Quando Jim Carrey estrelou The Truman Show - no Brasil recebeu o nome de O Show de Truman -, ainda não se falava em reality show. O filme, lançado em 1998, mostrava pela TV 24 horas por dia da vida de um homem, desde que veio ao mundo. Ele vivia numa cidade cenográfica e contracenava com outros atores, sem sequer imaginar que estava tendo sua história transmitida ao vivo em cadeia nacional.
Apenas dois anos após o lançamento do filme, surgia no Brasil o programa No Limite, um reality show inspirado em Survivor, grande sucesso nos Estados Unidos. Antepondo-se ao lançamento do BBB (Big Brother Brasil), um formato onde pessoas são confinadas numa casa, que estreou em 2002, o SBT de Sílvio Santos lançou em 2001 o Casa dos Artistas. A fórmula, infelizmente, caiu no gosto popular e hoje os programas do tipo reality show se multiplicam pelas emissoras de TV.
Uns mais bizarros que os outros, os reality, sempre acompanhados pelas câmeras que captam, editam e transmitem para o público todo o tipo de barraco, são realizados em casas, ônibus, academias. Reúnem cidadãos comuns, "artistas", aspirantes a modelos e jogadores de futebol.
A questão é que o País literalmente para e discute as "ideias e ideais" dos confinados como se aquilo fosse a solução de todos os problemas. E quando a audiência está em baixa, nada melhor do que um fato extraordinário para dar fôlego ao programa. Que o diga a última edição do BBB, encerrada ontem. Quando parecia que tudo seria um grande fracasso, até porque a fórmula repetida à exaustão em 12 edições já cansou, uma suposta prática de estupro foi detectada e divulgada em cadeia nacional.
Jornais, revistas, portais de internet, emissoras de rádio e TV, todos voltaram-se para a tal da "casa mais vigiada do Brasil", como propaga aquele que outrora foi um grande jornalista e hoje demonstra ser grande comunicador e apresentador, Pedro Bial. Como se nada mais no mundo estivesse ocorrendo. Saio do meu prédio e ouço a faxineira conversando com a outra sobre o caso. Vou ao supermercado e vejo duas mulheres indignadas com o que ocorreu. Entro na fila da lotérica para "fazer uma fezinha" e dois homens quase trocando tapas. Um dizendo que a mulher consentiu e outro dizendo que o rapaz abusou dela bêbada, sem que soubesse o que fazia.
Não bastasse isso, a emissora que transmite o BBB está emendando um reality em outro. Terminada a última seção dominical do BBB-12, a Globo começou outra competição em uma casa formada por aspirantes a lutadores de artes marciais livres. Isso me faz questionar onde iremos parar. Qual será o nosso próximo brilhante reality show? Que tal trancar duas turmas, uma de meninos e outra de meninas, para ver quem é o melhor na bolinha de gude e a melhor no jogo de amarelinha? Mas não bastará apenas jogar, eles terão que se superar na convivência. Quem sabe um BBB em marte, na lua, sei lá.
Talvez seja por essa febre de reality shows que o povo não se deu conta que a vida, "aqui fora", é um verdadeiro BBB. Basta ver a quantidade de câmeras espalhadas. Você entra no banco e tem câmera para todo lado. Vai ao Shopping e as câmeras te acompanhando. Sai às ruas e câmeras de segurança de prédios, casas e estabelecimentos comerciais ou industriais gravam tudo. Isso quando não é as câmeras da Polícia, acompanhando o movimento nas ruas. Outro dia fui levar minha cachorrinha Pandora para dar uma volta. Em dado momento, dou de cara com uma placa, à porta de uma academia, onde estava escrito, em tom ameaçador: "sorria, o cocô do seu cachorro está sendo filmado". É puro reality show!
Bom final de semana a todas e a todos.
Sobre o assunto, tá no cinema o filme "Jogos vorazes". Muito interessante, por sinal. A questão é que as pessoas têm cada vez menos de quê se orgulhar e se projetam nos confinados, tentando inventar algum evento na vida deles para poder suprir a monotonia da sua própria vida. É triste pra quem tá dentro e pra quem tá fora.
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