um carro disparassem rojões em nossa direção. Longe de querer dizer que os santistas é quem são os perigosos. Todos, independente de clube, travestem-se de animais irracionais quando se juntam em bandos e procuram confusão.
O problema passou, então, ao entorno dos estádios, ampliando cada vez mais o raio de ação dos marginais com camisa de torcidas uniformizadas - hoje organizadas, já que criaram fórmulas de driblar as penalidades impostas pela Promotoria Pública após sucessivas guerras nas ruas.
No jogo entre São Paulo e Santos, no dia 18 de março deste ano, policiais militares escoltavam santistas ao Morumbi, quando o grupo foi surpreendido com uma tocaia armada por torcedores sãopaulinos. Uma grande confusão se formou. Quando a PM conseguiu conter a confusão, deparou com um torcedor santista velho conhecido dos meios policiais e proibido de chegar perto do estádio em dias de jogos do Santos. Estava lá organizando a briga e depois, tentando entrar no Morumbi.
No dia 25 de março, outra guerra campal foi deflagrada. Desta vez, entre corinthianos e palmeirenses. Eles se enfrentaram nas ruas do bairro Freguesia do Ó. Resultado do confronto: um morto e dois feridos graves. Suspeita-se que a briga foi uma vingança promovida por corinthianos pela morte de outro membro de sua torcida em 2011 e marcada pela internet. O corinthiano foi morto por torcedores rivais e teve o corpo desovado no Rio Tietê. Já o palmeirense assassinado no domingo teve um irmão baleado pela PM no jogo entre Corinthians e Palmeiras, realizado em Presidente Prudente, em 2011, pelo campeonato brasileiro, após brigas entre as duas torcidas. Horas depois da batalha campal na Zona Norte de São Paulo, ocorreu na Praça Charles Müller, em frente ao estádio do Pacaembu, novo confronto, entre corinthianos e policiais militares. Muitos torcedores já tombaram. Outros tantos podem morrer nos próximos confrontos. Inclusive pessoas que não pertençam às uniformizadas ou organizadas. Isso faz com que sejam vistas cenas como as do jogo entre Ponte Preta e Guarani. Diante das constantes brigas de torcedores, estabeleceu-se que, em Campinas, o clássico entre os dois clubes da cidade, mais conhecido por Dérbi, seja jogo de uma única torcida. Vai-se o charme do futebol, em nome de uma frágil segurança. Pelo menos a FPF (Federação Paulista de Futebol) proibiu, ao menos temporariamente, a presença da Gaviões da Fiel e da Mancha Alviverde nos estádios. Poderia estender a medida a outras torcidas e de outros times, pois o torcedor comum vai agradecer.
Em tempo: outro torcedor palmeirense, vítima do confronto, teve morte encefálica no início do dia 27 de março. Segundo o Hospital São Camilo, para onde o torcedor foi levado com traumatismo craniano após o confronto entre as torcidas, não há mais atividade cerebral e ele só está sendo mantido vivo com a ajuda de aparelhos. A morte cerebral foi declarada por volta das 6h00 de hoje. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Uma verdadeira camaleoa

Cinema, teatro e televisão tem exemplos em profusão de atores e atrizes que sofreram grandes mutações em seus próprios corpos para compor um determinado personagem. Um exemplo clássico é o de Robert de Niro,   que para viver o pugilista Jake La Motta no clássico Touro Indomável, de 1980, passou por uma verdadeira transformação. No longa dirigido por Martin Scorcese, De Niro treinou boxe com o próprio La Motta, assimilando seu estilo e ainda engordou 25 quilos para viver o pugista já aposentado.
John Travolta é outro camaleão das telas. Fez diversos personagens e um deles, em especial, mostra sua versatilidade. Em Hairspray, de 2007, adaptação de uma grande peça da Broadway, Travolta interpreta Edna Turnblad, a mãe da protagonista do filme. Impagável em sua atuação, convincente pelo envolvimento no papel.
Assistindo à televisão dia desses, deparei com Cássia Kiss de volta às novelas globais, com uma nova personagem. Recentemente ela havia feito a sofrida  mãe do antagonista em novela também global. Foi então que percebi a versatilidade dessa grande atriz brasileira. Ela é o que se pode de chamar um verdadeiro camaleão fêmea ou, contrariando o meio acadêmico e parafraseando Caetano Veloso, simplesmente "camaleoa".
O primeiro papel da atriz que me chamou a atenção foi na novela Roque Santeiro, clássico televisivo dos anos 1980. Ela interpretava Lulu, a oprimida esposa do Zé das Medalhas, interpretado pelo saudoso Armando Bógus. Ao pesquisar sobre sua vida, todavia, descobri que Cássia Kiss, hoje com 54 anos, começou nas telinhas em 1979, com uma pequena participação na novela Cara a Cara, da TV Bandeirantes.
Com o passar dos anos, Cássia Kiss amadureceu e fez de tudo um pouco na TV, enriquecendo a teledramaturgia com sua enorme versatilidade.
Fez mulheres humildes, sofridas, vilãs, sofisticadas, ingênuas, puras, devassas. Também sempre foi engajada em movimentos sociais. Cássia Kiss teve a coragem de aparecer desnuda na TV em horário nobre, ensinando às mulheres a importância do autoexame das mamas, na primeira grande campanha do governo federal para combater uma das maiores causas de mortalidade feminina no final do século passado.
Há poucos meses, Cássia era a sofrida Dulce Maria, na novela Morde e Assopra. Usava uma prótese dentária para compor seu personagem: mulher guerreira, honesta, digna e batalhadora. Ela era enganada por seu filho, que dizia ser estudante de medicina e tentava dar golpes na alta sociedade da pacata cidade onde moravam. Pois agora vejo novamente Cássia Kiss, agora vivendo a invejosa Melissa na novela Amor Eterno Amor, mais uma vilã para seu currículo.
Em tão pouco tempo, Cássia demonstra estar à vontade, saindo da pele de uma lutadora para viver uma mulher fútil e malvada. Particularmente não assisto à novela, mas fiquei feliz por ver que nela está Cássia Kiss, uma atriz que talvez não frequente, para muitos, o Olimpo dos atores e atrizes brasileiros mas que, a meu ver, tem seu lugar cativo tamanha sua capacidade interpretativa, sua versatilidade e seu talento.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Onde está a livre concorrência?

Não é de hoje que o consumidor brasileiro tem se deparado com abusos praticados por grandes grupos. Mas a situação de liberalismo no controle dos preços chega ao que se pode chamar de libertinagem nos preços. É tudo tão complicado que chegamos a ter saudades dos fatídicos tempos dos "fiscais do Sarney", onde a inflação galopante criou esses seres curiosos e pitorescos - e porque não dizer, grotescos.
Naquela época, havia aplicações hoje tão absurdas, mas que ajudavam muita gente, o famigerado over night. Recorria-se a esse tipo de aplicação no final da tarde, começo da noite, para garantir ao menos o repasse da inflação, que se superava um dia após o outro. Diante da situação abusiva, determinou-se o controle de preços e surgiram os tais "fiscais do Sarney". Tudo era tabelado, para impedir a ganância das máquinas remarcadoras de preços que trabalhavam incessantemente naqueles tempos.
Tudo mudou, o País se estabilizou com o Plano Real - de paternidade assumida por FHC. O Brasil prosperou, mas a liberdade nos preços possibilitou a criação de situações prejudiciais ao consumidor. Um grande exemplo disso pode ser notado com a proximidade da Páscoa. Tradição neste período, os ovos de páscoa das grandes indústrias estão, simplesmente, tabelados.
Não é preciso ir de hipermercado em hipermercado pesquisar. Os preços estão nivelados. Foram-se os tempos das boas e grandes compras feitas junto às indústrias, onde a competição era por preços menores. Hoje em dia, tanto faz ir ao Carrefour, Pão de Açúcar, Walmart, Extra, Savegnago ou qual rede for. O preço dos ovos de páscoa da Nestlé são basicamente iguais. É como se uma única compra fosse feita em nome de todos os supermercados. Ou a indústria tabelou os preços finais ao consumidor em todas as redes. E não é só Nestlé.
As grandes marcas, como Garoto e Lacta também mantém preços semelhantes pelos produtos do mesmo peso. Aliás, o imbróglio envolvendo a compra da Garoto pela Nestlé que vem se arrastando há quase uma década, ainda não foi totalmente aprovado pelo CADE (Conselho Administrativo de Defesa do Consumidor), mas no mercado as fábricas já atuam como se tudo tivesse sido legalizado. Tanto que há promoções em conjunto das marcas, onde, levando um número específico de ovos, seja da Nestlé ou da Garoto, o consumidor ganha um brinde extra. Mas os preços são basicamente iguais, diferenciando nos centavos. Ou os hipermercados estão se unindo ou as indústrias ditando preços.
Isso não se resume somente a este segmento. Recentemente o Procon, órgão de defesa do consumidor, tentou punir a empresa S2W, que opera os sites de vendas pela internet Americanas.com, Submarino e Shoptime. Os três estão se destacando em reclamações e mal atendimento, num crescimento vertiginoso. A empresa, todavia, conseguiu liminar e continuou vendendo como se nada ocorresse. Pois bem, nesse segmento, havia uma ferramenta muito eficiente chamada buscapé, um site de busca de preços.
Experimente, caro leitor, fazer uma pesquisa para, por exemplo, cotar um aparelho celular ou um televisor de LED ou LCD. Com exceção das redes menores e, talvez por isso, nem tão confiáveis assim para compra pela internet, as grandes redes nivelam os preços. Quer exemplos? Tente checar o preço do celular dualchip Nókia C2-06 ou o da TV LED Sony Bravia Full HD de 32 polegadas. Ficará surpreso ao ver que o que varia também são os centavos.
Falando em centavos, um setor que há muito incomoda e age livremente é o de combustíveis. Não sei se culpa do dono de posto de combustíveis, do distribuidor ou da produtora de combustíveis. O fato é que a tal livre concorrência passa longe. Nesse caso, também exceção feita aos pequenos, ou os de bandeira branca - que muitos temem ter combustível "batizado" -, os preços são nivelados. Ao ponto de, em Ribeirão Preto, o álcool, produzido nesta região em grande escala, ser bem mais caro para o consumidor final do que, por exemplo, na cidade de São Paulo.
E em nome da "livre concorrência", ninguém toma providências para regulamentar esses mercados. Começo a achar que a culpa é mesmo do consumidor, conformado com uma situação que lhe é desfavorável. Melhor seria optar por ovos de páscoa de empresas menores ou que não vendem nos grandes hipermercados. Melhor voltar às compras nas lojas físicas e abandonar a virtual. Melhor optar por um posto bandeira branca, não atrelado às grandes empresas de combustíveis. Ou tabelar novamente os preços e reconvocar os "fiscais do Sarney". Bom final de semana!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Inversão de valores

Um adolescente pega um jet ski deixado com as chaves no painel em uma praia lotada de banhistas no litoral de São Paulo. Atropela e mata uma menina de apenas três anos, que brincava na faixa de areia próxima ao mar, com centenas de pessoas à sua volta. Apenas para constar, esse tipo de embarcação motorizada deve ficar distante pelo menos 200 metros da areia onde ficam os banhistas. Descobre-se que o jet ski era de seus padrinhos, que não teriam consentido, mas também não teriam impedido o garoto de pegar a máquina, o que resultou na morte da indefesa menina.
Outro caso, ocorrido no Rio de Janeiro, tem como um dos envolvidos um jovem, herdeiro de uma das maiores fortunas do País. Ele dirigia um carro de luxo numa estrada na região metropolitana do Rio de Janeiro quando teria atropelado um homem, que trafegava com sua bicicleta. O ciclista, de 30 anos, voltava do trabalho e teve morte instantânea, diante do impacto com o veículo. Imediatamente surgiram assessores do rapaz no local e cuidaram do traslado do corpo da vítima para o IML, pagaram seu sepultamento e justificaram que o homem estaria atravessando a pista em local irregular.
Morto não se defende e cabe à Polícia Científica confirmar esta informação. O que se soube, a seguir, foi que o rapaz, de apenas 20 anos, estaria com 51 pontos no prontuário de sua carteira de habilitação e já deveria ter suspenso o direito de dirigir, pois ultrapassou o limite de 20 previstos pelo Código Nacional de Trânsito. Contratam o maior criminalista do País - um ex-ministro - para defendê-lo e alegam que os pontos na CNH podem ser de seguranças.
Em outra situação, uma adolescente grita em alto e bom som na direção dos jogadores de um time de futebol que chegavam à cidade onde ela mora para uma partida a ser disputada no dia seguinte: "Neymar, engravida eu!!!". A seu lado, um rapaz não se fez de rogado: "Neymar, engravida minha mulher!!!".
Nos bailes funks e nas raves (festas que duram vários dias), o que se vê é a apologia ao uso das drogas, à prática do sexo irresponsável - sem os devidos cuidados para se evitar as DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis) - e à violência. Meninas, muitas delas com menos de 15 anos, em trajes sumários, exibem performances altamente erotizadas, para não dizer vulgar. Até mesmo em horário nobre, emissoras líderes de audiência ensinam a fórmula: "chão, chão, chão", costumam dizer, incentivando a dança que mais parece um ritual de acasalamento. Nas baladas com músicas eletrônicas, as drogas sintéticas ajudam a manter-se acordados para "curtir" o momento que dura alguns dias, no mínimo. E "rola" de tudo por lá.
Parafraseando a professora e escritora Ely Vietz Lanes, será que estou virando um dinossauro? Ou está de fato havendo uma inversão de valores. A escritora, em sua coluna semanal no Jornal A Cidade, relata a passagem aqui transcrita no caso do jogador Neymar e fala sobre o que se valoriza ontem em relação à sua época. De fato, os valores hoje são outros. Minha esposa costuma falar que nossa geração - a que cresceu nas décadas de 1970 e 1980 - deve ter sido ou se sentido muito reprimida e hoje o que menos querem é reprimir os filhos. Ela costuma dizer que os pais criam "reizinhos" e "rainhazinhas" e, nas escolas, isso fica evidente quando todos querem impor seus direitos e dificilmente compartilham brinquedos e brincadeiras, materiais e livros ou mesmo amigos. Fica aquela ideia do tudo pode, tudo é permitido. Até pegar jet ski sem autorização. Para falar o mínimo. Lembro que nos meus tempos de primeiro grau - denominação recém-criada, pois antes era primário e ginásio e hoje é ensino fundamental - o que o professor ou professora dizia ou fazia, geralmente, era acatado e respeitado. Hoje professor tem medo de ser agredido por crianças pequenas, que dirá por adolescentes.
Isso me lembra uma ilustração que circula na internet e muitos aqui já devem ter visto. Na década de 1970, por exemplo, se um aluno aprontava, levava bronca da professora e, em casa, dos pais. Hoje, se o aluno apronta e a professora dá bronca, no dia seguinte os pais surgem na escola esbravejando. Os errados não são as crianças, adolescentes e jovens de hoje. Somos nós, que não soubemos educar. Mas ainda dá tempo para mudar essa situação.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Playcenter, o fim de uma era

Até hoje lembro-me da primeira vez que fui ao Playcenter. Corria o ano de 1974 e, depois de muito insistir com meu pai, acabei ganhando o dinheiro para ir ao parque de diversões "mais maneiro" do mundo. Naquela época, os recém-criados parques da Disney na Flórida e Califórnia eram coisas para poucos. No meu caso, que morava em Sampa, ir ao Playcenter era o grande sonho de consumo.
Porém, todo bônus tem o seu ônus. Meu pai jogava "duro", queria que eu e minha irmã aprendessemos o valor do dinheiro, que não vem fácil, vem com o fruto do trabalho. Discursos à parte, morava no Jaçanã e o Playcenter ficava na Casa Verde. E meu pai só me deu dinheiro do ingresso e do transporte. Como já sabia dos fliperamas sensacionais que existiam no parque, resolvi radicalizar: fui à pé da estação Santana do Metrô, onde a linha de ônibus do meu bairro fazia ponto final. Era uma boa caminhada até o parque, que fica na Ponte do Limão, próximo à sede do jornal O Estado de São Paulo.
Cheguei bem ao Playcenter. Comprei o ingresso e lá fui eu, correndo para a montanha russa, até hoje o brinquedo preferido em parques de diversão. Andei duas vezes, depois fui para outros brinquedos. Até que cheguei ao fliperama. Que coisa mágica! Tanta máquina que nem sabia por onde começar. Mas já tinha uma certa habilidade e ganhei alguns créditos, que trocava por fichas com outros moleques para tentar a sorte em outras máquinas. Me diverti bastante. O problema foi lembrar que tinha uma longa caminhada pela Marginal Tietê até a estação Santana. Pior ainda foi notar que havia gasto todo o dinheiro. Sorte minha que encontrei um vizinho e ele me emprestou um passe de ônibus.
Bom, essa nostalgia toda está por conta da manchete que vi dias atrás: o Playcenter vai fechar. No dia 29 de julho deste ano aquele que foi um dos maiores centros de diversões dos paulistanos e até de moradores de outras cidades, fecha as portas. O grupo que administra o local promete que ele volta em 2013, porém com outro conceito, reduzindo o público diário dos atuais 12 mil para apenas 4,5 mil. Prometem um conceito inédito de diversão. Talvez agrade as futuras gerações, mas muitos aqui da minha faixa etária certamente não vão gostar das mudanças.
Foram mudanças necessárias, é verdade. Desde 2010, o Playcenter registrou dois acidentes em menos de seis meses de intervalo, ferindo 24 pessoas no total, além de render inquéritos policiais e brigas jurídicas. O momento é propício para rever a situação nos parques, principalmente após o trágico acidente ocorrido no Hoppy Hari, onde uma menina de 14 anos morreu após cair de uma altura de 25 metros, por conta de um brinquedo aparentemente com problemas mecânicos ou dos operadores.
Mas o Playcenter foi palco de tantas histórias lá vividas. Cheguei a ter o Playpass, uma espécie de passaporte com direito a acesso diário ao parque por seis meses. Lembro que havia começado a namorar com minha hoje esposa e compramos ingressos para nós dois, além as suas irmãs e da minha sogra. Íamos ao Playcenter, às vezes, só para comer uma pizza nas lanchonetes. Levei meus dois filhos lá e nunca deixei de me divertir. Confesso que a notícia me pegou de surpresa, mas se é para aperfeiçoar, principalmente na questão de segurança, que venha então o futuro.

terça-feira, 20 de março de 2012

Não alimente as estatísticas

O governo do Estado de São Paulo tem acenado para novas contratações na área de Segurança Pública, porém num patamar muito abaixo do desejado. Mas tem anunciado mudanças que podem representar uma grande mexida nos rumos da Polícia Civil, principalmente. Há nos corredores da cúpula das Polícias Civil e Militar quem acredite que a ideia é unificar as duas forças estaduais de segurança. Diante do número bem maior de contingente, a tendência, nesse caso, é que a Polícia Militar absorva a Polícia Civil.
Longe de querer debater a militarização, a intenção é trazer à superfície propostas que podem influir direta e decisivamente na vida de cada contribuinte, de cada cidadão. Lançado em fase experimental na região do Deinter-9 (Departamento de Polícia Judiciária do Interior-9), com sede em Piracicaba, a "reengenharia" da Polícia Civil propõe aglutinar distritos e especializadas em um único lugar. Uma proposta que funciona muito bem, por exemplo, nos Estados Unidos, com as super delegacias. Mas ainda há dúvidas sobre a forma como esse processo pode ser conduzido.
Com a reengenharia proposta e já iniciada em cidades como Rio Claro, Araras, Pirassununga e Mococa, o que se viu foi a extinção de Distritos Policiais, que acabaram unificados em um único local. Na teoria, isso representaria uma economia com o custeio e manutenção de imóveis. Na prática, serve para aglutinar policiais civis numa única unidade, não aumentando o efetivo, mantendo o mesmo trabalho prestado e dificultando o acesso da população a uma unidade policial, mas com a falsa sensação de que há mais efetivo à disposição.
Segundo a presidente do Sinpol (Sindicato dos Policiais Civis da Região de Ribeirão Preto), Maria Alzira da Silva Corrêa, a ideia é dar a sensação de que a unidade criada sob o status de super delegacia tem mais policiais do que o distrito policial anteriormente tinha. Porém sem contratar mão-de-obra, contando com um efetivo cada vez mais reduzido e com um grande risco de sofrer uma redução ainda mais drástica. "O governo alterou, há alguns anos, o critério para a aposentadoria e hoje não é vantagem para o policial civil requerer sua aposentadoria. Convém esperar um pouco mais até que essa Lei sofra mudanças, o que talvez aconteça ainda neste ano, pois a matéria já está em instâncias superiores e apenas São Paulo utiliza-se desse critério. Quando isso ocorrer, haverá uma grande procura para aposentadoria. Estimamos que de 30 a 40% dos policiais civis da ativa possam se aposentar, o que representaria uma enorme lacuna a ser preenchida", avalia Maria Alzira.
Na região de Ribeirão Preto, a "reengenharia" começa a ser implementada. Distritos com menos ocorrências serão aglutinados por outros de maior movimento. Uma possibilidade tida como certa é o fechamento do 7º DP (Distrito Policial) de Bonfim Paulista, um distrito de Ribeirão Preto que, além de sua população tradicional, cresceu por receber muitos condomínios horizontais de médio e alto padrão financeiro. Isso significa que o morador de Bonfim Paulista, por exemplo, para relatar uma simples ocorrência de furto de celular, teria que se dirigir para o 4º DP, no Jardim América, num trajeto superior a seis quilômetros. Hoje ele percorre apenas alguns quarteirões, dependendo de onde morar.
Essa prática pode representar, no papel, um avanço para o governo do Estado, principalmente em termos estatísticos. Muitos cidadãos vítimas de furtos e crimes ou ocorrências de pequena monta, deixariam de registrar suas queixas e contribuiriam para o número final apurado pelo governo. É inegável que a PM, hoje em dia, esteja melhor aparelhada que anos atrás, até com o apoio de tablets nas viaturas. Mas ainda é necessário recorrer ao serviço de Polícia Judiciária, prestado pela Polícia Civil. E com a dificuldade que o cidadão pode encontrar, sem a contratação de mais policiais civis, sem investimentos, a única certeza é que a estatística de criminalidade terá redução. Mascarada, mas terá.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Eterno carinho pelo rádio parte II

Mudei-me para Ribeirão Preto por pura obra do destino. Não conhecia nada na região, mas acabei vindo trabalhar na então TV Ribeirão, hoje EPTV, afiliada da Rede Globo. Uma cidade onde o rádio sempre foi um veículo forte, revelando nomes não só para as ondas radiofônicas, como também para a política local, regional e nacional. Ao sair da TV, fui trabalhar em Cajuru, uma pequena, mas maravilhosa cidade, a 60 quilômetros de Ribeirão Preto. Fui convidado pela então prefeita da cidade, Margarida do Nascimento, para assumir a Secretaria de Imprensa.
Foi uma experiência riquíssima em minha vida. Acabei criando um jornal, Boca da Mata (significado de Caa Yuru, traduzido do tupi-guarani) e conheci um grande artista plástico hoje radicado em Ribeirão Preto. Na época, com apenas 14 anos, Cordeiro de Sá, ou simplesmente o meu amigo Carlinhos, ilustrava com seus traços as páginas do jornal.
A então prefeita Margarida me dava total liberdade para criar e, graças a um convênio, passamos a ocupar um horário semanal na Rádio Cultura de Cajuru. Fazíamos um programa, naquela época, ao estilo do qual, há alguns anos, Lula e hoje sua sucessora Dilma fazem: uma conversa informal abordando dúvidas de ouvintes. Como a Rádio dispunha de horários livres, acabei ficando lá por mais tempo e participando da programação da emissora. O interessante é que havia um grande retorno do povo de Cajuru.
O principal locutor e também diretor da Rádio, Esmério Silva, era pessoa de fácil trato e engatamos uma boa amizade, que rendeu programas e coberturas memoráveis, mesmo sem a tecnologia dos dias atuais.
Lembro de uma ocasião em que houve um torneio de vôlei feminino em Ribeirão Preto. A Seleção do Brasil foi anfitriã do torneio disputado no Ginásio da Cava do Bosque e eu estava lá, com gravador em punho, quando veio a ideia: podíamos levar as meninas ao vivo, falando com Cajuru.
Localizei um telefone público, popularmente conhecido por "orelhão" e eu arrastava pra lá as jogadoras Fernanda Venturini, Fofão, Vera Mossa, entre outras. Era até engraçado, pois elas eram mais altas que o "orelhão" e ficavam encolhidas durante a entrevista. Elas me acompanhavam, eu ligava a cobrar, esperava a hora de entrar ao vivo na Rádio Cultura de Cajuru e fazia a entrevista, passando o fone para elas responderem e, ao cabo da resposta, elas me passavam o fone para nova pergunta.
Naquela fase estava ocorrendo a 1ª Guerra do Golfo, com ampla cobertura pela televisão, mas muitas pessoas de Cajuru preferiam se informar pela rádio. Então Esmério e eu criamos boletins a respeito do assunto. Muitas vezes entrava "ao vivo", por telefone, para passar o boletim diário. Sempre na minha hora de almoço na Prefeitura, resumindo as notícias transmitidas pela TV.
O auge desse período ocorreu na final do Campeonato Amador de Futebol de Cajuru, em 1990. Nunca havia narrado uma partida de futebol, mas resolvi encarar o desafio. Chamei uma colega do curso de Rádio, em Guarulhos, Kátia Silva, para fazer as reportagens de campo. Se em 1990 a tecnologia era muito inferior aos dias atuais, imagine numa emissora com parcos recursos financeiros. Era muito improviso.
Ao chegar ao local reservado para a imprensa no estádio municipal, enquanto o técnico instalava o aparelho de som, me entregaram a relação dos jogadores e os torcedores próximos me disseram a cor da camisa de cada time. Começou a partida, eu sem retorno da Kátia, ela ao lado do banco de reservas de um dos times acenando feito doida. Aliás, ela e o treinador do time. Agradeci aos dois pela audiência e continuei a transmissão.
Até que o técnico de som conseguiu restabelecer o retorno com a Kátia, após uns 10 minutos de partida. Foi quando ela me disse que eu estava transmitindo os times invertidos, por conta da peraltice dos torcedores. Ainda bem que no rádio não tem imagem. No final, foi tudo uma festa só e o que restou, além da lembrança, foi a fita da gravação (em k-7, lógico), que guardo com carinho.
Minha última passagem no rádio foi em 1992, quando fui convidado para ser um dos apresentadores do "Grande Jornal Falado Tupi". Eu era o editor chefe e apresentador do jornal, dirigido pelo saudoso Turella, radialista das antigas. Editor chefe era um nome pomposo para o que eu fazia. Na verdade, chegava por volta das 5 da manhã, selecionava as notícias no Diário Popular, pois a rádio tinha parceria com o jornal. Cortava com gilete e colava na lauda que levávamos ao estúdio para ler ao vivo.
Por volta de 6h30, chegavam os outros membros da bancada, o Toninho e a Patrícia Cunha, além do Celeste Pastori, que lia somente notícias de esportes e, quando o assunto eram Botafogo e Comercial, ele tinha tudo pronto, pois o Diário Popular só falava dos times da capital e do litoral. Ensaiávamos e pronto: às 7h00 o jornal era apresentado. Tantas foram as crises de riso no estúdio. Mas o jornal só acabou mesmo por problemas de concessão da rádio, que tinha sede teórica em Jardinópolis, a 20 quilômetros de onde realmente operava, Ribeirão Preto. Desde então, só participo mesmo como ouvinte assíduo desse que é, na minha opinião, um veículo mágico, mesmo nos tempos da internet e da comunicação instantânea com som e imagem simultâneos. O Rádio vai continuar sempre  vivo entre seus ouvintes apaixonados.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Não sei quem você é, mas sei o que defende

Minha esposa costuma dizer que devemos tomar muito cuidado com nossas atitudes. Ela cita como exemplo o fato de, quando uso minha camisa do São Paulo na rua, no caso de fazer algo errado como uma discussão no trânsito, posso criar um sentimento negativo, de generalização. Na verdade, nunca havia concordado com essa posição, até ver a antes digna campanha pela manutenção e redução do número de vereadores e contrária ao aumento de vagas de edis.
Essa campanha, que imputo ser legítima e digna, para ganhar terreno e cooptar mais adeptos, tem se espalhado no boca-a-boca, pela internet e através de adesivos colados nos automóveis. Em Ribeirão Preto, os adesivos defendem os atuais 20 vereadores - embora ache que 13 estaria de ótimo tamanho pela qualidade dos serviços prestados pelo legislativo municipal, não só aqui, mas em tantos outros municípios brasileiros. Também acho que deva haver redução drástica nas esferas estadual e federal. Mas esse é outro assunto.
O problema é que tenho visto muita barbaridade cometida no trânsito por pessoas que usam esse adesivo em seus carros. Isso tem acarretado um sentimento menos nobre e generalizador. Até porque não foi um ou dois carros com os adesivos que vi dessa forma. Foram vários. Puxando pela memória, mais de 10.
Quando um cidadão incorpora a ideia de uma campanha cívica, é necessário que ele próprio seja contagiado por essa ação. Então que dirija seu carro de forma consciente, respeitando sinalização, dando seta, respeitando preferência ou semáforo vermelho, não fazendo conversão em local proibido. E assim vai.
Mas a individualidade do motorista brasileiro faz com que essas regras básicas e de civilidade no nosso trânsito sejam consideradas artigo de luxo, coisa raríssima.
Já está me cansando ver alguém cometendo barbaridades no trânsito e observar o tal adesivo, de que não precisamos de vereadores. De forma também egoísta de minha parte, só me vem à cabeça um pensamento: "se  esse cidadão, dirigindo dessa forma, quer lutar para não aumentar as cadeiras na Câmara Municipal de Ribeirão Preto, jogando lixo na rua pela janela do carro ou 'fechando' outros motoristas sem o menor respeito no trânsito, então sou a favor de que se dobre o número de vereadores".
Desta forma, vi com clareza o que minha esposa sempre comentou. E percebi que, se abraço uma causa e acredito nela, é melhor me comportar, ser exemplar para não estragar aquilo pelo que luto ou defendo. Não fazer nada que vá comprometer essa causa. Quem sabe algum desses adeptos ao movimento pela manutenção ou redução do número de vereadores, ao ler esse artigo, passe a agir como pessoas de bem no trânsito? Bom final de semana a todos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Quantas lágrimas

Ontem, quando saía com o carro da garagem do prédio onde moro, liguei o rádio e comecei a ouvir uma música que há muito tempo não ouvia. Imortalizada por Paulinho da Viola, pelo que pesquisei é de autoria da Velha Guarda da Portela. E veio aquele sambinha nostálgico:
"Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado,
Só em saber que não posso mais,
Reviver o meu passado..."
Daí me dei conta que não prestava atenção nessa letra há mais de uma década. Talvez duas. Quando morava em São Paulo, essa música já tinha deixado de frequentar as paradas de sucesso e, geralmente, era executada nas "churrascadas" - termo muito usado pelo paulistano para as deliciosas reuniões regadas glutônicas regadas a chope, acepipes e muita carne. Mas era um tempo legal, bem despretensioso. Nunca deixei de trabalhar, mas era muito cômodo lembrar que, no caso de uma "zebra", tinha meus pais como porto seguro. E a música continuava tocando na voz de Zélia Duncan: 
"Eu vivia cheio de esperança,
E de alegria eu cantava eu sorria..."
Verdade. Como somos sonhadores, esperançosos, quando mais novos. A minha geração começava a trabalhar cedo. Pelo menos os não tão abastados. Não era coisa incomum trabalhar durante o dia e estudar à noite. A grande maioria absoluta dos meus amigos fez isso. E o fato de você batalhar sua vida sem preocupações se vai faltar, sabendo que tem na família ancestral o ponto de apoio, fica ainda mais fácil sonhar. E executar. 
"Mas hoje em dia eu não tenho mais,
A alegria dos tempos atrás.
Mas hoje em dia eu não tenho mais,
A alegria dos tempos atrás..."
Aí a ficha cai. Uma hora você tem que assumir o comando de sua vida sem contar com o apoio que teria. É legal saber que você está enveredando por um caminho que não imaginava há muitos anos. Mas, ao mesmo tempo, começa a se tornar uma coisa diferente, talvez até assustadora. Sim, porque hoje em dia é tudo corrido e se você não percorrer esse caminho rapidamente, com muita atenção para o que está acontecendo à sua volta, o retorno para trilhar o caminho correto pode demorar muitos quilômetros ainda. E, por conta da correria do dia-a-dia, muitas vezes você esquece aquela alegria espontânea. 
"Só melancolia os meus olhos trazem,
Ai quanta saudade a lembrança traz,
Se houvesse retrocesso na idade,
Eu não teria saudade,
Da minha mocidade...."
Então me dei conta que estava a caminho do trabalho. Como em Ribeirão Preto as distâncias não são tão longas quanto em Sampa - ainda mais porque moro a menos de dois quilômetros do meu trabalho -, vi que só me restava avaliar a música. Como pode um samba gostoso, de uma letra tão simples, ser tão significativo? Veio a lembrança de um artigo do meu amigo Marcelo Canellas - que por sinal, será publicado em Ribeirão Preto somente no próximo sábado, mas ele já disponibilizou no Diário de Santa Maria. No texto "O ato de escrever", ele cita uma passagem interessante, que transcrevo a seguir:
"Tenho um colega, Ezequiel Martinez, repórter do jornal El Clarín, de Buenos Aires, que é filho do grande escritor argentino já falecido, Tomás Eloy Martinez. Ezequiel me contou que estava escrevendo o perfil de um entrevistado, dizendo que 'o homem falava devagar'. Ao mostrar o texto ao pai, ele recebeu a maior lição de sua vida. Tomás Eloy reescreveu assim a descrição do personagem: 'as palavras lhe saíam cansadas, despedaçadas em largos silêncios'. Esta frase genial é a prova de que clareza nada tem a ver com pobreza de expressão, e de que o simples pode ser brilhante". Como a música. O problema foi que havia chegado a meu destino antes mesmo do fim de sua execução, que continuava:
"Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado..."

quarta-feira, 14 de março de 2012

Corram para as montanhas

Está na manchete de praticamente todos os sites de notícias: Procon suspende por 72 horas a venda de produtos pela internet nos três maiores sites de venda do Brasil: Americanas.com, Submarino e Shoptime. Todos os três são mantidos pela mesma empresa, o Grupo B2W.
Sinceramente, demorou. Sei que a venda através da internet de tudo quanto é artigo ou serviço facilitou por demais a nossa vida. Eu mesmo sou um consumidor contumaz e frequente desses sites, comprando de tudo. Além da facilidade de comprar sem sair de casa, possibilita comparar preços, produtos, condições de pagamento e uma série de informações que, muitas vezes, não encontramos nas lojas.
Recentemente até colchão tentei comprar pela internet. Só não consegui porque a fiscalização anda eficiente e as empresas têm se cuidado mais. A entrega de um colchão tinha prazo superior a 40 dias. Aí não dá para esperar dormindo no chão.
Mas os problemas com o e-comerce são muitos e cada vez mais constantes. Que atire a primeira pedra aquele que não se aborreceu com as compras virtuais. Só para ficar em alguns casos. No final de 2010, através de um site de compras coletivas, adquiri uma assinatura de DVDs da Blockbuster.com. Você pagava uma única taxa por três meses de assinatura e podia pegar até oito filmes por mês. Eles traziam dois e depois retiravam quando fosse feito novo pedido. Para não continuar assinando, precisava avisar a empresa por e-mail. Felizmente documentei tudo, porque avisei com muita antecedência, mas continuei sendo cobrado. Pior, eles não tinham telefone para contato. Recorri ao site de compras coletivas, que intercedeu. Eles eram recordistas, na modalidade, de queixas no Reclame Aqui.com, site de reclamações de consumidores, que funciona muito bem. Recebi o dinheiro de volta, sem reajuste, depois de muito tempo.
Recentemente, fiz uma compra através do Americanas Viagens. Porém acabei cancelando em dezembro e, de acordo com o Procon e com a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), deveria ser ressarcido em até 30 dias. Pois 90 dias se passaram e ainda não recebi nada. Detalhes: no cancelamento, havia multa alta, que foi paga; além disso, eles cobraram novamente o valor da multa no meu cartão de crédito. Depois de ameaçar entrar na justiça e quando publiquei no Reclame Aqui, eles resolveram me ligar e negociamos. Só que ainda não estornaram o valor cobrado a mais e não devolveram o valor pago pelo serviço cancelado, deduzida a multa prevista. A atendente garantiu que virá em minha próxima fatura do cartão de crédito. Veremos.
Outro ponto: na Livraria Cultura, pela internet, comprei um livro paradidático que foi prometido, na compra de 23 de fevereiro, para entrega em 7 de março, se optasse em pagar o frete mais caro. Fiz isso e não recebi o livro. Liguei lá e a empresa se limitou a dizer que eu deveria ter sido avisado do atraso, mas não fui. Então cancelaram o pedido e ficou por isso. Não levaram em conta o constrangimento, o problema que causaram na escola de meu filho.
Essa medida do Procon já passou da hora de ser tomada. Pelo menos será um marco comemorativo ao Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, comemorado em 15 de março, data em que começa a valer a punião de 72 horas aos três sites que têm frequentes queixas de consumidores. Será difícil não comprar nada durante esse período para quem já se acostumou a comprar pela internet. Mas talvez isso sirva de lição ao Grupo B2W e aos demais, para que respeitem ao consumidor. O Grupo B2W, que controla os três maiores sites de e-comerce, teve aumento de 180% nas reclamações em 2011, em comparação ao ano anterior. E por isso, teve seu recurso suspenso e terá de acatar a determinação. No dia Mundial dos Direitos do Consumidor e nos dois dias seguintes, os três sites terão a seguinte mensagem estampada: “O Grupo B2W, em virtude de decisão proferida pela Fundação PROCON – SP, em processo administrativo de n° 2573/2010, está com as atividades de e-commerce suspensas em todo o Estado de São Paulo, por 72 (setenta e duas) horas, a partir de 15 de março de 2012”. Feliz dia do consumidor!

Em tempo: no início da noite o Grupo B2W conseguiu uma liminar cancelando a punição do Procon, tanto em relação à multa, quanto à obrigação de retirar os sites do ar durante 72 horas. A alegação do advogado do grupo é que o aumento de milhares de caso representa 1% do total de vendas. Pode ser 1%, mas são milhares de pessoas que são prejudicadas.

terça-feira, 13 de março de 2012

Parabéns, brasileiros! (isso é ironia)

Nunca nós, brasileiros, fomos tão privilegiados. Não bastasse nosso dinheiro ser empregado em estádios que se tornarão verdadeiros elefantes brancos ou que serão doados para clubes particulares após a Copa do Mundo no Brasil, em 2014, a "farra do boi" continua, regada pelos cofres públicos, ou seja, novamente com nosso dinheiro.
É inconcebível ver o dinheiro do brasileiro, por exemplo, ser empregado na construção de estádios de clubes. Corinthianos com o mínimo de bom senso sabem disso e não aprovam a forma como vem sendo conduzida a obra do clube de maior torcida no estado, o segundo no Brasil. Mas, graças à politicagem, o time vai herdar um estádio feito sim, com verba pública, o que é um absurdo.
O que dizer então do Flamengo, que durante anos recebeu um farto patrocínio dos cofres da Petrobrás, uma empresa pública de economia mista? Pior ainda é ver a construção de megaestádios no Amazonas ou no Rio Grande do Norte que, a exemplo do ocorrido na África do Sul pós Copa 2010 e na China pós Olimpíada 2008, fatalmente vai ocorrer por aqui: elefantes brancos, estádios construídos sem perspectiva de uso na proporção como foram projetados.
Também é inconcebível ver o que fizeram no Rio de Janeiro, com o Engenhão - para não citar a homenagem feita por lá a alguém que levou o nome do estádio, João Havelange. Também conhecido a partir de 2010 por Stadium Rio, o Engenhão é tido como uma obra prima da engenharia contemporânea. Mas especialistas garantem que foi construído num local totalmente irregular, facilitando, por exemplo, o enfrentamento de torcidas uniformizadas rivais. Contudo, se é tão bom, então porque mexer e investir milhões no Maracanã? Pior foi ver que, ao cabo dos jogos Panamericanos do Rio, em 2007, o estádio construído com dinheiro público e suspeita de superfaturamento, foi entregue a um clube de futebol particular, o Botafogo.
Mas as benesses com o dinheiro público extrapolam as fronteiras futebolísticas e se instalam em outros esportes minoritariamente destinados à classe mais abastada: o automobilismo. Em informações publicadas pelo jornalista José Cruz, o Ministério do Esporte patrocina, entre outros tantos "projetos sociais", a escola de automobilismo do jornalista e narrador Galvão Bueno. São milhares, de reais destinados à escola que pretende formar talentos para ingressar no seleto mundo de pilotos de corrida e, quiçá, chegar à Fórmula-1 ou Fórmula Indy, consideradas a elite do automobilismo mundial.
Outro famoso também está listado pelo Ministério do Esporte, segundo o jornalista, para receber verba pública para alavancar uma carreira. Emerson Fittipaldi, bi-campeão mundial de Fórmula-1, vencedor das 500 milhas de Indianápolis - a corrida mais famosa do planeta -, deve receber mais de R$ 1 milhão para, através da Lei de Incentivo ao Esporte, com dinheiro já captado, financiar o início de carreira do neto de Emerson, o futuro piloto Pietro Fittipaldi, de apenas 15 anos, com vistas à Fórmula Nascar, categoria dos Estados Unidos em carros de passeio.
Nada contra Corinthians, Flamengo, Botafogo, Galvão Bueno ou Emerson Fittipaldi. Mas em todos esses casos, é justo investir dinheiro público? Ou usar poder de influência política para se obter objetivos? Esse dinheiro, uma vez de propriedade do Ministério do Esporte, seria muito melhor aplicado se investido em projetos que atuam em regiões carentes do País não só objetivando revelar campeões, mas sobretudo, tirar crianças das ruas e dar-lhes uma condição saudável de vida e perspectivas de futuro. Se o governo quiser, qualquer um dos leitores pode indicar ao menos um desses projetos. Como o União Marabá. Fica na Rua Pedro Álvares Cabral, 519, Jardim Vila Galvão, Guarulhos. Recado dado.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Nunca é tarde

Conheci o sujeito ainda no século passado, por volta de 1997. Havia uma grande coincidência: ele era cunhado de minha ex-empregada doméstica. Mas o conheci por outros meios. Sempre foi uma pessoa determinada, um grande vendedor. Verdade que, às vezes, um tanto quanto soberbo. Não tinha concluído o então segundo grau, hoje ensino médio.
Mas sempre teve grande força de vontade. Carioca de nascimento, ribeirão-pretano de criação. Já tinha vendido vários produtos. Foi representante comercial de empresa de bebidas, de abatedouro de aves. Também já tinha morado no exterior, a trabalho. Porém alguns problemas pessoais o impediam de acertar a mão.
O curioso foi que ele nunca desanimou. Gradativamente foi evoluindo. Para complementar o orçamento, normalmente atuava como chefe de cozinha ou banqueteiro aos finais de semana. Sua fama espalhou-se e agenda ficava sempre repleta de trabalho. Com o prazer que sempre teve em cozinhar, de churrasco a feijoada, passando por suculenta bacalhoada, arrebatou uma verdadeira legião de fãs de seus temperos.
Quando possível, concluiu em curso supletivo o segundo grau e passou a nutrir o desejo de dar vôos maiores. Tentou por duas vezes a faculdade de jornalismo, em instituições particulares, mas o dinheiro curto, família para ajudar a manter, filhas para criar e o projeto acabou adiado. Apesar da idade já na casa dos quarenta, conseguiu uma bolsa no Pró-Uni e ingressou novamente na faculdade, desta feita em publicidade, curso que concluiu. Também conseguiu registro como jornalista.
Antenado, viu em sua cidade natal uma nova possibilidade: com a proximidade da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016, passou a fazer cursos na área de culinária, pensando em se aventurar por lá. A chance é concreta, porém ele, que já havia se separado da esposa, tinha um grande obstáculo para fazer as malas e se mudar para o Rio de Janeiro: as filhas.
Conviveu com a dúvida até não ter mais jeito. No começo deste ano foi aprovado, aos 47 anos de idade, no vestibular para Direito com ênfase em Segurança Pública pela UFF (Universidade Federal Fluminense) . Uma prova de que nunca é tarde para recomeçar. E o mais importante foi o seu ingresso numa universidade pública, respeitada, estudando apenas de forma autodidata. Um grande exemplo de um grande batalhador e que será, certamente, um grande vencedor. Exatamente hoje ele está começando uma nova etapa de sua vida no Rio de Janeiro, mesmo tendo que conviver com a saudade das filhas e as visitas mais espaçadas. Parabéns, Israel!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Eterno carinho pelo rádio parte I

O rádio sempre fez parte da minha vida. Quando acordava para trabalhar, encontrava meu pai, desde as 4h30 da manhã, sentado ouvindo o rádio e lendo um livro. Era como um vício, não sei como, mas ele conseguia prestar atenção nas duas coisas ao mesmo tempo. Depois que meu pai saia para o trabalho ou para encontrar os amigos - ele aposentou-se com menos de 50 anos, era policial militar -, era a vez de minha mãe, que ouvia seus programas enquanto tocava os afazeres da casa.
Quantos nomes não vinham nesse universo!!! Paulo Barbosa, Gil Gomes, Atanásio Jazadji, Eli Correia (oooooiiiiiiiiiiiii ggggeeeeeeeeeennnnnnnnnnnnntttttttttttttiiiiiiiiiiiieeeeeeeeeeeeeeeeee). Independente da qualidade de seus programas, era divertido. Mas eu preferia mesmo era ouvir FM. Duas, em especial, naqueles tempos de poucas rádios -e a maioria tocando disco. Ouvia muito a Cidade FM e a Excelsior FM. Na primeira, ouvia-se músicas para todos os gostos, inclusive rock. Já na Excelsior, o negócio era ouvir depois da meia noite, madrugada afora. Tinha o Maurício Kubrusly com o programa Hora Maldita. Muita música de qualidade. Muitos nomes do BRock foram lançados lá. Na mesma Excelsior, o locutor Kid Vinil, que anos depois viria também a fazer sucesso com músicas de rock paródia como "Sou Boy", tinha um programa de punk-rock que nos apresentou nomes como AC/DC, Ozzy, o próprio Black Sabbath, entre outros.
No esporte, ouvir jogo pelo rádio era coisa para matar cardíaco. Particularmente era fã de Osmar Santos e do saudoso Fiori Gigliotti. Uma vez resolvi assistir a uma partida transmitida pela TV Clutura (sim, a Globo não tinha monopólio no futebol), ouvindo a transmissão pelo rádio. Desanimador. O jogo morto na TV e berrante no rádio. Desliguei a TV e segui com a transmissão do rádio.
Logo que entrei na faculdade para cursar jornalismo, a vontade era tanta que não esperei. Paralelamente fiz um curso no SENAC de Guarulhos, com habilitação para radialista, reconhecido por Lei. Neste curso, fui contemporâneo do William Bonner, naquela época já um tipo muito sério, de pouca conversa. Ele tinha se formado na USP, mas em jornalismo com habilitação para jornais e revistas. Só que, logo de cara, despontou na Rádio USP, passando, em seguida, para o telejornal regional da Globo, o SPTV. Para poder continuar apresentando, teve que fazer o curso numa outra turma, mas na mesma época.
Ainda tive mais dois anos na faculdade em que aproveitei ao máximo para fazer pontas em programas de rádio. Naquela época conheci Gilberto Garcia, um dos pioneiros da TV  e que tinha um programa na Rádio Diário de Mogi das Cruzes. Para quem não sabe, ele é pai das eternas "Narizinhos" do Sítio do Pica Pau Amarelo, as atrizes globais Isabela e Rosana Garcia. Ele me deu muitas dicas e, em seu programa, eu lia horóscopo no ar. Era muito divertido. Na falta de previsão, pegava no jornal. Se não tivesse outro jornal no dia, lia do anterior, mudando os signos. E que me desculpe quem acredita em astrologia. Foi um período muito rico, apesar do pouco dinheiro. Sim, pois quem trabalha em rádio, exceto uma minoria, ganha pouco e o faz por amor ao veículo de comunicação.
E quis o destino que, ao terminar a faculdade, eu acabasse vindo morar e trabalhar em Ribeirão Preto. Não tinha qualquer noção do que era essa cidade maravilhosa, a não ser pela sua importância, um dos maiores centros urbanos do Estado e uma das maiores cidades do interior do Brasil. Mas Ribeirão Preto é uma região onde o rádio sempre teve grande importância, cedendo nomes importantes no contexto nacional, principalmente político. Mas isso é história para outro dia. Por hoje, caros ouvintes, agradeço a atenção recebida. A todos um ótimo final de semana e nos vemos na segunda-feira, no mesmo horário de sempre. Até lá!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Qual a razão em comemorar o Dia Internacional da Mulher?

Roseni Pereira de Miranda estava cansada de apanhar do marido. "Após seis tentativas de separação, fui vítima de cinco balas disparadas por meu ex-marido. Carrego todas essas marcas e a cicatriz na alma", conta a mulher, vítima de tentativa de homicídio no estacionamento de uma faculdade em Brasília, o IESB (Instituto de Ensino Superior de Brasília). O crime ocorreu em 2005.
Também em Brasília, a professora Josiene Azevedo de Carvalho aceitou, em 2008, um convite para jantar com o ex-namorado, cabo do Corpo de Bombeiros. Eles foram a um restaurante mexicano e, durante o jantar, conversaram bastante. A ideia do cabo era retomar o relacionamento terminado alguns meses antes. Depois do jantar, os dois seguiram no carro do bombeiro. O homem encostou o veículo e voltou a insistir para que reatassem. Ao ouvir a negativa, ele apanhou um revólver e atirou na cabeça da jovem. Josiene morreu na hora.
Osmarina Rocha da Silva apanhou do marido por 12 anos e não aguentava essa situação. Até que a relação do casal chegou ao limite. "Uma mulher que apanha do marido só vai à delegacia quando ela está no seu limite, depois de sofrer muito", disse, ao narrar que, após ser queimada com ferro de passar roupa por se negar a ter relações sexuais com o marido, ela foi à delegacia dar queixa e a delegada perguntou-lhe se ela tinha testemunhas do fato. "Ora, eu estava ali queimada", afirmou. As agressões só pararam quando ela empunhou um facão e foi para cima do ex-companheiro.
Maria Islaine de Morais tinha 31 anos e trabalhava duro em seu salão de beleza. Ela cortava cabelo, atuava como manicure, limpava o salão e fazia de tudo para manter a vida difícil, principalmente após ter se separado do marido, há cerca de um ano. Já havia registrado oito boletins de ocorrência por agressão e ameaça. Havia, inclusive, pedido proteção policial. Mas em 2010, o País viu estarrecido o ex-marido filmado pelas câmeras de segurança do salão. Ele entrou gritando e empunhando uma arma, espantou funcionárias e clientes e, sem dó, disparou sete vezes contra Islaine. Ela morreu na hora e todos puderam ver o bárbaro crime cometido em Minas Gerais, mesmo em tempos de Lei Maria da Penha.
Talvez seja por isso que se comemore o Dia Internacional da Mulher. A data, aliás, foi escolhida a dedo. No dia 8 de março de 1857, quando ocorreu a primeira greve nos Estados Unidos conduzida somente por mulheres que reivindicavam jornada de 10 horas diárias, patrões exigiram dos policiais uma repressão severa ao movimento. Na fábrica de tecidos Cotton, em Nova Iorque, as mulheres foram trancadas e o prédio foi incendiado, matando 129 tecelãs carbonizadas. Assim como as tecelãs, Roseni, Josiane, Osmarina, Islaine e tantas outras são vitimizadas pela violência contra a mulher por homens que se consideram fortes, soberanos, superiores. Mas há também o outro lado.
Stephanie Decker, de 37 anos, teve suas duas pernas amputadas durante a passagem de um tornado, nos Estados Unidos, no dia 2 de março de 2012. Ela utilizou o corpo como escudo para salvar seus dois filhos, quando a casa onde estavam foi sugada pelo vórtice do tornado. As crianças foram salvas graças à coragem da mulher.
Aurilemir Soares Martins não tem tempo para o descanso, não teme o trabalho e faz o que pode para colocar comida no prato do filho que cria sem marido e sem a ajuda de ninguém. Ela toca um carrinho de lanches, atendendo a centenas de pedidos todos os dias. Para complementar a renda, ainda faz faxina e mantém a casa paroquial na região onde mora, na periferia de Ribeirão Preto. Em entrevista ao jornal A Cidade, ela é contundente: "faço tudo para o meu filho. Passei fome e trabalho muito para que ele nunca sinta isso, porque fome dói".
Agnes Gonxha Bojaxhiu nasceu na Macedônia em 1910 e, na Índia, começou a trabalhar com crianças carentes após tornar-se freira católica. Enfrentou resistência com adeptos de outras religiões, como budistas, muçulmanos e hindus, mas venceu as barreiras ideológicas e tornou-se referência. Seu trabalho atravessou fronteiras chegando, através da Congregação Missionárias da Caridade, a países como Albânia, Rússia, Cuba, Canadá, Palestina, Bangladesh, Austrália, Estados Unidos da América, Sri Lanka|Ceilão, Itália, antiga União Soviética, China, entre outros.Agnes era respeitada tanto pela Santa Sé, que rege a Igreja Católica, como por líderes religiosos e políticos de todos os cantos do planeta. Também foi conhecida por Madre Teresa de Calcutá.
São por exemplos como esse, também, que se comemora o Dia Internacional da Mulher. Alguns homens ainda sentem-se superiores às mulheres, pois não precisam enfrentar problemas "simples", como a menstruação, cólicas ou dar à luz a um ser humano que carregam no ventre por cerca de nove meses. Por pensamentos ridículos é que se comemora o Dia Internacional da Mulher. É como diz uma frase atribuída a tantos autores que fica impossível indicar seu verdadeiro, mas que valha o teor: "A mulher nasceu da costela do homem, não dos pés para ser pisada, nem da cabeça para ser superior, mas do coração para ser amada, do lado para ser um igual". Parabéns a todas as mulheres, em especial às mulheres da minha vida: Martha, Mariana, Anna Maria, Antonia, Angelica, Dagmar, Carla, Kelly, Maria Roque, Vitória, Laura e tantas outras. Parabéns, mulheres, pelo seu dia e que as histórias do início deste texto mudem!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Justiça a passos de tartaruga

Num de meus artigos aqui no Blog do Adal, minha amiga Fani comentou um caso ainda dos tempos em que trabalhamos juntos no BHU/Aymoré (Banco Holandês Unido), em Sampa. Eu não tenho certeza, mas já havia saído do banco quando ocorreu um acidente. Um funcionário caiu no fosso do elevador. Isso foi lá pelos anos 1980. A Fani foi uma das testemunhas e me contou que, quase 30 anos depois, o rapaz não recebeu indenização da seguradora.
A briga jurídica se arrasta por longos anos, num reflexo do que é hoje nosso sistema judiciário brasileiro. Em muitas vezes, é melhor tentar um acordo, mesmo que a reparação não seja 100% do que objetivamos, do que entrar na ciranda da Justiça. Isso se explica, em boa parte, pelo fato de termos uma legislação ultrapassada e com inúmeras lacunas, que possibilitam esse tipo de ação.
Os advogados cumprem sua parte. Se há brechas, é porque a Justiça assim permite. Se há como protelar um caso ou obter uma jurisprudência, é porque o cliente assim o quis. E, venhamos e convenhamos, a habilidade do advogado é fundamental nessas horas. Ele precisa estar sempre atualizado para poder dar o melhor de si num caso.
O problema é que, muitas vezes, essa situação atravanca ainda mais o nosso já complicado sistema judiciário. Além da avalanche de casos em todas as suas esferas - cível, criminal, família, trabalhista, pequenas causas, municipal, estadual, federal - os processos que se arrastam por muitos anos lotam os arquivos dos fóruns, causam muito transtornos às vítimas e testemunhas, além de hipotecar à Justiça um certo descrédito popular.
Como já disse anteriormente, se tivesse que viver frequentando os corredores de Fóruns, certamente seria um fracasso na profissão. Não me sinto à vontade naquele ambiente. E, em parte, esse ambiente que vejo pesado - creio que muitos compartilham de minha opinião - é causado por conta da morosidade da Justiça.
Não se trata apenas de contratar mais magistrados e servidores para dar conta da demanda. Claro que isso ajuda. Mas é preciso simplificar essa situação. Não digo que devamos reduzir o amplo direito de defesa. Mas é mesmo necessário tantas brechas, tantas possibilidades de recursos, liminares e afins? Digo isso como leigo que sou. Creio que podemos usar ferramentas como a informática para reduzir o tempo de um processo. Sem o cerceamento de quem quer que seja. E evitar problemas como o do rapaz que caiu no fosso do elevador há cerca de 30 anos e até hoje seu caso está em aberto, por conta dos recursos à que tem direito a seguradora. Legalmente, amparada. Já moralmente...

terça-feira, 6 de março de 2012

Governo ignora composto que combate desnutrição

Farinha Multimistura, de eficácia comprovada na melhoria da qualidade alimentar foi deixado de lado em 2007 e merenda escolar utiliza produtos com maior custo e, segundo especialista, não tão eficazes


Recebi, na segunda-feira, o e-mail de meu amigo Carlos Vieira falando sobre a opção por parte do governo federal por enlatados da multinacional Nestlé em detrimento da Multimistura, uma espécie de farinha barata e acessível, desenvolvida desde 1975 pela pediatra formada pela USP (Universidade de São Paulo) dra. Clara Takaki Brandão. A princípio pensei se tratar de mais uma das lendas da internet. Mas havia tanta informação, que resolvi checar direto na fonte. 
Qual não foi minha surpresa quando, poucas horas após ter enviado um e-mail, a própria dra. Clara me retorna a ligação e confirma o que foi publicado pela revista Isto É, em 2007. Naquela ocasião, o então ministro da Saúde, José Carlos Temporão, optou por compostos de uma multinacional, segundo a reportagem, bem mais caros do que o composto desenvolvido pela dra. Clara Brandão. 
E a retaliação, em pleno governo Lula, chegou a tal ponto que a pediatra, que ocupava uma sala no Ministério da Saúde, teve a energia elétrica do local cortada por três meses, além de ter sido advertida para deixar o prédio ou teria seus pertences despejados. Ela relutou e fez a denúncia, ocasião em que a Isto É publicou a reportagem. 
Mesmo tendo sido alijada do governo, a médica pediatra continuou seu sacerdócio e, apesar de não receber apoio e ser cerceada pelo governo federal ainda nos dias atuais, ela continua o trabalho com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas e lutar contra a desnutrição. Afinal, foi graças à mistura que, entre os anos de entre 1999 e 2004, período em que a Multimistura havia se popularizado em todo o Brasil, reduziu-se a mortalidade infantil em 13%. 
A pediatra explica que a Multimistura é um composto que varia de região para região do País. Utiliza-se dos recursos naturais que cada região tem em particular, com o objetivo de formar um complexo alimentar capaz não apenas de combater a desnutrição, como também melhorar a genética do ser humano. Segundo a dra. Clara, os compostos da Multimistura têm até 20 vezes mais ferro e vitaminas C e B1 em relação à comida que se distribui nas merendas escolares de municípios que optaram por comprar produtos industrializados. Sem contar a economia: "Fica até 121% mais caro dar o lanche de marca", compara. 
Esse trabalho começou a ser feito na década de 1970. Depois de formada em medicina, com especialização em pediatria e, já casada, mudou-se para a cidade de Miracema do Tocantins–TO. Lá montou, juntamente com o marido – também médico – e outros colegas de profissão, o primeiro Centro de Educação e Recuperação Nutricional, em 1972. A seguir viveu em Altamira–PA, na Transamazônica, e em Santarém–PA. 
Em 1975, em Santarém, motivada pela seca que produzia um grande número de desnutridos, iniciou pesquisas sobre as preparações alimentares regionais disponíveis. Criou, então, a Ong SEARA (Sociedade de Estudos e Aproveitamento da Amazônia) que, com o apoio do Programa Casulo da LBA (Legião Brasileira de Assistência), montou 13 creches que chegaram a atender 390 crianças. No cardápio elaborado para as creches, sempre valorizou uma preparação única, com muita variedade e enriquecida com um concentrado de minerais e vitaminas. Assim nasceu a Multimistura.
Em quatro meses, usando cardápios enriquecidos e de alto valor nutritivo, baixo custo, paladar regionalizado, preparo fácil e rápido e que, acima de tudo, podia ser reproduzido em casa, as crianças se recuperavam. Desde 1976, a SEARA continua esse trabalho, mesmo após a extinção da LBA. A Multimistura se mostrou eficaz no combate à desnutrição e, desde então, colecionou vitórias pela qualidade de vida do ser humano. Todavia, nas merendas escolares distribuídas pelo Brasil afora segundo a médica, o domínio hoje é do composto Mucilon da Nestlé, e da farinha láctea, outro produto também fabricado pela multinacional, chamados por críticos de enlatados. 

Durante muito tempo, a Pastoral da Criança ajudou na divulgação do trabalho da Multimistura, principalmente com o apoio de Dona Zilda Arns, falecida no terremoto do Haiti em janeiro de 2010. Hoje, segundo a dra. Clara, isso não mais ocorre, apesar de comprovada a eficácia. A Multimistura, de acordo com sua idealizadora, é bastante simples, barata e merece ser divulgada. Quem se interessar vai encontrar receitas regionais, dicas e sugestões para melhorar a alimentação e, sobretudo, para combater a desnutrição. O site é www.multimistura.org.br . Divulgue este site e ajude a melhorar a qualidade de vida da população. Faça sua parte e, se possível, cobre posicionamento das autoridades a esse respeito. Sempre que possível for, voltaremos a abordar esta questão no Blog do Adal e a trazer receitas e dicas interessantes da Multimistura.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Não queime o sofá

Tenho notado o crescimento no número de pedintes instalados nos semáforos de Ribeirão Preto. Fenômeno semelhante ao que ocorre em outras grandes cidades, inclusive São Paulo. Antes os mendigos usavam crianças - algumas das quais alugadas por seus pais para essa finalidade - no intuito de sensibilizar os motoristas ou pedestres e conseguir alguns trocados.
Várias reportagens foram feitas denunciando essa situação. Em alguns casos, mendigos tinham ganhos superiores ao de gerentes de loja, por exemplo. Outros chegam de carro ao "local de trabalho", trocam-se para a "jornada" e, ao final do "expediente", vestem suas roupas normais e seguem para casa com o "faturamento" do dia.
Hoje o que se nota são mendigos que não se preocupam sequer com crianças. Chegam sujos na janela dos motoristas portando uma pequena moeda e, através de mímica, rogam com as mãos juntas apontadas para o céu por um centavo que seja. Pela frequência com que vejo tais mendigos, suponho que o negócio deva render, ao menos, o suficiente para comprar droga.
Alguns vão dizer, ao ler este artigo, que é melhor pedir do que roubar. De fato, é verdade. Mas se eles pedem, é porque existe quem dê. E quem dá esmolas não o faz para simplesmente ajudar, não. Faz para se livrar da visão que choca, incomoda, mas que é uma realidade. Enquanto estamos confortavelmente sentados em nossos carros, muita gente mal tem o que comer. E, diante da falta de perspectiva aparente, de um emprego digno e de um teto, saem às ruas tentando "ganhar a vida".
A obrigação de criar condições de salários dignos, moradia, saúde e educação é do Governo Federal e bem sabemos que ele não tem feito a lição de casa nesse sentido. Mas também é problema da sociedade como um todo. E alimentar a indústria da esmola só vai fazer com que mais pessoas recorram a essa situação humilhante de vida. Criando, inclusive, condições para o aumento da violência nos grandes centros.
Queimar mendigos vivos - como já está se tornando uma macabra rotina em Brasília -, espancá-los ou simplesmente fuzilá-los - como já visto no Rio de Janeiro e em São Paulo -, não vai resolver a situação. Também não vai resolver dando esmolas. Uma palavra de conforto, um incentivo, podem fazer a diferença. Uma moedinha não. Não é dando aqueles poucos centavos para tirar o problema de sua linha de visão que vai resolver a situação.
É como o marido traído. Ao chegar em casa, encontrou a mulher com o amante bem à vontade no sofá. Para acabar com o adultério, cometeu fogo no sofá e continuou na mesma casa que a esposa. Pense bem, não queime o sofá.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Pinceladas

Educação
O trânsito nas principais cidades do Brasil continua sendo motivo de muita atenção. Cada vez mais os motoristas estão ignorando os preceitos básicos para uma condução segura. Dar seta é artigo de luxo nas ruas. Os motoristas devem acreditar que não precisam dar satisfações a quem vem atrás e fazem conversões sem o menor problema. Outro dia não me contive e falei com um cidadão abusado, que disparou: "problema seu, bateu atrás é culpado". E foi embora com a maior cara de pau.
Preferenciais também não servem para nada em ruas secundárias. O povo passa mesmo. E conversão em lugar proibido? Nem se fale. É a desculpa do estou com pressa e pronto. Isso sem falar nos semáforos desrespeitados, no limite excessivo em locais não compatíveis. Ou quando o cidadão trafega pela esquerda esquecendo-se da vida ou falando ao celular. Pior ainda quando estacionam diante de uma garagem ou em fila dupla e você que espere. Já foi o tempo em que as autoescolas formavam motoristas.

Nosso Paul McCartney ou Mel Gibson...
Nomes de peso na música e no cinema, Paul McCartney e Mel Gibson, respectivamente, foram protagonistas de verdadeiras batalhas judiciais com suas ex-companheiras na partilha de milhões de dólares amealhados durante anos, em discussão após a separação dos casais. No Brasil, o tempo promete fechar para o pseudosertanejo Michel Teló, aquele do sucesso único "Ai se eu te pego", que é divulgado por nomes como Neymar, Tiago Leifert, entre outros. Teló separou-se de sua esposa, uma dentista. Ela pediu que se faça uma análise da movimentação bancária do cantor no ano passado. Sucesso rápido também vai rápido...

Etiquetas nos produtos
Tudo bem, o governo Lula atenuou os supermercados e outros estabelecimentos na questão das etiquetas com preços diretamente nos produtos. A Lei de Precificação, ou simplesmente Lei Federal nº 10.962/04, em seu artigo segundo, determina o seguinte:

“I – no comércio em geral, por meio de etiquetas ou similares afixados diretamente nos bens expostos à venda, e em vitrines, mediante divulgação do preço à vista em caracteres legíveis;
II – em auto-serviços, supermercados, hipermercados, mercearias ou estabelecimentos comerciais onde o consumidor tenha acesso direto ao produto, sem intervenção do comerciante, mediante a impressão ou afixação do preço do produto na embalagem, ou a afixação de código referencial, ou ainda, com a afixação de código de barras.
Parágrafo único. Nos casos de utilização de código referencial ou de barras, o comerciante deverá expor, de forma clara e legível, junto aos itens expostos, informação relativa ao preço à vista do produto, suas características e código.”
Ontem debatendo a questão neste blog com o amigo Eduardo Pincerno, ele levantou este problema. A questão, de fato, merece atenção. Nos supermercados, adivinhar os preços dos produtos expostos nas gôndolas é algo quase impossível. Se os supermercados tivessem, de fato, boa intenção, eles facilitariam com os preços nas gôndolas. Não simplesmente colocando códigos ininteligíveis para o consumidor. Iria direto ao assunto: produto tal, marca tal, peso tal, dimensão tal, por tantos reais. 
Já nas lojas, a velha prática de atrair o consumidor não funciona mais. Não há quem não se irrite ao ver um produto que interessa, sem preço. Isso é um desrespeito, pois não se tem ideia do valor real do produto em questão e, muitas vezes, ao entrar, perde-se tempo à toa. O tempo é cada vez mais escasso para as pessoas. As empresas que se dão conta disso são as que estão em crescimento no mercado de consumo. 

Cartolagem
Antes de me mudar para Ribeirão Preto, Botafogo e Comercial eram dois dos grandes times do interior, temidos pelos times de maior torcida e estrutura do Estado. No final de 2011, Ribeirão Preto festejou o fato de rever, na elite do futebol paulista, seus dois grandes expoentes, após um jejum iniciado em 1986, com a queda do Comercial. Botafogo caiu e subiu, alternando-se ao longo deste período entre as três divisões do futebol bandeirante. Mas neste ano, a coisa complicou. Os dois, até o momento, são sérios candidatos ao rebaixamento. Lamentável. E isso é resultado da ação predatória dos cartolas. A Federação Paulista de Futebol criou um campeonato com uma fórmula esdrúxula, predatória. Os grandes ganham suas cotas e sobrevivem graças aos contratos, vendas de jogadores e receitas extra-campo, como produtos licenciados. Os clubes do interior, salvo raras exceções, sobrevivem de quirelas das cotas de televisão. Jornalistas como Márcio Bernardes e Juca Kfouri alertam sobre essa questão. Um risco para clubes tradicionais, que escreveram uma bela história em nosso futebol. Hoje, cidades como Limeira (Inter de Limeira, campeã paulista em 1986), Novo Horizonte (com o Novorizontino, vice-paulista de 1990 e que cedeu dois jogadores para a Seleção Brasileira campeã em 1994), Sorocaba (com o temível São Bento), entre outras, estão fora da elite do futebol paulista. Até o adorado Juventus, na Capital, amarga uma terceira divisão. Isso por conta da cartolagem, que não se renova e perpetua no poder. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Dependência digital

A Caixa Econômica Federal não realizou ontem o sorteio da Mega Sena por conta de uma pane no circuito que computa a arrecadação e nas casas lotéricas que computam a aposta, problema ocorrido em grande parte do País. Dirão os adeptos da teoria da conspiração: essa é mais uma manobra da CEF para fazer acumular o valor pago nos sorteios, chamando mais gente às casas lotéricas e aumentando o volume das apostas com prêmios tentadores.
Na realidade, esse é só mais um dos tantos problemas causados pela dependência digital. Chegamos a um ponto onde nossa dependência é tamanha que o simples processo do sorteio de seis números fica comprometido por problemas no sistema de computadores - neste caso, agravado por uma pane elétrica em diversas regiões do País.
Ontem mesmo, deixei meu carro para a revisão e, ao final da tarde, quando fui pagar pelo serviço, havia uma fila com pelo menos 12 pessoas no caixa. Só estavam aceitando o pagamento de quem portasse dinheiro vivo. E mesmo assim, os felizardos por furarem a fila iriam receber a nota fiscal a partir de hoje, via e-mail, porque o sistema não permitia sequer a impressão de nota fiscal. Fiquei quase uma hora para poder pagar, pois a tal maquininha do cartão de crédito estava inoperante.
Se a informática veio para ajudar o mundo moderno, não há também como negar que ela tem causado muitos transtornos. Esses são apenas dois exemplos entre tantos que vivenciamos ou ouvimos falar em nosso dia-a-dia.
Não dá para imaginar, por exemplo, um banco sem a informática. Mas, pasmem, ele funcionava normalmente. Lembro que quando trabalhei no BHU (Banco Holandês Unido), no começo da década de 1980, a cada cheque descontado no caixa, os funcionários, antes de pagá-lo, íam para trás da bancada em uma listagem e lançavam o valor debitado, conferiam a assinatura, para depois pagar. Posso até estar errado, mas isso demorava tanto tempo como nos dias atuais. Ou até menos.
Hoje as pessoas se comunicam excessivamente através da internet. E-mails, facebook, twitter, orkut e outras maravilhas tecnológicas nos fazem conversar com gente que nem imaginávamos conhecer. Mas alguém aqui se dispõe a fazer como nos bons e velhos tempos, sair de casa e encontrar um amigo? Tudo bem, não é preciso tanto. Experimente ligar para seu amigo. É verdade, o celular, outra maravilha tecnológica, constantemente apresenta problemas. Mas décadas atrás, ligávamos. Inclusive de "orelhões", os telefones públicos. A vida era mais interativa fora do mundo virtual do que imaginávamos. Em casa, lembro que meus pais foram ter telefone quando estava às vésperas de me casar e mudar para Ribeirão Preto. Mas sempre que precisava, nos comunicávamos com a galera.
Se preciso fosse, ligávamos na casa de vizinhos, que chamavam a pessoa para atender ao telefone sem maiores problemas. Isso porque naquela época não havia telefone sem fio. E já que o assunto é compartilhar, lembro que tinha alguns vizinhos, no início da década de 1970, que não tinham televisão. Tinha dois ou três amigos que iam assistir TV em minha casa.
Por um lado, essas falhas demonstram que, apesar de dominarmos a tecnologia, ainda precisamos cobrar que ofereçam serviço de qualidade. De que adianta ter um celular último modelo se a operadora dá de ombros para o cliente e só faz alguma coisa se é cobrada na Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações)? Mas, por outro lado, precisamos nos tornar menos dependentes digitais. Sempre que falo nisso, lembro de uma frase que via constantemente nas comunidades do orkut: "saia do computador e leia um livro". Pois é, isso pode ser uma excelente pedida. Podem me chamar de arcaico, mas no meu caso, prefiro o bom e velho livro impresso ao tablet.