quinta-feira, 1 de março de 2012

Dependência digital

A Caixa Econômica Federal não realizou ontem o sorteio da Mega Sena por conta de uma pane no circuito que computa a arrecadação e nas casas lotéricas que computam a aposta, problema ocorrido em grande parte do País. Dirão os adeptos da teoria da conspiração: essa é mais uma manobra da CEF para fazer acumular o valor pago nos sorteios, chamando mais gente às casas lotéricas e aumentando o volume das apostas com prêmios tentadores.
Na realidade, esse é só mais um dos tantos problemas causados pela dependência digital. Chegamos a um ponto onde nossa dependência é tamanha que o simples processo do sorteio de seis números fica comprometido por problemas no sistema de computadores - neste caso, agravado por uma pane elétrica em diversas regiões do País.
Ontem mesmo, deixei meu carro para a revisão e, ao final da tarde, quando fui pagar pelo serviço, havia uma fila com pelo menos 12 pessoas no caixa. Só estavam aceitando o pagamento de quem portasse dinheiro vivo. E mesmo assim, os felizardos por furarem a fila iriam receber a nota fiscal a partir de hoje, via e-mail, porque o sistema não permitia sequer a impressão de nota fiscal. Fiquei quase uma hora para poder pagar, pois a tal maquininha do cartão de crédito estava inoperante.
Se a informática veio para ajudar o mundo moderno, não há também como negar que ela tem causado muitos transtornos. Esses são apenas dois exemplos entre tantos que vivenciamos ou ouvimos falar em nosso dia-a-dia.
Não dá para imaginar, por exemplo, um banco sem a informática. Mas, pasmem, ele funcionava normalmente. Lembro que quando trabalhei no BHU (Banco Holandês Unido), no começo da década de 1980, a cada cheque descontado no caixa, os funcionários, antes de pagá-lo, íam para trás da bancada em uma listagem e lançavam o valor debitado, conferiam a assinatura, para depois pagar. Posso até estar errado, mas isso demorava tanto tempo como nos dias atuais. Ou até menos.
Hoje as pessoas se comunicam excessivamente através da internet. E-mails, facebook, twitter, orkut e outras maravilhas tecnológicas nos fazem conversar com gente que nem imaginávamos conhecer. Mas alguém aqui se dispõe a fazer como nos bons e velhos tempos, sair de casa e encontrar um amigo? Tudo bem, não é preciso tanto. Experimente ligar para seu amigo. É verdade, o celular, outra maravilha tecnológica, constantemente apresenta problemas. Mas décadas atrás, ligávamos. Inclusive de "orelhões", os telefones públicos. A vida era mais interativa fora do mundo virtual do que imaginávamos. Em casa, lembro que meus pais foram ter telefone quando estava às vésperas de me casar e mudar para Ribeirão Preto. Mas sempre que precisava, nos comunicávamos com a galera.
Se preciso fosse, ligávamos na casa de vizinhos, que chamavam a pessoa para atender ao telefone sem maiores problemas. Isso porque naquela época não havia telefone sem fio. E já que o assunto é compartilhar, lembro que tinha alguns vizinhos, no início da década de 1970, que não tinham televisão. Tinha dois ou três amigos que iam assistir TV em minha casa.
Por um lado, essas falhas demonstram que, apesar de dominarmos a tecnologia, ainda precisamos cobrar que ofereçam serviço de qualidade. De que adianta ter um celular último modelo se a operadora dá de ombros para o cliente e só faz alguma coisa se é cobrada na Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações)? Mas, por outro lado, precisamos nos tornar menos dependentes digitais. Sempre que falo nisso, lembro de uma frase que via constantemente nas comunidades do orkut: "saia do computador e leia um livro". Pois é, isso pode ser uma excelente pedida. Podem me chamar de arcaico, mas no meu caso, prefiro o bom e velho livro impresso ao tablet.

Um comentário:

  1. Acredito que essa dependência tenha tudo a ver com precipitação. O sistema não pode ainda carregar tanta coisa nas costas. Mas penso que se antes não era a internet, havia outras muletas. Por exemplo, o banco da década de 80 não funcionaria se houvesse uma crise de papel ou de caneta. A diferença é que a produção de ambos já era muito mais bem estruturada do que o sistema operacional atualmente usado.

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