"Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado,
Só em saber que não posso mais,
Reviver o meu passado..."
Daí me dei conta que não prestava atenção nessa letra há mais de uma década. Talvez duas. Quando morava em São Paulo, essa música já tinha deixado de frequentar as paradas de sucesso e, geralmente, era executada nas "churrascadas" - termo muito usado pelo paulistano para as deliciosas reuniões regadas glutônicas regadas a chope, acepipes e muita carne. Mas era um tempo legal, bem despretensioso. Nunca deixei de trabalhar, mas era muito cômodo lembrar que, no caso de uma "zebra", tinha meus pais como porto seguro. E a música continuava tocando na voz de Zélia Duncan:
"Eu vivia cheio de
esperança,
E de alegria
eu cantava eu sorria..."
Verdade. Como somos sonhadores, esperançosos, quando mais novos. A minha geração começava a trabalhar cedo. Pelo menos os não tão abastados. Não era coisa incomum trabalhar durante o dia e estudar à noite. A grande maioria absoluta dos meus amigos fez isso. E o fato de você batalhar sua vida sem preocupações se vai faltar, sabendo que tem na família ancestral o ponto de apoio, fica ainda mais fácil sonhar. E executar.
"Mas hoje em dia eu não tenho mais,
A alegria dos tempos atrás.Mas hoje em dia eu não tenho mais,
A alegria dos tempos atrás..."
Aí a ficha cai. Uma hora você tem que assumir o comando de sua vida sem contar com o apoio que teria. É legal saber que você está enveredando por um caminho que não imaginava há muitos anos. Mas, ao mesmo tempo, começa a se tornar uma coisa diferente, talvez até assustadora. Sim, porque hoje em dia é tudo corrido e se você não percorrer esse caminho rapidamente, com muita atenção para o que está acontecendo à sua volta, o retorno para trilhar o caminho correto pode demorar muitos quilômetros ainda. E, por conta da correria do dia-a-dia, muitas vezes você esquece aquela alegria espontânea.
"Só melancolia os meus olhos trazem,
Ai quanta saudade a lembrança
traz,Se houvesse retrocesso na idade,
Eu não teria saudade,
Da minha mocidade...."
Então me dei conta que estava a caminho do trabalho. Como em Ribeirão Preto as distâncias não são tão longas quanto em Sampa - ainda mais porque moro a menos de dois quilômetros do meu trabalho -, vi que só me restava avaliar a música. Como pode um samba gostoso, de uma letra tão simples, ser tão significativo? Veio a lembrança de um artigo do meu amigo Marcelo Canellas - que por sinal, será publicado em Ribeirão Preto somente no próximo sábado, mas ele já disponibilizou no Diário de Santa Maria. No texto "O ato de escrever", ele cita uma passagem interessante, que transcrevo a seguir:
"Tenho um colega, Ezequiel Martinez, repórter do jornal El Clarín, de Buenos Aires, que é filho do grande escritor argentino já falecido, Tomás Eloy Martinez. Ezequiel me contou que estava escrevendo o perfil de um entrevistado, dizendo que 'o homem falava devagar'. Ao mostrar o texto ao pai, ele recebeu a maior lição de sua vida. Tomás Eloy reescreveu assim a descrição do personagem: 'as palavras lhe saíam cansadas, despedaçadas em largos silêncios'. Esta frase genial é a prova de que clareza nada tem a ver com pobreza de expressão, e de que o simples pode ser brilhante". Como a música. O problema foi que havia chegado a meu destino antes mesmo do fim de sua execução, que continuava:
"Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado..."
Você pode não ter mais seus pais, mas ainda tem muito com quem contar e muitas músicas simples com que se encantar!
ResponderExcluirTe amo
Isso eu sei, minha filha linda!!! Também te amo!!!
ResponderExcluirAdal! adorey seu Blog! achei que era só de Futebol mas não é! Parabéns! vc escreve muito bem! Abração!
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