quarta-feira, 28 de março de 2012

Nova fórmula de trabalho escravo

Há cerca de um ano, uma polêmica envolve o São Paulo Futebol Clube, o Internacional de Porto Alegre e o jogador Oscar. Formado nas categorias de base do Tricolor Paulista, Oscar conseguiu, junto à justiça, sua liberação alegando problemas no contrato assinado quando ainda era menor de idade e foi emancipado para essa finalidade por seus pais.
A história não é tão simples quanto parece e, apesar de Oscar conseguir um parecer favorável e desligar-se do São Paulo para jogar no Internacional, a briga continuou em outras esferas do Tribunal do Trabalho. O problema envolve ainda seu empresário, que segundo a mídia, teria orquestrado toda a situação para que Oscar saísse do São Paulo sem pagar multa e pudesse ser negociado com o Inter e, posteriormente, para o futebol no exterior, com grandes lucros para Oscar e seu empresário. Até aí, nada de anormal, não fosse o fato de que há Leis que impedem tais abusos.
As Leis escritas por linhas tortas após a Lei Pelé receber famigerada avalanche de emendas que a desvirtuaram totalmente. Hoje Oscar está, no momento, derrotado na Justiça e tem a obrigação de se reapresentar no São Paulo, para voltar a trabalhar. Do ponto de vista do trabalhador comum, isso é como se fosse um trabalho escravo, onde o trabalhador não está livre para trabalhar onde quer.
Do ponto de vista dos exageros praticados no futebol, isso é resultado de uma série de situações que fez com que tradicionais clubes do interior do Brasil sucumbissem. A ponto de cidades lutarem para ter seus times sob o risco de vê-los atravessar as fronteiras. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Grêmio Barueri, que passou a ser Grêmio Prudente e após negociações, voltou a ser o Grêmio Barueri. Ou com o Guaratinguetá, que transformou-se no Americana, voltando em 2012 para Guaratinguetá.
Rasgam a tradição das cidades no futebol em troca das negociatas. A coisa é tão complicada que times como o União São João de Araras, que revelou jogadores como Roberto Carlos, levam seus torcedores ao desespero. O União pode ser rebaixado para a terceira divisão, onde encontram-se, por exemplo, Ferroviária de Araraquara e Inter de Limeira - este último, campeão da principal divisão do Paulista. Botafogo e Comercial de Ribeirão Preto, estão morrendo afogados abraçados, dando adeus à elite, que tem os grandes dominando o cenário.
O futebol brasileiro mudou, radicalmente. Imbróglios como o de Oscar com o São Paulo não são novidades e desestimulam. E que se deixe bem claro: nenhum lado é santo. Principalmente o de Oscar, que ouviu muito o seu empresário e agora se vê contrariado. Nem São Paulo, nem Oscar, querem se reconciliar. O que está em jogo é pagar ou não uma multa milionária.
Tão milionária quanto o status do Corinthians, que de time do povão passou a ser cultuado pela elite. Só para ficar no futebol, sem citar o extra-campo, o Timão, que antes se orgulhava de ter torcedores humildes capazes de qualquer sacrifício para acompanhar um jogo do time no Morumbi ou no Pacaembu, na década de 70, tornou-se time de ricos. Afinal, pagar mínimos R$ 300 por jogo da Libertadores não é coisa para assalariado. E olhe que o Pacaembu, nestes dias, lota, com rendas milionárias destinadas ao time de Parque São Jorge.
Isso tudo tem tirado o brilho do futebol. De tal forma, que a Seleção Brasileira não empolga ninguém. Nem mesmo o técnico Mano Menezes, que disse estar desapontado com o futebol de seus comandados. Então por qual razão ele não convoca jogadores de fato dignos para as vagas na Seleção? Por qual motivo ele deixa empresários "escalarem" a Seleção da Nike, ops, da CBF?
Do outro lado, os verdadeiros escravos. Uma minoria de jogadores é milionária e uma legião de trabalhadores da bola ganham salário mínimo - quando ganham -, por amor ao futebol. É só ver os times das divisões inferiores e os pequenos e médios times. Jogadores que não seguem seus estudos por amor à carreira, à camisa, mas que não despontam para o esporte. O abismo criado há anos e alicerçado pelas mudanças canibais implementadas na Lei Pelé. Tudo pelo nosso futebol.

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