segunda-feira, 19 de março de 2012

Eterno carinho pelo rádio parte II

Mudei-me para Ribeirão Preto por pura obra do destino. Não conhecia nada na região, mas acabei vindo trabalhar na então TV Ribeirão, hoje EPTV, afiliada da Rede Globo. Uma cidade onde o rádio sempre foi um veículo forte, revelando nomes não só para as ondas radiofônicas, como também para a política local, regional e nacional. Ao sair da TV, fui trabalhar em Cajuru, uma pequena, mas maravilhosa cidade, a 60 quilômetros de Ribeirão Preto. Fui convidado pela então prefeita da cidade, Margarida do Nascimento, para assumir a Secretaria de Imprensa.
Foi uma experiência riquíssima em minha vida. Acabei criando um jornal, Boca da Mata (significado de Caa Yuru, traduzido do tupi-guarani) e conheci um grande artista plástico hoje radicado em Ribeirão Preto. Na época, com apenas 14 anos, Cordeiro de Sá, ou simplesmente o meu amigo Carlinhos, ilustrava com seus traços as páginas do jornal.
A então prefeita Margarida me dava total liberdade para criar e, graças a um convênio, passamos a ocupar um horário semanal na Rádio Cultura de Cajuru. Fazíamos um programa, naquela época, ao estilo do qual, há alguns anos, Lula e hoje sua sucessora Dilma fazem: uma conversa informal abordando dúvidas de ouvintes. Como a Rádio dispunha de horários livres, acabei ficando lá por mais tempo e participando da programação da emissora. O interessante é que havia um grande retorno do povo de Cajuru.
O principal locutor e também diretor da Rádio, Esmério Silva, era pessoa de fácil trato e engatamos uma boa amizade, que rendeu programas e coberturas memoráveis, mesmo sem a tecnologia dos dias atuais.
Lembro de uma ocasião em que houve um torneio de vôlei feminino em Ribeirão Preto. A Seleção do Brasil foi anfitriã do torneio disputado no Ginásio da Cava do Bosque e eu estava lá, com gravador em punho, quando veio a ideia: podíamos levar as meninas ao vivo, falando com Cajuru.
Localizei um telefone público, popularmente conhecido por "orelhão" e eu arrastava pra lá as jogadoras Fernanda Venturini, Fofão, Vera Mossa, entre outras. Era até engraçado, pois elas eram mais altas que o "orelhão" e ficavam encolhidas durante a entrevista. Elas me acompanhavam, eu ligava a cobrar, esperava a hora de entrar ao vivo na Rádio Cultura de Cajuru e fazia a entrevista, passando o fone para elas responderem e, ao cabo da resposta, elas me passavam o fone para nova pergunta.
Naquela fase estava ocorrendo a 1ª Guerra do Golfo, com ampla cobertura pela televisão, mas muitas pessoas de Cajuru preferiam se informar pela rádio. Então Esmério e eu criamos boletins a respeito do assunto. Muitas vezes entrava "ao vivo", por telefone, para passar o boletim diário. Sempre na minha hora de almoço na Prefeitura, resumindo as notícias transmitidas pela TV.
O auge desse período ocorreu na final do Campeonato Amador de Futebol de Cajuru, em 1990. Nunca havia narrado uma partida de futebol, mas resolvi encarar o desafio. Chamei uma colega do curso de Rádio, em Guarulhos, Kátia Silva, para fazer as reportagens de campo. Se em 1990 a tecnologia era muito inferior aos dias atuais, imagine numa emissora com parcos recursos financeiros. Era muito improviso.
Ao chegar ao local reservado para a imprensa no estádio municipal, enquanto o técnico instalava o aparelho de som, me entregaram a relação dos jogadores e os torcedores próximos me disseram a cor da camisa de cada time. Começou a partida, eu sem retorno da Kátia, ela ao lado do banco de reservas de um dos times acenando feito doida. Aliás, ela e o treinador do time. Agradeci aos dois pela audiência e continuei a transmissão.
Até que o técnico de som conseguiu restabelecer o retorno com a Kátia, após uns 10 minutos de partida. Foi quando ela me disse que eu estava transmitindo os times invertidos, por conta da peraltice dos torcedores. Ainda bem que no rádio não tem imagem. No final, foi tudo uma festa só e o que restou, além da lembrança, foi a fita da gravação (em k-7, lógico), que guardo com carinho.
Minha última passagem no rádio foi em 1992, quando fui convidado para ser um dos apresentadores do "Grande Jornal Falado Tupi". Eu era o editor chefe e apresentador do jornal, dirigido pelo saudoso Turella, radialista das antigas. Editor chefe era um nome pomposo para o que eu fazia. Na verdade, chegava por volta das 5 da manhã, selecionava as notícias no Diário Popular, pois a rádio tinha parceria com o jornal. Cortava com gilete e colava na lauda que levávamos ao estúdio para ler ao vivo.
Por volta de 6h30, chegavam os outros membros da bancada, o Toninho e a Patrícia Cunha, além do Celeste Pastori, que lia somente notícias de esportes e, quando o assunto eram Botafogo e Comercial, ele tinha tudo pronto, pois o Diário Popular só falava dos times da capital e do litoral. Ensaiávamos e pronto: às 7h00 o jornal era apresentado. Tantas foram as crises de riso no estúdio. Mas o jornal só acabou mesmo por problemas de concessão da rádio, que tinha sede teórica em Jardinópolis, a 20 quilômetros de onde realmente operava, Ribeirão Preto. Desde então, só participo mesmo como ouvinte assíduo desse que é, na minha opinião, um veículo mágico, mesmo nos tempos da internet e da comunicação instantânea com som e imagem simultâneos. O Rádio vai continuar sempre  vivo entre seus ouvintes apaixonados.

2 comentários:

  1. Nossa, ri muito, com vc trocando os times e fazendo as jogadoras irem até o orelhão.Comédia, não sabia dessas passagens da sua vida.Adorei.Sou sua fã.
    Angelica.
    Ah, se sai como anônimo, é pq não aceita de outra forma.

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  2. Angelica, naquele dia no estádio de Cajuru, foi uma piada. Mas das jogadoras, até que não era pedir muito, não. O orelhão ficava próximo à entrada dos vestiários...

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