segunda-feira, 5 de março de 2012

Não queime o sofá

Tenho notado o crescimento no número de pedintes instalados nos semáforos de Ribeirão Preto. Fenômeno semelhante ao que ocorre em outras grandes cidades, inclusive São Paulo. Antes os mendigos usavam crianças - algumas das quais alugadas por seus pais para essa finalidade - no intuito de sensibilizar os motoristas ou pedestres e conseguir alguns trocados.
Várias reportagens foram feitas denunciando essa situação. Em alguns casos, mendigos tinham ganhos superiores ao de gerentes de loja, por exemplo. Outros chegam de carro ao "local de trabalho", trocam-se para a "jornada" e, ao final do "expediente", vestem suas roupas normais e seguem para casa com o "faturamento" do dia.
Hoje o que se nota são mendigos que não se preocupam sequer com crianças. Chegam sujos na janela dos motoristas portando uma pequena moeda e, através de mímica, rogam com as mãos juntas apontadas para o céu por um centavo que seja. Pela frequência com que vejo tais mendigos, suponho que o negócio deva render, ao menos, o suficiente para comprar droga.
Alguns vão dizer, ao ler este artigo, que é melhor pedir do que roubar. De fato, é verdade. Mas se eles pedem, é porque existe quem dê. E quem dá esmolas não o faz para simplesmente ajudar, não. Faz para se livrar da visão que choca, incomoda, mas que é uma realidade. Enquanto estamos confortavelmente sentados em nossos carros, muita gente mal tem o que comer. E, diante da falta de perspectiva aparente, de um emprego digno e de um teto, saem às ruas tentando "ganhar a vida".
A obrigação de criar condições de salários dignos, moradia, saúde e educação é do Governo Federal e bem sabemos que ele não tem feito a lição de casa nesse sentido. Mas também é problema da sociedade como um todo. E alimentar a indústria da esmola só vai fazer com que mais pessoas recorram a essa situação humilhante de vida. Criando, inclusive, condições para o aumento da violência nos grandes centros.
Queimar mendigos vivos - como já está se tornando uma macabra rotina em Brasília -, espancá-los ou simplesmente fuzilá-los - como já visto no Rio de Janeiro e em São Paulo -, não vai resolver a situação. Também não vai resolver dando esmolas. Uma palavra de conforto, um incentivo, podem fazer a diferença. Uma moedinha não. Não é dando aqueles poucos centavos para tirar o problema de sua linha de visão que vai resolver a situação.
É como o marido traído. Ao chegar em casa, encontrou a mulher com o amante bem à vontade no sofá. Para acabar com o adultério, cometeu fogo no sofá e continuou na mesma casa que a esposa. Pense bem, não queime o sofá.

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