terça-feira, 6 de março de 2012

Governo ignora composto que combate desnutrição

Farinha Multimistura, de eficácia comprovada na melhoria da qualidade alimentar foi deixado de lado em 2007 e merenda escolar utiliza produtos com maior custo e, segundo especialista, não tão eficazes


Recebi, na segunda-feira, o e-mail de meu amigo Carlos Vieira falando sobre a opção por parte do governo federal por enlatados da multinacional Nestlé em detrimento da Multimistura, uma espécie de farinha barata e acessível, desenvolvida desde 1975 pela pediatra formada pela USP (Universidade de São Paulo) dra. Clara Takaki Brandão. A princípio pensei se tratar de mais uma das lendas da internet. Mas havia tanta informação, que resolvi checar direto na fonte. 
Qual não foi minha surpresa quando, poucas horas após ter enviado um e-mail, a própria dra. Clara me retorna a ligação e confirma o que foi publicado pela revista Isto É, em 2007. Naquela ocasião, o então ministro da Saúde, José Carlos Temporão, optou por compostos de uma multinacional, segundo a reportagem, bem mais caros do que o composto desenvolvido pela dra. Clara Brandão. 
E a retaliação, em pleno governo Lula, chegou a tal ponto que a pediatra, que ocupava uma sala no Ministério da Saúde, teve a energia elétrica do local cortada por três meses, além de ter sido advertida para deixar o prédio ou teria seus pertences despejados. Ela relutou e fez a denúncia, ocasião em que a Isto É publicou a reportagem. 
Mesmo tendo sido alijada do governo, a médica pediatra continuou seu sacerdócio e, apesar de não receber apoio e ser cerceada pelo governo federal ainda nos dias atuais, ela continua o trabalho com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas e lutar contra a desnutrição. Afinal, foi graças à mistura que, entre os anos de entre 1999 e 2004, período em que a Multimistura havia se popularizado em todo o Brasil, reduziu-se a mortalidade infantil em 13%. 
A pediatra explica que a Multimistura é um composto que varia de região para região do País. Utiliza-se dos recursos naturais que cada região tem em particular, com o objetivo de formar um complexo alimentar capaz não apenas de combater a desnutrição, como também melhorar a genética do ser humano. Segundo a dra. Clara, os compostos da Multimistura têm até 20 vezes mais ferro e vitaminas C e B1 em relação à comida que se distribui nas merendas escolares de municípios que optaram por comprar produtos industrializados. Sem contar a economia: "Fica até 121% mais caro dar o lanche de marca", compara. 
Esse trabalho começou a ser feito na década de 1970. Depois de formada em medicina, com especialização em pediatria e, já casada, mudou-se para a cidade de Miracema do Tocantins–TO. Lá montou, juntamente com o marido – também médico – e outros colegas de profissão, o primeiro Centro de Educação e Recuperação Nutricional, em 1972. A seguir viveu em Altamira–PA, na Transamazônica, e em Santarém–PA. 
Em 1975, em Santarém, motivada pela seca que produzia um grande número de desnutridos, iniciou pesquisas sobre as preparações alimentares regionais disponíveis. Criou, então, a Ong SEARA (Sociedade de Estudos e Aproveitamento da Amazônia) que, com o apoio do Programa Casulo da LBA (Legião Brasileira de Assistência), montou 13 creches que chegaram a atender 390 crianças. No cardápio elaborado para as creches, sempre valorizou uma preparação única, com muita variedade e enriquecida com um concentrado de minerais e vitaminas. Assim nasceu a Multimistura.
Em quatro meses, usando cardápios enriquecidos e de alto valor nutritivo, baixo custo, paladar regionalizado, preparo fácil e rápido e que, acima de tudo, podia ser reproduzido em casa, as crianças se recuperavam. Desde 1976, a SEARA continua esse trabalho, mesmo após a extinção da LBA. A Multimistura se mostrou eficaz no combate à desnutrição e, desde então, colecionou vitórias pela qualidade de vida do ser humano. Todavia, nas merendas escolares distribuídas pelo Brasil afora segundo a médica, o domínio hoje é do composto Mucilon da Nestlé, e da farinha láctea, outro produto também fabricado pela multinacional, chamados por críticos de enlatados. 

Durante muito tempo, a Pastoral da Criança ajudou na divulgação do trabalho da Multimistura, principalmente com o apoio de Dona Zilda Arns, falecida no terremoto do Haiti em janeiro de 2010. Hoje, segundo a dra. Clara, isso não mais ocorre, apesar de comprovada a eficácia. A Multimistura, de acordo com sua idealizadora, é bastante simples, barata e merece ser divulgada. Quem se interessar vai encontrar receitas regionais, dicas e sugestões para melhorar a alimentação e, sobretudo, para combater a desnutrição. O site é www.multimistura.org.br . Divulgue este site e ajude a melhorar a qualidade de vida da população. Faça sua parte e, se possível, cobre posicionamento das autoridades a esse respeito. Sempre que possível for, voltaremos a abordar esta questão no Blog do Adal e a trazer receitas e dicas interessantes da Multimistura.

Um comentário:

  1. Temática: Governo igonora composto que combate desnutrição - Farinha Natural/MULTIMISTURA a partir de Produtos Regionais - Postado por < blogdoadal.blogspot.com.br/2012_03_01_archive.html> Esse produto foi abandonado pelo governo em 2007 e a Merenda Escolar (...), vem utilizando farinhas industrializadas, as denominadas de . Essa farinha "Multimistura" foi desenvolvida em 1975 pela Dra. CLARA TAKAKI BRANDÃO. A Dra. Clara, Pediatra, depois de formada na USP, mudou-se para a cidade de MIRACEMA, hoje pertencente ao Estado do Tocantins. Em 1972, a Dra. Clara , fundou o primeiro CENTRO DE EDUCAÇÃO E RECUPERAÇÃO NUTRICIONAL.Posterior, viveu em ALTAMIRA-PA, na Transamazônia, e em SANTARÉM-PA. Em 1975, a Dra. Clara criou a ONG SEARA (Sociedade de Estudos e Aproveitamentos da Amazônia). Aí nascia a MULTIMISTURA. Desde 1976, a SEARA continua esse trabalho. A Dra. ZILDA ARNS, durante os seus trabalhos, enquanto viveu, contribuiu na divulgação e utilização dessa multimistura no BRASIL. Consulte no ; as diversas formulações e os seus valores regionais. Visite o blog do Adal, pois ele tem muitas outras informações explicativas com respeito dos por quês O GOVERNO ABANDONOU O USO DESSA MULTIMISTURA no BRASIL. É lamentável a substitução de produto natural por industrializado (...). Eu faço parte desses adeptos e pesquisadores dessa temática no Estado do Tocantins, isso por ocasião de ser na época docente da primeira UNITINS, e participado ativamente do Grupo de pesquisadores da COMSAÚDE, uma ONG de PORTO NACIONAL , sendo eu a única que reprentava a então Universidade recém criada, nessa ocasião a Dra. Clara Bandão esteve juntamente conosco, aqui no Estado do Tocantis para apresentar o seu trabalho da multimistura; na sede da CONSAÚD. Isso teve o seu início em janeiro de 1992.Eu participei até dezembro de 1996 juntamente com a equipe implatadora e melhoradora dessa multimistura. Criei a Disciplina optativa no Colegiado de Ciências Biológicas dessa primeira UNITINS. Essa disciplina denominava-se: Noções de Fitoterapia e Alimentação Alternativa. Funcionou de 1992 até dezembro de 1998. Graças ao sucesso dessa disciplina e dos Projetos Sociais, tudo isso deu origem ao Grande Projto das Plantas Medicinais no Estado Tocantins que durou somente 1 ano, dos 5 previstos - motivos: erros técnicos institucionais do Convênio 246/97/MS/MA e por aí vai o grande fracasso e demolição de todos os meus esforços profissionais no Estado do Tocantins, isso na área das Plantas Medicinais. Perdi o Projeto, mas não perdi a minha credibilidade junto às comunidades por onde lutamos para coletar as informações etnobotânicas e as alimentações alternativas dos usos populares, inclusive , a Multimistura até os dias de hoje, isso na nossa ONG, a OSEC (Organização Socioambiental Educativa Cominitária). Estamos necessitando de pessoas que acreditem nesses tipos de trabalhos socioambientais inter(trans)disciplinares com olhares de ajuda significativa a quem realmente precisa de reestabelecimento de saúde física, mental, social, enfim, diminuir os seus sofrimentos em deversas direções sem terem culpas de chegarem a níveis dramáticos de pobreza (...). Ana Lourenço da Rosa. Plantas Medicinais. Tocantins. Brasil.

    ResponderExcluir