Quem viveu nas décadas de 1970 e 1980, pôde aproveitar o final do prazer em se ir a um estádio de futebol para assistir a grandes jogos. Os chamados clássicos sempre movimentaram um grande número de torcedores. Não somente nas finais de campeonato, mas em partidas das etapas iniciais dos torneios, assistir a clássicos era sempre a certeza de ter estádios cheios e muita festa.
Brigas isoladas até aconteciam, principalmente porque as torcidas não eram totalmente separadas - pasmem. Na década de 1970, não havia separação. Quem chegasse antes, escolhia os melhores lugares. Claro, as torcidas uniformizadas - hoje organizadas - sempre tinham suas receitas: alguns membros chegavam antes e estendiam os bandeirões nas arquibancadas, reservando espaço para os outros que chegariam depois. E, naturalmente, as torcidas uniformizadas rivais ficavam distantes, umas das outras.
Mas tinha de tudo, inclusive famílias inteiras que iam ao estádio para ver seus times de coração. Ver da arquibancada um jogo entre São Paulo e Corinthians, São Paulo e Palmeiras, Corinthians e Palmeiras, era uma emoção indescritível. Principalmente se o time preferido vencesse a peleja.
Na década de 1980, as coisas começaram a se complicar um pouco, principalmente com a "profissionalização" das torcidas uniformizadas. Criaram-se, então, os cordões de isolamento. A Polícia Militar separava as torcidas com cordas. A violência entre as torcidas foi crescendo e, ao final da década de 1980, verdadeiras muralhas foram construídas para separar torcedores de clubes rivais nas arquibancadas.
E ir a clássico deixou de ser uma coisa tranquila. Lembro que em 2000, arrisquei e fui com meu sobrinho assistir São Paulo e Santos. A torcida do São Paulo era maioria no estádio, cerca de 80%. Mas isso não impediu que, enquanto estávamos a caminho do Morumbi, um grupo de santistas em um carro disparassem rojões em nossa direção. Longe de querer dizer que os santistas é quem são os perigosos. Todos, independente de clube, travestem-se de animais irracionais quando se juntam em bandos e procuram confusão.
O problema passou, então, ao entorno dos estádios, ampliando cada vez mais o raio de ação dos marginais com camisa de torcidas uniformizadas - hoje organizadas, já que criaram fórmulas de driblar as penalidades impostas pela Promotoria Pública após sucessivas guerras nas ruas.
No jogo entre São Paulo e Santos, no dia 18 de março deste ano, policiais militares escoltavam santistas ao Morumbi, quando o grupo foi surpreendido com uma tocaia armada por torcedores sãopaulinos. Uma grande confusão se formou. Quando a PM conseguiu conter a confusão, deparou com um torcedor santista velho conhecido dos meios policiais e proibido de chegar perto do estádio em dias de jogos do Santos. Estava lá organizando a briga e depois, tentando entrar no Morumbi.
No dia 25 de março, outra guerra campal foi deflagrada. Desta vez, entre corinthianos e palmeirenses. Eles se enfrentaram nas ruas do bairro Freguesia do Ó. Resultado do confronto: um morto e dois feridos graves. Suspeita-se que a briga foi uma vingança promovida por corinthianos pela morte de outro membro de sua torcida em 2011 e marcada pela internet. O corinthiano foi morto por torcedores rivais e teve o corpo desovado no Rio Tietê. Já o palmeirense assassinado no domingo teve um irmão baleado pela PM no jogo entre Corinthians e Palmeiras, realizado em Presidente Prudente, em 2011, pelo campeonato brasileiro, após brigas entre as duas torcidas. Horas depois da batalha campal na Zona Norte de São Paulo, ocorreu na Praça Charles Müller, em frente ao estádio do Pacaembu, novo confronto, entre corinthianos e policiais militares. Muitos torcedores já tombaram. Outros tantos podem morrer nos próximos confrontos. Inclusive pessoas que não pertençam às uniformizadas ou organizadas. Isso faz com que sejam vistas cenas como as do jogo entre Ponte Preta e Guarani. Diante das constantes brigas de torcedores, estabeleceu-se que, em Campinas, o clássico entre os dois clubes da cidade, mais conhecido por Dérbi, seja jogo de uma única torcida. Vai-se o charme do futebol, em nome de uma frágil segurança. Pelo menos a FPF (Federação Paulista de Futebol) proibiu, ao menos temporariamente, a presença da Gaviões da Fiel e da Mancha Alviverde nos estádios. Poderia estender a medida a outras torcidas e de outros times, pois o torcedor comum vai agradecer.
Em tempo: outro torcedor palmeirense, vítima do confronto, teve morte encefálica no início do dia 27 de março. Segundo o Hospital São Camilo, para onde o torcedor foi levado com traumatismo craniano após o confronto entre as torcidas, não há mais atividade cerebral e ele só está sendo mantido vivo com a ajuda de aparelhos. A morte cerebral foi declarada por volta das 6h00 de hoje.
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