sexta-feira, 27 de abril de 2012

Obrigado e volto em breve

O Blog do Adal foi uma ideia que surgiu para expressar o que sinto e dividir com os amigos leitores minhas experiências. Mas não imaginava que fosse dar tão certo como deu. E, por essa razão, farei uma pausa nas postagens para estudar as sugestões que recebi dos amigos leitores, com o objetivo de deixar o blog ainda mais dinâmico e interativo.
Volto com novidades a partir do dia 14 de maio de 2012 e conto com a sua presença diária, de segunda a sexta-feira. Enquanto isso, os artigos já publicados continuarão aqui para quem quiser ler ou reler. E os comentários são sempre muito importantes para continuar evoluindo. 
Até a volta e obrigado a todos os meus amigos leitores. 

O Brasil "trem" jeito

Certa vez vi essa frase num movimento pela valorização dos trabalhadores da rede ferroviária no Brasil. Achei interessante por demais e comecei a perceber que, apesar do hoje quase falido sistema ferroviário, principalmente no setor de passageiros, o trem sempre fez parte de minha vida.
Lembro que era pequeno, uns seis ou sete anos, e alguns domingos no ano a família toda se arrumava. Eu, minha irmã, meus pais e meus avós íamos a pé até o Parque Edu Chaves, apanhávamos o Vila Magdalena, linha da CMTC (Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos) que atravessava a cidade de São Paulo. Descíamos no Largo da Concórdia e, na Estação Brás embarcávamos rumo às estações Poá e Calmon Viana.
O passeio era mágico. Aquele enorme meio de transporte, cheio de passageiros, janelas abertas, cabelos esvoaçando ao vento, barulhento, com um harmonioso chacoalhar. Em Poá, descíamos para visitar a antiga lavadeira - que cuidava de lavar e passar a roupa - da família de minha vó, quando ela ainda morava no bairro da Moóca. Tomávamos o café da manhã e o grupo seguia à pé, rumo à estação Calmon Viana, que ficava cerca de três quilômetros de Poá. O percurso era feito no trilho do trem e, vez por outra, tínhamos que sair do trilho quando vinha alguma composição. Uma emoção a mais.
O tempo passou e o trem continuou fazendo parte de minha vida, fosse em passeios ou no dia-a-dia. Na minha época de faculdade, foram quatro anos seguidos andando de trem, na ida e na volta de Mogi das Cruzes. Lembro que trabalhava no Banco Holandês Unido, no Centro de São Paulo, ao lado da amiga Fani que constantemente participa deste Blog. Em algumas ocasiões, usava terno e gravata e saia do banco direto para a faculdade. Chegando no Brás, esperava o trem na parte da frente da plataforma. Era o trem dos Estudantes. Ele seguia direto, com pouquíssimas paradas até a estação final, localizada no Campus da UMC (Universidade de Mogi das Cruzes). Quando o trem chegava na plataforma, eu pendurava na porta, mesmo de terno e gravata, para conseguir dois lugares e seguir sentado até Mogi, na companhia de minha namorada, hoje esposa.
Presenciei acidentes de trens, suicídios, mas nunca deixei de gostar do meio de transporte. Em 1988, mudei-me para Ribeirão Preto, uma cidade que cresceu e se desenvolveu por conta do progresso trazido pela Companhia Mogiana. O trem sempre teve fundamental importância na história cidade. Quando cheguei a Ribeirão Preto, lembro que havia um cruzamento, na Avenida Dom Pedro, onde ficávamos às vezes até 15 minutos parados, enquanto o trem realizava manobras. Era caminho obrigatório de minha casa até o trabalho, na EPTV, afiliada da Rede Globo. Mas valia a pena ver as manobras, lembrar dos tempos de criança.
Ribeirão Preto, a exemplo do restante do Brasil, começou a deixar de lado o transporte ferroviário e tudo começou a se deteriorar. Minha filha ainda chegou a fazer o passeio entre Ribeirão Preto e São Simão, de trem, mas que foi desativado pouco tempo depois. Hoje boa parte dos trilhos foi removido, principalmente dentro da cidade. Uma pena.
Na Europa, o trem é ainda um importante meio de transporte. É possível, através do Eurail Pass (sistema de passes e percursos interligados) conhecer muitas cidades no Velho Mundo sobre os trilhos. Passeios confortáveis, práticos e baratos. Em alguns casos, dependendo do trajeto que for traçado, economiza-se até em hotéis, pois o turista dorme no próprio trem. Praticamente toda Europa está interligada pelos trilhos.
No Brasil ainda restam alguns roteiros que resistem ao tempo. Um deles é o que faz o passeio turístico entre Curitiba e Paranaguá. Deslumbrante. O trem vai passando por penhascos e desfiladeiros, numa área de rica mata atlântica.
Tem também a Maria Fumaça que oferece passeios em Jaguariúna. Outro passeio interessante é entre Belo Horizonte e Vitória. A Estrada de Ferro Vitória-Minas conta com 905 quilômetros de extensão e dois trens diários, com cerca de 13 horas de duração na viagem. Contando com classe executiva, o passageiro conta até com ar condicionado e serviço de bordo.
Outro passeio interessante é o de Campos do Jordão, até Santo Antonio do Pinhal, passando pela Serra da Mantiqueira até chegar ao Vale do Paraíba. Porém é bastante concorrido, principalmente nos feriados. Mas dois passeios em especial fizeram muito sucesso. Um deles é o da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Na serra, havia cabos de aço e os vagões desciam um por vez. O outro passeio que não existe mais é o Trem de Prata, já descrito neste Blog do Adal. Um meio de transporte prático, dinâmico, econômico e ecológico. Que ainda pode ser resgatado, para o bem do Brasil. Como dizem os ferroviários, o Brasil Trem Jeito.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Árduas profissões

Trabalhar é, costumeiramente, uma atividade estressante. Envolve muitas particularidades, como salário ou rendimento, tarefas, perspectivas e uma série de fatores que faz com que haja um acirramento natural no dia-a-dia das pessoas. Algumas profissões ou carreiras, no entanto, têm um tempero a mais que garantem um quadro ainda mais árduo.
As carreiras que se envolvem com a morte já carregam uma condição maior de dificuldade. Por mais preparados que estejam tais profissionais, cada caso é um caso e nunca se trabalha com a total frieza que se espera, por exemplo, quando um auxiliar de necrópsia ou um médico legista atuam. Por mais que se tentem colocar de forma profissional, não é fácil apagar que aquele objeto em que estão trabalhando foi um dia um ser humano, com história, sentimentos e relacionamentos.
Quando a coisa envolve crianças, é ainda mais complicado. Certa vez, entrevistando vários auxiliares de necrópsia para uma matéria, todos foram unânimes em dizer que realizar os trabalhos em uma criança é sempre uma situação difícil. Um deles participou da apuração das causas que levaram um menino à morte e, graças aos exames, conclui-se que aquele pequeno corpo teria perdido a vida por conta das agressões sofridas de familiares.
Outra profissão estigmatizada e árdua é a de coletor de lixo. Correm o dia todo atrás do caminhão recolhendo os dejetos das casas. Muitas vezes pessoas irresponsavelmente despreocupadas causam-lhe acidentes, ao não acondicionar bem vidros e outros objetos cortantes.
Também difícil é a vida do carteiro. Além de ter que carregar muitos quilos em mochilas, caminha sob sol ou sob chuva, em alguns casos sendo mal recebido por moradores ou até por animais de estimação quando vão entregar correspondências.
Igual sorte - ou azar - têm os cortadores de cana-de-açúcar, carreira em vias de extinção. Nos áureos tempos, um bom cortador de cana fazia um bom salário, dependendo de sua capacidade de toneladas de corte diária. Mas fosse ele bom ou não cortador, os riscos eram sempre grandes. Trabalhar em um local enfestado de ratos e cobras, utilizando um podão, com riscos enormes de acidentes. Não são poucos os trabalhadores rurais com dedos decepados durante o trabalho realizado sob sol ou sob chuva.
Na área de saúde, trabalhar com pacientes terminais nunca é uma coisa fácil de se fazer. Médicos e enfermeiros se deparam com pessoas em situações extremas, no limite entre a vida e a morte. Muitas vezes acabam buscando forças não sabem onde para continuar trabalhando.
O grande problema de boa parte das carreiras que não atraem tanta gente, mas que acabam sendo opções para quem quer ganhar a vida honestamente é que, em determinadas carreiras, há um grande desrespeito por parte das pessoas. O chamado preconceito. Que desmotiva, desvaloriza o ser humano e torna ainda mais árdua a tarefa de trabalhar.
Melhor mesmo, nesses casos, é dar uma guinada, mudar os rumos da vida. Exatamente como fez um amigo meu, que era administrador de empresas em São Paulo. Trocou a vida maluca da grande metrópole por um pesqueiro, em Jundiaí. Hoje o Marcão é um cara zen, de bem com a vida. Trabalha bastante, é verdade, mas no seu Pesqueiro Lagoa dos Patos, o clima é muito diferente do que ele enfrentava em São Paulo.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Trem de Prata

Quando o assunto era viajar entre São Paulo e Rio de Janeiro, o Trem de Prata reunia um grande número de apaixonados pelo passeio. A minha primeira viagem para a cidade maravilhosa foi feita com o Trem da Prata. Na verdade, conheci o Rio, na primeira vez que fui para lá, em apenas um dia. Trabalhava, fazia faculdade, tudo corrido. Mas queria fazer uma surpresa à minha namorada - hoje esposa.
Comprar passagens para o Trem de Prata era algo bastante concorrido. Somente 15 dias antes da viagem é que eram vendidos os bilhetes. E esgotavam-se em pouco tempo. Pois 15 dias antes de viajarmos, fui para a fila, de madrugada. Era na Estação da Luz. Chegando lá, já havia umas 20 pessoas à minha frente. Comprei uma das últimas cabines duplas do trem. Não consegui comprar a passagem de volta e tive de voltar de avião. Trem e avião custavam praticamente a mesma coisa.
No dia marcado, lá estávamos nós, para nossa viagem no "Expresso Oriente" brasileiro. Talvez não tenha a mesma mística do passeio oriental, que já rendeu muitos filmes. Mas não deixava de ser luxuoso. Logo que chegávamos à Estação da Luz, com o movimento frenético dos trens dos subúrbios, éramos levados a uma espécie de plataforma vip.
Carregadores vestidos iguais aos mostrados no recentemente relançado filme Titanic. Apanhavam as malas dos passageiros, etiquetavam e nos encaminhavam a uma ala onde havia bancos confortáveis iluminados por lustres e candelabros magníficos. Quando o trem chegava à plataforma, o embarque era feito em clima de muita tranquilidade, contrastando com o frenético movimento da grande maioria dos usuários da Estação da Luz.
O Trem de Prata tinha o piso todo revestido de carpete. Um funcionário nos conduziu à nossa cabine. É muito semelhante à cabine de um navio de cruzeiros. Apertada, mas funcional. Achei estranho, pois havia apenas uma sala com duas poltronas, um armário e um apertado banheiro. Perguntei se as poltronas eram reclináveis e o funcionário me mostrou que as camas estavam embutidas na parede. Ele explicou que o jantar seria servido assim que o trem partisse, mas marcamos meia hora depois o nosso turno.
Britanicamente às 23h00, um longo e estridente foi ouvido e a composição começou a rodar, lentamente, sobre os trilhos, deixando aos poucos a Estação da Luz. Ficamos em nossa cabine, confortavelmente instalados. Em poucos minutos, rodando a cerca de 20 quilômetros por hora, já havíamos alcançado a estação do Brás. Lá fora, a multidão correndo entre as plataformas para apanhar composições que faziam as linhas Santos-Jundiaí, a Tronco (Braz-Mogi das Cruzes) e Variante (Braz-Mogi das Cruzes via Calmon Viana). A essa altura, já nos dirigíamos para o vagão-restaurante.
No vagão com várias mesas, lado a lado, luxuosamente decorado, fomos recebidos pelo maître, que nos conduziu à nossa mesa. Jantamos enquanto as estações do subúrbio surgiam e desapareciam, uma após a outra. Tatuapé, Vila Esperança, Patriarca, Arthur Alvin, Itaquera. Em pouco tempo já deixávamos a cidade de São Paulo. Após o delicioso jantar, fomos para a cabine e, surpresa, as camas estavam arrumadas. Ainda fomos tomar um drinque, a famosa "saideira", no vagão-bar. Com o leve chacoalhar do trem, veio o sono e fomos dormir, pois no dia seguinte, por volta de 9h00, chegaríamos ao Rio de Janeiro. Acordamos cedo, fomos ao vagão-restaurante apreciar o café da manhã, quando notamos já estar circulando nos subúrbios cariocas.
Voltamos à cabine para acompanhar a chegada à cidade maravilhosa. Aos poucos, locais conhecidos surgiam nas janelas. Avistamos ao longe o Corcovado, com o Cristo Redentor imponente ao nos dar boas vindas. Surgiu o Maracanã, a favela das Mangueiras e, pouco tempo depois, desembarcávamos na Central do Brasil.
Repeti algumas vezes o passeio. Mas as passagens sempre se esgotavam rapidamente, principalmente nos finais de semana de Fórmula-1 no Rio. Lembro de um deles, em 1988, onde Senna largou dos boxes, em último e fez uma corrida de arrepiar. Estava em segundo, perseguindo o líder Alain Prost, quando recebeu bandeira preta e foi eliminado da prova por ter sido empurrado pelos mecânicos. Na volta, no Trem de Prata, não se falava de outra coisa.
Nas fotos acima, o corredor do vagão, o dormitório e o Maracanã visto do Trem de Prata

O memorável passeio durou pouco mais de 40 anos. Em 16 de fevereiro de 1991, o trem fez sua última viagem. Da mesma forma como começou: às 23h00, saia uma composição do Rio de Janeiro com destino a São Paulo e outra no sentido inverso. O passeio foi retomado em 1995, pela iniciativa privada, mas parou de circular, definitivamente, em 29 de novembro de 1998, por conta das precárias condições de conservação da malha ferroviária. Quem não fez o passeio, só vai ficar na imaginação e quem fez guarda os tempos de Trem de Prata com carinho na memória.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Dando um jeitinho

É impressionante a capacidade das pessoas em encontrar as mais absurdas saídas para seus problemas, numa situação em que, momentaneamente, tudo ficará bem, mas no futuro a coisa poderá se complicar ainda mais. Nos últimos dias, a "criatividade" de alguns casos divulgados pela imprensa chegou até mesmo a surpreender.
Num dos casos, ocorrido em Curitiba, uma adolescente e algumas amigas foram internadas depois de provarem alguns bombons que receberam em casa. Ao investigar o caso, policiais descobriram que a autora do envenenamento foi a mulher contratada para organizar a festa de 15 anos da jovem.
Depois de identificada e indiciada, ela resolveu se "explicar". Disse que gastou todo o dinheiro recebido pela família da garota e, como estava endividada, não conseguiria honrar o compromisso. Mas não teve coragem de se retratar à família e deu a entender que tudo corria normalmente para a tão sonhada festa de debutante. Foi quando ela teve a ideia de fazer alguns brigadeiros, colocando veneno nos doces e enviou à garota. A mulher teria dito que a intenção era que a menina fosse internada após passar mal e que a festa fosse adiada tempo suficiente para que ela conseguisse dinheiro para honrar o compromisso. Quase matou sua cliente e acabou apontada pela autoria de um crime.
Outro caso surpreendente foi a de uma empresa especializada em organizar formaturas, na cidade de São Paulo. Cerca de 300 formandos tiveram uma desagradável surpresa na noite de 14 de abril. Alunos de 15 escolas da zona leste de São Paulo, eles chegaram a um salão de festas em Guarulhos, onde aconteceria o baile de formatura do grupo.
Chegando ao local, perceberam que não haveria festa alguma. A empresária que havia promovido e arrecadado o dinheiro para a formatura simplesmente tinha desaparecido e o salão estava fechado. Inconformados, os formandos foram em grupo para delegacias próximas às escolas onde estudavam e movimentaram os DPs (Distritos Policiais) de Guarulhos, São Miguel Paulista e Tatuapé.
Na última semana, a dona da empresa de formaturas disse que ela também era "vítima". Foi a um programa de televisão e justificou a situação dizendo que foi traída por parceiros comerciais em quem tanto confiou. Indagada sobre se ela pretendia executar judicialmente tais parceiros, ela disse que não o faria por não ter contrato. Também não declinou seus nomes, alegando que poderia ser processada pela situação.
Neste caso, restam dois caminhos: se a mulher estiver dizendo a verdade, é de uma imensa incompetência profissional. Se estiver mentindo, dificilmente vai conseguir escapar de punição, pois a estória que contou dificilmente convenceria uma inocente criancinha.
Outro caso que beira a comédia é o de um empresário de Mandaguaçu, no norte do Paraná. Dono de uma revenda de veículos usados, ele compareceu à delegacia da cidade com aproximadamente R$ 80 mil em dinheiro falso. Disse aos policiais civis que estava arrependido pela ideia que teve e executou. O homem, que alegou ter dívidas em torno de R$ 700 mil, contou que por desespero, foi ao Paraguai e comprou dinheiro falso que usaria para começar a saldar seus compromissos em atraso. Mas acabou arrependido e resolveu devolver o dinheiro ao delegado.
O problema é que o arrependimento pode, no máximo, ajudar numa redução de pena, não em sua extinção, afinal, o ato criminoso já foi cometido. Nos três casos, em comum saídas nada ortodoxas buscadas por pessoas que, em momentos de insanidade ou achando que o jeitinho resolveria a situação, se aventuraram em terrenos que não conhecem bem. Agora, possivelmente, terão bastante tempo para refletir sobre seus atos.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Férias frustradas e inesquecíveis

Florianópolis sempre foi uma cidade fácil de se conseguir alugar um imóvel. Fui para lá várias vezes e nunca tive dificuldade para me instalar. A linda ilha, capital da bela Santa Catarina é um daqueles lugares acolhedores que existem Brasil afora.
Era a passagem de ano de 2002 para 2003. Passamos o Natal em São Paulo e seguimos para Floripa, com escala em Curitiba. Ah, a capital paranaense. Cidade excelente para se visitar. Programamos apenas dois dias em Curitiba, suficientes para realizar o passeio de trem entre Curitiba e Paranaguá e para rever o bairro Santa Felicidade, com sua gastronomia maravilhosa.
Fizemos o passeio juntos com o músico Nando Reis e sua então adolescente filha Sofia - hoje integrando a equipe de apresentadores do A Liga, na Band. Descemos em Morretes, uma cidade antes do destino final, para apreciar o famoso prato local, o barreado.
Voltamos para Curitiba e o hotel estava muito acolhedor. À noite fomos ao Santa Felicidade, fizemos alguns passeios e, quando retornamos, o porteiro disse que poderíamos ficar mais, pois uma reserva havia sido cancelada. Ficamos.
Quando entramos na estrada rumo a Floripa, um trânsito imenso. Parecia que estava na Imigrantes, descendo a serra num feriado prolongado. Comecei a ficar preocupado quando, em Joinville, não conseguimos parar num posto à beira da estrada para almoçar. Havia fila de carros até no acostamento. Seguimos até a cidade e almoçamos em Joinville, num pequeno shopping, bem no centro.
Resolvi perguntar e o dono de uma das lanchonetes da praça de alimentação disse que os argentinos haviam se recuperado da grave crise que assolou o país na virada do século e estavam invadindo as praias catarinenses. Seguimos viagem e resolvi parar em Camboriú. Um rápido passeio pelo local e percebemos que não havia nada disponível para locação. De volta à estrada, rumo a Floripa. Lá chegando, fomos direto à praia de Canasvieiras. Roda aqui, roda ali, pergunta para um, pergunta para outro. Nada disponível para locação. Seguimos para a praia dos Ingleses e até vimos alguma coisa, muito distante. Então decidimos procurar hotel.
Ligamos para vários e nenhum disponível. Começou a bater o desespero. Estávamos eu, minha esposa e meus dois filhos, na época crianças.
Paramos num shopping, próximo ao centro e à ponte Hercílio Luz, principal cartão postal da cidade. Já estava disposto a dormir no carro, no estacionamento do shopping, quando alguém na praça de alimentação me indicou um hotel simples, desses para vendedores, na área continental de Florianópolis. Atravessamos a ponte e voltamos ao continente rumo ao tal hotel. Chegamos e pegamos o último quarto. Nos alojamos e no dia seguinte deixei a família lá para tentar achar algum imóvel. Percorri novamente Ingleses e nem os que havia no dia anterior estavam disponíveis no dia seguinte. Fui para a Barra da Lagoa, um bairro de pescadores e não havia nenhuma cama sequer. Fui para a Lagoa da Conceição, Joaquina, nada.
Voltei para o hotel, conversamos e resolvemos tentar mais um dia no local, só para levar as crianças à praia. Já era 29 de dezembro de 2002, quase réveillon. Liguei para um agente de viagens de Ribeirão Preto, que costuma ter flats para alugar no Guarujá. Tinha um único. Ele me garantiu que tinha ar condicionado em todos os cômodos e acabei fechando. Mais tranquilos, fomos à praia. A essa altura, tinha uma família no estacionamento do hotel esperando nossa saída, o que só ocorreria dia seguinte. Eles dormiram aquela noite no carro. Fomos à praia, descansamos e, no dia 30, seguimos de Floripa rumo ao Guarujá.
Quando chegamos no Guarujá, por volta de 23h30, a criançada reclamava de fome. No elevador, deparamos com um entregador de pizza, que ia entregar encomenda para um cliente. Tentei negociar, pagando o triplo da pizza, mas ele foi íntegro e não teve conversa. Tivemos que encomendar e esperar mais de uma hora.
Isso, porém, não foi nada. Chegando ao apartamento, os três aparelhos de ar condicionado não funcionavam. A roupa de cama estava suja e com pelos púbicos. O banheiro não estava em condições de uso e a geladeira com alguma coisa estragada. Passamos uma noite "memorável". Decidimos pela manhã, regressar a Ribeirão Preto. Perto de Jundiaí, paramos num posto de abastecimento para comer alguma coisa e descansar. Meu filho foi passar por trás de um balanço no playground e um menino acertou-o. Machucou a boca. Depois de estancar o sangue, vimos que o problema felizmente não era tão grave e resolvemos seguir viagem.
Chegamos em Ribeirão Preto, deixei a família e corri para comprar algo para a ceia. Cheguei aos mercados e todos fechados. Fui ao 24 horas e ele estava fechando. Entrei correndo e comprei a única coisa disponível: frango defumado. Uma champanhe de segunda para celebrar e pronto. Feliz 2003. Curiosamente, mesmo depois de tudo o que passamos, meus filhos costumam dizer que aquele foi um dos réveillons mais divertidos que já passaram.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Continua lindo

Por mais caótico que seja, na minha opinião a Cidade Maravilhosa vai ser sempre a cidade Maravilhosa. Dia desses, ao ler um artigo de Marcelo Canellas, vi que ele associa algumas cidades a cheiros típicos. Não importa a época mas, sempre que chego ao Rio de Janeiro, o cheiro é sempre o mesmo: da deliciosa brisa marinha, com odores característicos da cidade mais estrategicamente construída em meio à exuberante natureza.
Para muitos paulistas o Rio de Janeiro é visto como um território de desocupados, que vivem tomando sol nas belíssimas - e poluídas - praias. Muita gente até pode viver assim, mas carioca também trabalha e muito. Inclusive no setor de turismo, para bem receber os exigentes críticos paulistas em suas estadas.
Mas é evidente que, com tanta natureza à disposição, o carioca usufrua em suas horas de folga de tudo o que o Rio oferece. Como turista, tenho duas formas de aproveitar meus passeios ao Rio de Janeiro. O tradicional e o alternativo.
O tradicional, mesmo que já tenha repetido muitas vezes o roteiro, faço questão de ir novamente. Não dispenso a visita ao Cristo Redentor e ao Pão de Açúcar, por exemplo. É claro que não têm o mesmo charme de antes. No Cristo Redentor, diante do volume cada vez mais crescente, criou-se um "esquema" para levar os turistas a um dos mais belos mirantes do planeta. De carro, já cheguei a estacionar na vaga mais próxima ao Cristo. Hoje não se chega lá a não ser em vans - que parece um grande negócio explorado como monopólio - ou no trem turístico.
Em feriados prolongados, trem turístico é sinônimo de aborrecimento. Já houve caso de comprarem passagens além da capacidade de transporte no trecho que sobe os belos morros de Cosme Velho. De van, filas enormes. Mas nada que não se releve ao avistar, do alto, as praias da zona sul e a baia de Guanabara.
Da última vez que fui ao Pão de Açúcar, confesso, não aproveitei tanto o percurso. Fiquei em filas durante as cinco horas em que lá estive. Fila para entrar no "bondinho" que faz o primeiro trajeto. Sai no primeiro morro e entrei na fila para o segundo. Saí e já fui na fila para descer de volta para o primeiro e depois na fila para descer até o bairro da Urca.
Mas ainda assim, são passeios belíssimos. Como é o bonde de Santa Tereza. Hoje desativado após um trágico acidente ano passado, o passeio tem muito charme e passa por locais de boêmia, como os Arcos da Lapa e Santa Tereza. É uma boa opção para almoço. Quando o bonde voltar a funcionar, siga de bonde, mas enquanto isso não acontece, dá para chegar de carro, táxi ou ônibus. Almoçar em Santa Tereza é ótima pedida.
Na rota ainda tradicional, mas mais moderada, nada como passear pelo Jardim Botânico. Exuberante por natureza. Mas aproveite também para passear no Parque Lage, que fica ao lado e não é tão conhecido. Agora, se a ideia é fugir do convencional, alugue um automóvel ou contrate um táxi - claro, negociando bastante e tomando cuidados básicos que todo turista toma em qualquer lugar - e saia pelo Rio.
Conheça suas praias. Particularmente, a que mais gosto é de São Conrado. Sim, aquela que fica próximo à favela da Rocinha. Mas percorra todas, do Recreio até o Flamengo. Se tiver vontade, vá até a Ilha do Governador. Um bom "churrasquinho de gato" pode ser opção.
Vá à feirinha de São Cristóvão, o reduto nordestino no Rio de Janeiro. Ou passe pelas obras do Maracanã. Outra opção é conhecer os bares da Lapa e do centro do Rio, com o Amarelinho. Ou a famosa Confeitaria Colombo. Hoje, ficando na zona sul, tudo é mais simples com o metrô. É possível até ir aos subúrbios, combinando metrô e ônibus, com rapidez e agilidade.
Informações para passeios no Rio não faltam. O importante é planejar tudo antes. Até para passear na Floresta da Tijuca ou para saltar de asa delta. No Rio de Janeiro, o que importa é aproveitar. Aquele abraço!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Talento que brota até nas pedras

A porta do necrotério se abre. Sobre a mesa fria, o corpo recém-costurado. Entram na sala o delegado acompanhado de dois investigadores. Como de costume, o auxiliar de necrópsia vai em direção ao grupo que acabara de chegar e estende a mão para cumprimentar o delegado. "Não dou a mão em quem mexe em cadáver", disse friamente o delegado.
A cena nunca saiu da lembrança do policial civil que havia acabado de necropsiar aquele corpo. Ele contou que foi fato isolado, mas o suficiente para marcá-lo por toda a vida. A história me foi contada durante uma reportagem especial que fiz sobre a carreira de auxiliar de necrópsia, uma carreira da Polícia Civil de fundamental importância para esclarecimento de crimes e mortes violentas. Sob a supervisão do médico legista, é o auxiliar quem executa os cortes no corpo durante uma necrópsia. E mesmo sem faculdade de medicina, não raras as vezes é o auxiliar quem alerta ao legista sobre marcas não observadas num corpo pelo profissional médico.
Mas até o próprio auxiliar de necrópsia admite que é uma árdua tarefa. Por isso meu entrevistado conta que encontrou em outra atividade forças para superar as dificuldades da carreira. Ele tornou-se um damista, aquele que disputa partidas oficiais de damas, o tradicional jogo disputado no mesmo tabuleiro do xadrez. Hoje coleciona medalhas nos torneios da terceira idade.
Assim como o auxiliar de necrópsia, outros policiais civis acabam descobrindo talentos para suportar a estressante missão de combater a criminalidade. Foi o que descobri ao longo de 18 anos atuando especificamente na área policial. Não que essa fosse minha área preferida, mas como em nossa vida nem tudo é um roteiro de novela, muitas vezes a oportunidade se apresenta e é preciso abraçá-la.
É claro que há maus policiais. Assim como há maus jornalistas, maus médicos e maus profissionais em geral. Mas particularmente a carreira policial sofre com um crime hediondo, o da generalização. Principalmente por conta da própria imprensa, que explora à exaustão as ações nefastas dos maus policiais e se omite em mostrar o lado humano do profissional que se dedica à segurança pública.
E foi graças à ideia da presidente do Sinpol (Sindicato dos Policiais Civis da Região de Ribeirão Preto), Maria Alzira da Silva Corrêa, que descobri não serem raros os policiais a terem atividades, no mínimo, curiosas para quem atua no combate ao crime. Conheci um policial civil que dedica-se, na sua apertada sacada de apartamento, à pintura. Mesmo tendo à sua frente uma selva de pedra, ele pinta belas paisagens da natureza, graças à sua imaginação.
Também conheci uma escrivã que se dedica à dança do ventre. Nos trabalhos manuais, foram vários exemplos. Tem policial civil que confecciona artesanato e tem uma das barracas mais concorridas na tradicional feirinha dominical, em frente à Catedral. Há também outro que tem um enorme talento para criar decorações para festas infantis. É só dar o tema que ele faz tudo conforme o gosto do cliente.
Outro caso muito interessante foi o de uma policial civil que é formada em música e é um nome respeitado no acordeão. Ela integra um famoso sexteto que anima muitas noites no coreto de uma praça próximo ao Centro de Ribeirão Preto com suas serestas repletas de chorinho.
Mais recentemente, conheci o Leão Branco, um carcereiro que é locutor de rodeios. Ele pretende decidar-se à carreira artística assim que se aposentar, mas por conta de sua paixão pelos rodeios, já gravou cds, escreveu um livro e ganhou concursos de trovas de rodeios.
E todos estes policiais se dedicam apesar das dificuldades da carreira. Talvez muitos não saibam, mas o estado mais rico do Brasil é um dos que pior remunera o profissional da segurança pública. Assim como o faz com o da saúde, da educação. E o que aprendi nestes 18 anos de atuação na área profissional é que, de fato, generalizar é um crime gravíssimo. Como costuma dizer o auxiliar de necrópsia que se tornou campeão de damas, talento brota até nas pedras, quando se busca.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A primeira vez

Quem em sã consciência poderia esquecer sua primeira vez? A minha primeira vez aconteceu quando tinha 11 anos. Foi meu pai quem me levou àquela casa maravilhosa, luxuosa, suntuosa, em um dos bairros mais nobres de São Paulo. Era um domingo e fomos de ônibus. Morávamos no Jaçanã e apanhamos o circular Jardim Brasil-Hospital das Clínicas.
Descemos na Avenida Consolação e andamos algumas quadras até chegar. Quando entramos, fiquei maravilhado com o que vi. Foi uma verdadeira aventura a minha primeira vez num estádio de futebol. Meu pai, corintiano, atendeu aos meus apelos e me levou para assistir a primeira partida, ao vivo, do meu São Paulo. O jogo foi no Pacaembu, partida contra o Juventus, clube querido por todos os paulistanos e que tem o incômodo apelido de "Moleque Travesso", por aprontar justamente sobre os grandes clubes da cidade. Era o dia 15 de dezembro de 1974 e o São Paulo ganhou por 2 a 1, num jogo inesquecível.
Já a minha primeira vez no Morumbi foi um ano e pouco depois. Foi ainda mais mágico. Era um torneio amistoso envolvendo São Paulo, Corinthians, Flamengo e Internacional, realizado nos dias 30 de janeiro e 01 de fevereiro de 1976. Foi igualmente mágico. Fiquei ainda mais espantado, pela imensidão do Morumbi, em relação ao que já achava gigantesco Pacaembu.
Choveu torrencialmente, mas não o suficiente para impedir minha vibração com a vitória do São Paulo sobre o Flamengo, nos pênaltis, após empate no tempo regulamentar. O Corinthians perdeu para o Internacional e o São Paulo sagrou-se campeão no dia seguinte, vencendo por 1 a 0 o time de Porto Alegre, mas isso só acompanhei pelo rádio.
Para quem gosta de futebol, a primeira vez num estádio é algo para se recordar vida afora. E senti que foi assim com minha esposa, quando ela conheceu o Morumbi pela primeira vez. Foi em 1986, nas semifinais do Brasileiro - que terminou somente em 1987 com o título do São Paulo. A partida foi contra o Fluminense e ficamos até os 40 do segundo tempo. Fomos de ônibus e a jornada de volta era longa. Quando saímos, estava 1 a 1. Na subida da Padre Lebret, ouvimos a torcida comemorar os outros dois gols, selando o placar em 3 a 1. Pelo menos tomamos o ônibus e viajamos sentados na volta.
Minha filha estreou em Ribeirão Preto. Era o jogo entre São Paulo e Santos, em 1997, pelo campeonato paulista. Quando entramos pelo setor da imprensa, no estádio Santa Cruz, do Botafogo, percebi que era como se ela estivesse entrando em um brinquedo de parque de diversões dos mais esperados. Ao ter visão do gramado, seus olhos cintilaram de alegria. Ela lembra desses momentos até hoje.
No Morumbi, ela estreou se não me engano em 2000, quando o São Paulo venceu o América (RN) por 3 a 2, pela Copa do Brasil.
Já meu filho foi um caso à parte. Ele sempre gostou de futebol e, mal influenciado pela avó, com apenas dois anos de vida, assistindo a um jogo entre São Paulo x Criciúma, em Ribeirão Preto, começou a entoar "timão, timão" no meio da torcida Tricolor. Mas o garoto manteve-se firme no propósito e é são-paulino apaixonado.
No Morumbi, estreou pela Libertadores de 2006, na partida contra o Estudiantes, da Argentina. Quando chegamos à entrada do setor onde iríamos assistir o jogo, havia uma vidraça de onde era possível avistar o gramado. O moleque grudou naquela vidraça, como que enfeitiçado, balbuciando: "estou no Morumbi, estou no Morumbi". Sorveu cada segundo daquela finita emoção. Já nas cadeiras, devidamente instalado, não parou um instante sequer de torcer. Não tem nada que se traduza em preço ver uma criança assistindo no estádio uma partida de futebol pela primeira vez na vida.
Eu sou apaixonado por futebol e minha esposa costuma dizer que faço como num comercial de TV, onde o casal viajava e o marido colecionava visitas a estádios. Já fui ao Centenário de Montevidéu, ao La Bombonera em Buenos Aires, a estádios em diversas cidades brasileiras, como a Vila Belmiro. Mas no Maracanã vivi outra emoção indescritível. Não assisti nenhuma partida num dos mais emblemáticos estádios do Planeta. Mas tive a primeira vez em outra de minhas paixões: a música. Assisti o primeiro show de Paul McCartney  no Brasil, o Paul in Rio. Simplesmente sublime e inesquecível a mistura de música e futebol naquela noite mágica. Mas confesse, você bem que pensou que o texto referia-se a outra primeira vez, não é?

terça-feira, 17 de abril de 2012

Aproveite e repense o seu voto

Não tem nada como um ano eleitoral atrás do outro. O repertório de escândalos, denúncias, ataques verborrágicos é crescente. Na mídia, pululam informações sobre mau uso do dinheiro público, sobre obras e planos escatológicos, enfim, não falta assunto. E o que se vê é que os nossos políticos, mal necessário, estão cada vez mais danosos, com preparo mínimo e surfando nas ondas da impunidade.
Mas são mal necessário. Nenhuma democracia se faz sem representantes do povo. Cabe, portanto, a cada eleitor definir melhor o seu voto, escolher com muito juízo o seu candidato. Nosso sistema eleitoral, não tem jeito, é caracterizado pelo voto obrigatório. Então, já que somos obrigados a votar ou justificar, nada melhor do que usar o voto como uma arma para o bem comum.
De tempos em tempos surgem movimentos populares de indignação que tomam conta do País. Foi assim na turbulenta década de 1960, quando estudantes e intelectuais desafiaram a ditadura militar para exigir democracia. Muitos tombaram, outros tantos foram presos, torturados, exilados. Voltaram e boa parte daqueles revolucionários dos anos 1960 se "adaptou" bem aos caminhos da política, do poder.
Vieram as mega passeatas pelas Diretas Já, nos anos 1980. Poucos anos mais tarde, vieram os famosos "caras pintadas", que com o rosto pintado de preto ou em verde-amarelo, exigiam a saída de Fernando Collor de Mello da presidência da República.
O gigante do movimento de reivindicação popular, legítimo instrumento do povo e para o povo, adormeceu. Na verdade, hibernou. Os anos se passaram, os políticos afiaram suas garras e o povo calou-se. Voto de protesto acabou sintetizado em palhaços como Tiririca (no sentido literal da palavra, afinal palhaço é sua profissão).
Mas a coisa começa a mudar. Em vários pontos do Brasil, grupos começam a se mobilizar. Com a grande vantagem de contar com a Internet como aliada na difusão de ideias, de denúncias, de queixas e opiniões. Em Ribeirão Preto, por exemplo, tradicional cidade do interior paulista, desde que os vereadores anunciaram aumentos na ordem de 39% para a próxima legislatura, além de contarem com mais sete cadeiras, a população resolveu dar um basta.
Primeiro foi o movimento "20 Vereadores Bastam para Ribeirão Preto". Na tentativa de reverter a decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a população tem se mobilizado para conseguir o número de assinaturas suficientes para conter o projeto que autoriza o aumento de 20 para 27 cadeiras na edilidade ribeirãopretana.
Agora, após o generoso aumento proposto pelos edis para eles próprios na próxima legislatura, o movimento cresceu e os panelaços na Câmara Municipal se tornaram frequentes. Até no último sábado quando, confesso, voltava após ter degustado um dos pratos concorrentes da "Comida de Boteco" - que ocorre em várias cidades brasileiras -, deparei com dezenas, talvez centenas de participantes protestando contra o aumento dos vereadores. A hora é agora. Muitos estão propondo não votar em quem já está lá. É algo para se pensar, afinal, apenas se atendo em Ribeirão Preto, quando aqui cheguei em 1988, alguns dos atuais vereadores já eram vereadores naquela época. Talvez uma mudança seja salutar. De qualquer forma, é preciso votar com consciência. Aproveite as eleições de outubro e pense bem em quem votar. Seu voto pode, sim, fazer a diferença.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Campanha Renovem a ISO 9000

Conversando com minha esposa, dia desses, discutíamos a péssima qualidade de atendimento ao público nos diversos locais que somos obrigados a frequentar cotidianamente, como supermercados, padarias, bancos e outros estabelecimentos. Ambos concordamos que a situação no atendimento ao cliente é cada vez mais precária, assunto inclusive já abordado anteriormente neste Blog do Adal.
Foi quando minha esposa lembrou uma situação que, decididamente, foi divisor de águas na forma de atendimento. Antes desse acontecimento, o atendimento era uniforme, todos procuravam atender da melhor maneira possível ao cliente. Lembro que cheguei a trabalhar numa papelaria, em 1980, se não me engano, e a ordem era sempre atender ao cliente com educação e cordialidade. Se não fizesse dessa forma, não "esquentaria cadeira" por muito tempo. E todos fazíamos, da melhor forma possível. Nos meus tempos de bancário, a situação era a mesma: o cliente sempre tinha razão.
Até que começaram a surgir as primeiras notícias na certificação de qualidade, que as empresas passariam a buscar, como forma de idoneidade no atendimento ao cliente. Chamada ISO 9000 - com variantes para outros setores da economia -, a novidade passou a ser disputada por grande e médias empresas e cobiçada até por pelas.
Surgiram os consultores em larga escala. Qualquer um que tinha boa aparência e uma certa capacidade de liderança, tornava-se consultor para a ISO 9000. Afinal, gestão de qualidade era uma importante arma para detonar a concorrência. E a forma de atendimento na maioria das empresas mudou. Se antes procurávamos atender e buscávamos ser atendidos, da melhor maneira possível, essa situação tornou-se condição. Os funcionários eram obrigados a bem atender. E acabavam gerando situações hoje hilárias. Houve o caso, num hipermercado de origem francesa, em que estava em dúvida no preço de um produto e surgiram nada menos que três funcionários para me atender. Todos com textos gentis decorados para impressionar o cliente. Era o que valia.
O tempo passou, começou com uma ISO 9000 aqui, outra ali, até que grande parte das empresas já ostentava, orgulhosa, seu certificado de qualidade total. Foi quando a mudança abrupta ocorreu. Se na época da busca pela certificação muitas empresas até inflavam seus quadros de funcionários, após a certificação a situação mudou. Como mudou o interesse da mão-de-obra que trabalha com o público em geral.
Hoje os atendentes sequer se esforçam para serem simpáticos com o cliente. Há o caso de uma grande rede de lojas de bricolagens e materiais de construção, onde os vendedores, ao verem os clientes chegando, se escondem no estoque. Ganham independente de atenderem ou não ao cliente. Então, se é assim, não há porque se esforçar.
Há algumas semanas tentei comprar um jogo de mesas e cadeiras para área externa no tal hipermercado de origem francesa. Para conseguir algum funcionário do setor, tive que ir ao balcão, na entrada da loja, pedir para anunciar. Veio o gerente de outro setor e expliquei o que queria. Ele entrou em contato, via rádio, e veio um sonolento funcionário me atender. Não tinha o número de cadeiras que eu necessitava. Pedi para que tentasse em outra loja. Demorou uns 15 minutos e disse que não tinha. Fui até a outra loja e todas as cadeiras estavam lá, mas não tinha mesa. Enfim, se quer, faça você mesmo.
E a coisa está complicada em muitas outras lojas e estabelecimentos. Banco é a mesma coisa. Atendimento telefônico, só para insanos. É por isso que estou pensando em lançar uma campanha para revogar todos os certificados de ISO 9000 e começar tudo de novo, do zero. Para que se preocupem em bem atender ao cliente. Pela renovação da ISO 9000 já!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Já fui muito rico e não sabia

Tive várias propriedades de frente para o mar. Já morei "pé na areia" em Riviera de São Lourenço. Morei também na Prainha Branca, ao lado da Praia de Pernambuco, no Guarujá. Já morei em tanta praia que nem me lembro mais. Na verdade, o meu morar se resumia a um bom pedaço de lona, com algumas armações de alumínio: minha fiel barraca de camping.
Foi com uma mochila e uma barraca nas costas que conheci boa parte do litoral paulista, principalmente do Guarujá até Ubatuba, quase na divisa com o estado do Rio de Janeiro. Acampar era o sonho da minha geração e quem teve coragem, conseguiu realizá-lo.
Na Riviera de São Lourenço - que ainda não tinha o Riviera no nome - era tudo uma grande aventura. Para chegar até lá, tomávamos o trem no Brás até Mogi das Cruzes. Descíamos na última estação e seguíamos com mochilas, barracas e provisões, até a Rodoviária de Mogi das Cruzes, distante mais ou menos três quilômetros. Quando o dinheiro dava, fazíamos um rateio e um de nós seguia de táxi, levando todas as tralhas, enquanto o resto seguia a pé até a rodoviária. Apanhávamos o ônibus para Bertioga e descíamos antes do final, na praia do Indaiá.  Caminhávamos cerca de seis quilômetros até chegar a São Lourenço. Lembro que numa das últimas vezes que acampamos lá, já tinha a placa do loteamento Riviera de São Lourenço, mas não imaginava que ali seria um reduto tão caro.
Era tudo uma farra só. Como naqueles tempos não contávamos com internet para boas pesquisas, o que valia eram informações privilegiadas. Nesse caso, tínhamos as melhores informações. Afinal, dois dos integrantes de nossa turma tinham irmãos mais velhos, já em cursinho pré-vestibular ou em faculdade. O Hélcio recebia as dicas do irmão dele, o Hércules, hoje jornalista-diagramador da Folha. O Sílvio se informava com sua irmã, a Sueli, que já cursava Educação Física. E as dicas eram ótimas.
Foi graças ao Hércules e à Sueli que acampamos na Prainha Brava, hoje reduto de condomínios fechados, no Guarujá. Também com suas dicas conhecemos as praias de Toque-toque Grande e Pequeno, em São Sebastião. A turma acampou em praias ainda hoje selvagens, como Puruba, em Ubatuba.
Mas nosso roteiro de aventura não se limitava apenas às praias do litoral norte, não. Valia de tudo. Santos, São Vicente, Praia Grande. Aliás, em Praia Grande a coisa era um luxo só. O Hélcio tinha um primo meio "rico". Os tios do Hélcio tinham uma kitinete (quarto, cozinha e banheiro) na Praia Grande, e ali a turma se instalava em acomodações muito melhores do que a barraca.
Acampamos também numa casa em construção, em Itanhaém. Conheci todo o litoral paulista assim, com barraca ou em instalações simples, para não dizer duvidosas. A melhor de todas sempre foi mesmo a kit do primo do Hélcio.
Numa das viagens, seguimos com minha Brasília velha para o litoral norte. Foi uma viagem do tipo "Férias Frustradas" - filme com Chevy Chase e Beverly D'Angelo na década de 1980. Foi no carnaval de 1984. Em seis na Brasília, com barracas, mochilas e mantimentos devidamente alojados em cima do motor. Fomos até São José dos Campos, com o objetivo de descer até Caraguatatuba. Chegamos lá pela Dutra - a Ayrton Senna ainda estava em construção - e a estrada que liga São José dos Campos a Caraguá estava interditada, por conta de um acidente. Ficamos umas seis horas parados, jogando baralho, esperando liberar o trânsito. Quando liberaram, era por volta de 5h00. Chegamos em Caraguatatuba com o dia amanhecendo.
Fomos até Bertioga parando de tempos em tempos, conhecendo as praias, numa Rio-Santos sem asfalto em grande parte do percurso. Mas nos instalamos mesmo no nosso ponto preferido: São Lourenço. Foram dois dias até lá. Mas quando chegamos, senti que estava em minha casa. Também já fizemos loucuras em outras praias, de outros estados. Certa vez fomos acampar na Ilha do Mel de avião. Quando voar era muito caro, financiando tudo em "módicas" prestações. Fomos em 42 pessoas. O ET (Eduardo Theodoro) foi quem organizou o aluguel de um ônibus do aeroporto de Curitiba até Pontal do Sul, onde embarca-se para a Ilha do Mel. Na volta, nas esteiras do Aeroporto Internacional de Guarulhos, havia malas de luxo dividindo espaço com mochilas, barracas, lampiões e outros apetrechos de camping. Sempre o selvagem, que era o melhor.
Dizem que o importante é acumular lembranças, pois essa é a riqueza que se tem na fase mais adiantada da vida. Se for assim, pelas lembranças que tenho principalmente dos anos 1980, terei uma velhice milionária.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Aventura no centro velho

Andar pelas ruas do centro velho de São Paulo nunca deixou de ser uma aventura, mesmo nos dias atuais, apesar de muitas das grandes empresas que lá estiveram instaladas terem se mudado para os novos centros, como Avenida Paulista, Avenida Faria Lima e, mais recentemente, Barueri, deixando o centro menos movimentado que em sua áurea fase. Nos meus tempos de escola, não foram poucas as vezes que marcávamos para fazer pesquisas na Biblioteca Mário de Andrade, localizada no cruzamento da Avenida São Luiz com a Rua Xavier de Toledo.
Era um prédio imponente, majestoso. Ao chegar, deixava parte do material escolar no guarda-volumes e ia até a bibliotecária para solicitar os livros que precisava. Torcia para que fossem nos andares mais altos. Demorava um pouco, mas era muito interessante ver o livro descendo nos pequenos elevadores do prédio.
Depois da pesquisa, nada como dar um pulo no Mappim, na Praça Ramos, para um lanche. Subia até a lanchonete no terceiro andar do prédio. Lembro que uma vez um daqueles velhos elevadores despencou do segundo andar comigo e outras pessoas à bordo. Fiquei uns dois dias com dor de cabeça por conta da aventura. Além disso, tivemos que sair usando uma escada improvisada pela brigada de incêndio do Mappim.
Em frente ao Mappim, até hoje triunfa belo e imponente o Teatro Municipal. Aquele lugar é um sonho. Fui poucas vezes. Na maioria delas - talvez em todas elas - por conta das apresentações de meu tio Edmilson, que tocava na Sinfônica Municipal.
Para ir ao Morumbi assistir futebol, vinha de Metrô até a estação São Bento. Lá, descia e seguia para o Vale do Anhangabaú, onde dezenas de ônibus da antiga CMTC (Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos) levavam os torcedores ao estádio. Também era na estação São Bento onde descia quando o assunto era coleção. Em frente à estação havia a agência central dos Correios. Lá era possível comprar selos raríssimos, tanto no setor de filatelia da agência, como nas bancas de revista localizadas em seu entorno. E era meu endereço preferido quando, acompanhando pelo jornal, descobria que teria lançamento de mais um selo. Comprar um selo com o carimbo de primeiro dia de circulação valorizava o objeto de coleção. Além de selo, as bancas vendiam outros tipos de coleções, como gibis, tampinhas de garrafa, caixa de fósforo e outras esquisitices.
Para lanchar, em frente ao Correio, havia um lugar não muito recomendável por sua péssima aparência, mas com pastéis deliciosos e um geladíssimo caldo de cana. Se o dinheiro não desse para tanto, o ideal era improvisar com "churrasco grego" e suco nas imediações.
Quem gostava de corrida de cavalo mas não tinha tanto dinheiro para frequentar o "jet set" no Jockey Club, podia fazer suas apostas numa loja localizada na esquina da Ladeira Porto Seguro com Rua Boa Vista. Já quem queria comprar joias, bastava ir nas diversas lojas instaladas nas ruas próximas à Praça da Sé.
Almoçar no centro velho de São Paulo também era algo bastante divertido. E opções não faltavam. De um lado do Viaduto do Chá, os restaurantes mais refinados, com pratos preparados de acordo com um cardápio fixo semanal. Segunda era dia de virado à paulista, por exemplo. Toda quarta-feira havia feijoada. De quinta-feira o prato do dia era o peixe à milanesa. Havia, é claro, outras opções. Um dos tradicionais restaurantes, frequentados pelos bancários em horário de almoço era o famoso "Sem Dez", porque não cobravam os 10% do garçom.
Do outro lado do viaduto do Chá, no sentido da Praça da República, a opção era comer nos PFs (Pratos Feitos) instalados nas diversas galerias das ruas 24 de Maio e 7 de Abril, principalmente nos arredores da sede dos Diários Associados, um imponente edifício onde Assis Chateaubriand solidificou seu império das comunicações até meados dos anos 1960.
Se sobrasse tempo, após o almoço, o passeio preferido era subir no Edifício Itália até seu terraço. Os mais abastados levavam a namorada para jantar nas alturas. Mas quem não tinha dinheiro pagava apenas para ver São Paulo do alto no mirante. Muitos optavam por tomar um café no térreo do Edifício Copan, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e que fica ao lado do Itália.
Cinema em shopping nem pensar. O primeiro shopping brasileiro, o Iguatemi, ficava longe do centro velho. E cinemas bons eram os de rua. Tinha o Metro (sem acento circunflexo), com três salas na Avenida São João, o Paissandu, no Largo do Paissandu, o Cine Regina, também na São João, o Marabá e o Ipiranga, na avenida do mesmo nome. Mas o que mais gostava era mesmo o Comodoro. Em frente ao Comodoro tinha um moderninho, chamado Cine Espacial. A sala era redonda, com três telas que projetavam a película de forma simultânea. Mas era no Comodoro que projetavam os filmes do momento.
O centro velho pode ter perdido grande parte do seu glamour, mas não perde seu charme. Entre diversos projetos para sua revitalização, os paulistanos ainda vêem situações de quem agoniza, mas não se entrega. E a contar pela tradição do local, onde até hoje está instalado o marco de sua fundação - o Pátio do Colégio - não vai entregar os pontos jamais. Centro é centro e São Paulo nunca vai conseguir esquecer o seu centro. Nem eu.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

União Marabá, a cidadania através do futebol

Que o futebol é a esperança de uma vida melhor para muitas pessoas, quase todos sabem. Mas que uma simples ação social pode ajudar e dar, através do esporte uma condição melhor de vida nem todos sabem. E foi através da vontade de integrar a sociedade que uma conversa de pai e filho, num domingo de céu encoberto no outono de Guarulhos deu origem, há 21 anos, ao União Marabá.
Formado em contabilidade e torcedor fanático do Corinthians - ninguém é perfeito, meu amigo... -, Eduardo Theodoro conversava com seu pai, Laul Theodoro, no portão de casa, sobre a falta de opções de lazer das crianças que moravam no Parque Marabá. Eles assistiam a uma das muitas peladas de rua realizadas no bairro, que não dispunha de centros esportivos e de recreação para a população menos abastada que era maioria naquela região.
E foi entre dribles com uma velha bola de "capotão" faltando alguns gomos de couro e gols na improvisada marcação com pedras colocadas, uma de cada lado, onde surgiam imaginárias traves e travessões, é que os dois tiveram a feliz ideia de alugar um local para entreter a garotada através da prática de futebol.
Com recursos próprios, os dois bancaram alguns aluguéis de uma quadra de esportes, localizada no bairro vizinho da Vila Galvão. Para muitos garotos, aquela era a única opção de lazer seguro que tinham, afinal, jogar futebol na rua era sempre um risco, sem dizer que o jogo era interrompido a cada carro que passava pelo local.
Em pouco tempo, mais de 50 crianças frequentavam os treinos do União Marabá. A falta de recursos fez com que pai e filho mudassem o projeto de local, passando a atuar no CSU (Centro Social Urbano Jairo Furini), anexo à favela São Rafael, na Vila Galvão. Foram tempos difíceis, em que a dedicação dos dois foi o primeiro passo para agregar mais pessoas no projeto. Compravam tudo do próprio bolso: bolas, camisas, locação de área. E o União Marabá foi ganhando forma e novos colaboradores.
Como costuma dizer Eduardo, "numa região de baixo desenvolvimento social, 'jogar futebol' era, muitas vezes, a única opção de diversão para as crianças que passaram a frequentar as aulas do União Marabá". A essa altura, chegavam mais pessoas para compor o projeto e ajudá-lo a se desenvolver.
Neste período, engajaram-se à associação, pessoas ligadas à igreja católica, e as colaborações foram importantíssimas. Padre Lazinho, Padre  Jair Benedito - à época ainda seminarista -e Luisa Brunelli, coordenadora da catequese, foram os responsáveis em iniciar os trabalhos sociais. "Wagner Pereira Neto, Weber Machado (Fofo), Bispo, Betânia, Coelho, Rubinho, Angélica Baggio, Manoel Félix, Raimunda Félix, Claudinha, Dona Maria, são igualmente nomes que não poderiam deixar de serem citados", acrescenta Eduardo.
Crianças de várias partes, principalmente da favela localizada ao lado de onde passou a funcionar o União Marabá, passaram a frequentar o local. E Laul Theodoro, falecido há alguns anos, já mostrava que seu faro era inigualável, garimpando possíveis talentos, não só dentro das quatro linhas, mas para trabalhar com o esporte. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o garoto Cícero Silva Pastoura. Naquela época, Cícero era morador da Favela São Rafael e "seu" Laul insistiu em trabalhar com ele. Hoje tornou-se técnico de um time na região e cria grandes oportunidades para os garotos formados na base do União Marabá.
"O trabalho cresceu e passou a marcar presença em Guarulhos, configurando-se numa das únicas associações com foco exclusivamente social", lembra Eduardo. Centenas, talvez milhares de garotos já passaram pelo União Marabá e, certamente, a ideia de aliar o esporte a um auxílio na formação do caráter do cidadão, da importância em se conquistar a cidadania, foi uma semente que germinou. Desde 2009, o União Marabá conta com uma escola de futebol de campo. Quem tem condições, paga e ajuda a custear as aulas daqueles que não têm condições. Respeitado, o grupo do União Marabá é constantemente convidado a participar de peneiras de grandes clubes e já revelou alguns talentos dos gramados. Também encaminhou muita gente para trabalhar com o esporte.
E o Ministério do Esporte dedica milhões a projetos que vem sendo questionados, como a escola de pilotos  de automobilismo do narrador Galvão Bueno ou para a carreira no exterior do piloto e neto do bi-campeão mundial Emerson Fittipaldi, apenas para ficar em dois exemplos, enquanto projetos de cunho realmente social ficam à margem das verbas públicas.
Parece que foi ontem. Aquele 7 de abril de 1991 tinha tudo para ser apenas mais um monótono domingo. Mas a conversa do pai Laul e do filho Eduardo, que tinha tudo para acabar à mesa, durante o tradicional frango com polenta, mudou a vida de muita gente. Parabéns ao União Marabá, pelos 21 anos de ação social e esportiva.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Profissão: extinta

Imagine uma pessoa preenchendo uma ficha qualquer e quando chega no item profissão, coloca: operador de teletipo. Esquisito? Inimaginável? Puxando pela memória, muitos logo vão se lembrar de uma ou duas profissões ou ocupações que foram extintas. Principalmente se quem estiver tentando a lembrança tiver mais de 30 anos. E quando nominamos aqui algumas das profissões que foram extintas, muita gente vai se surpreender com as mudanças do mundo, do século passado para o atual.
Lembro que eu tinha mais ou menos 12 anos e adorava jogar bola no campinho, próximo de casa, no Jaçanã - aquele bairro de São Paulo imortalizado pelo trem de Adoniram Barbosa. Pois no campinho, tinha uma senhora que quase sempre saia com a vassoura em mãos atrás da molecada. Dona Sebastiana era uma lavadeira. Já existiam lavanderias, mas ela ainda era do tempo em que passava nas casas das "freguesas" para apanhar as trouxas de roupa para lavar. Ela estendia nos varais que ficavam próximos ao campinho. Uma bola mal chutada e a coitada tinha que refazer o serviço. Não faltavam reclamações, inclusive para minha mãe, uma das "freguesas" da dona Sebastiana.
Assim como quase não existem mais lavadeiras - ou as que existem trabalham em esquema quase comercial -, outras profissões ou ocupações deixaram de existir. Uma delas é o técnico de máquina de escrever. Sempre que havia algum problema como quebrar uma tecla ou mesmo cair a letra que seria impressa, ou o carro da máquina travar, lá vinha a figura do técnico, com seu fiel tubinho de óleo para engrenagens, dar um jeito na situação.
Ele aproveitava até para trocar a fita da máquina. Como andam os que, naqueles tempos, fabricavam fita para máquina de escrever ou calcular?  O que dizer, então, do datilógrafo? Lembro que era um cargo almejado por muitos em início de carreira. Era preciso ter uma certa velocidade, de pelo menos 100 caracteres por minuto. Teste de datilografia era eliminatório em muitas entrevistas de emprego. E a maioria das pessoas tinha diploma de datilografia.
Outras carreiras curiosas também se tornaram raras. Na minha época, as matinês do Cine Valparaíso, no bairro do Tucuruvi, próximo a Santana, eram concorridas. E lá tinha um profissional muito talentoso, que atraia os cinéfilos. Era o cartazista, ou pintor de cartazes e letreiros de filmes. Hoje não tem mais como imaginar alguém trabalhando em cinemas de shoppings nessa função. Já vem tudo impresso. Mas antes eles ampliavam as fotografias dos filmes em cartazes desenhados para chamar mais público.
Certa vez, andei pelos lados da Praça das Bandeiras, próximo ao Edifício Joelma, aquele que pegou fogo em 1974, matando mais de uma centena de pessoas. Naquela região, próximo onde funciona a Câmara Municipal de São Paulo, havia uma grande concentração de pintores de cartazes. Daqueles que pintavam um cartaz, por exemplo, de um determinado comércio. Eu era "office-boy", profissão que também não é mais tão comum, e procurava um pintor para fazer uma faixa indicando mudança de endereço do escritório de meu patrão advogado.
Já morando em Ribeirão Preto, lembro que precisamos fazer um jornal com um anúncio do governo do Estado. Só que o anúncio requisitava clichê da foto. Rodei bastante até achar quem fizesse clichê de fotografia para impressão. Outro cargo que não existe mais hoje em dia. Assim como linotipista - carreira que meu pai exerceu por muitos anos na gráfica da Polícia Militar -, gravador de chapas fotográficas ou outras carreiras afins na área gráfica.
Lembro também de uma exótica e, porque não dizer, nojenta função. Em grande parte das igrejas, na hora da homilia - também conhecido por sermão -, havia concentração de homens fumando às portas do templo, enquanto o padre falava, basicamente, para as mulheres e crianças. Para ajudar os fumantes, havia um objeto muito usado, a escarradeira. Aliás, em uma cena do terceiro filme da trilogia De Volta Para o Futuro, a escarradeira é o objeto que dá início a um duelo ocorrido no final da película. Pois tinha também limpador de escarradeira, um profissional que, a exemplo do jardineiro, se apresentava para oferecer seus préstimos aos locais onde havia tal objeto instalado.
Quando trabalhava na TV Ribeirão, muita notícia chegava via telex. Para que isso ocorresse, havia o operador de telex, cargo indispensável para agilizar informações vindas de longe. Muita gente deve estar se lembrando de outras carreiras extintas. Fala-se muito em carreiras de futuro, mas nunca é demais lembrar de algumas que ficaram no passado, mesmo que por conta de curiosidades ou simples diversão. Afinal, muita gente se manteve trabalhando com algo que hoje não existe e que há quem sequer imagina que existiu um dia.

Acrescentando o link da Fani:

  1. E obrigado, mais uma vez, Fani, por dicas interessantes. 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Fé inabalável

Os católicos costumam definir sua principal data comemorativa, a Páscoa, como a renovação da fé. Pela primeira vez como "católico", participei de todas as atividades do chamado tríduo de Páscoa. E deparei com dois exemplos de fé que simplesmente me deixaram surpreso com a força que essas pessoas se engajam, mesmo diante de tantas adversidades.
Confesso que quando perdi minha mãe, em 2001, com apenas 59 anos de vida, de uma forma abrupta, cheguei a ficar revoltado com Deus. Isso certamente aconteceu porque minha fé não era inabalável ou verdadeira. Mas os exemplos que vi recentemente me levaram a entender o que é esse tipo de fé.
Ele é comerciante e tinha uma vida tranquila. Participava, com a esposa, de várias pastorais da igreja. Uma delas era a pastoral do ECC (Encontro de Casais com Cristo). Participaram da equipe de canto quando fiz o encontro. Uma animação só. Um casal sempre ligado, unido e feliz.
Tempos atrás, foram vítimas de dois assaltos, praticamente consecutivos. Em ambos, tiveram a casa invadida pelos assaltantes. Em ambos os casos, sofreram com a atitude extremamente violenta dos criminosos. Isso fez com que ela tivesse problemas psiquiátricos. Entrou em depressão profunda e já há quase dois anos é praticamente um zumbi. Anda, olha, come, vive como se tudo fosse a mesma coisa. Não é possível distinguir qualquer emoção ou sentimento em seu rosto. Apenas o olhar totalmente absorto.
Mas ele não a deixa em nenhum momento. Faz o que pode e o que não pode para cuidar dela. Afinal, são para mais de 30 anos de casados.
E mesmo enfrentando tamanha tragédia pessoal, ele não deixou abalar sua fé. Continua participando da igreja. Talvez não mais em tantas pastorais quanto antes, mas ainda sim, segue engajado. Aos domingos participa da equipe de canto de uma das missas e, quase sempre, é quem entoa o salmo. Diz que a vida não é fácil, mas aceita e continua firme em sua fé.
Ela tem o que para muitos é considerada a família ideal. Casada com um advogado renomado, foi mãe duas vezes. Dois varões, que seguiram os passos jurídicos do pai e foram além. Um é promotor e outro um renomado juiz. Há cerca de quatro anos, ela que é catequista há mais de uma década, enfrentou um câncer no seio. Fez a mastectomia e, a princípio, tudo corria bem. Eliminou o tumor na mama e lutava para não haver recidiva. Voltou a dar aula na catequese e seguiu participando de outras atividades na comunidade religiosa.
Mas seu temor se confirmou há cerca de um mês, quando descobriu que houve recidiva, desta vez na outra mama.
Vai fazer nova mastectomia e, novamente, sem a certeza de que vai eliminar o tumor. Tudo isso é um processo muito lento, sofrível para a pessoa e para a família. Mas não se abalou como muitos e seguiu firme em sua fé. Durante as solenidades da Semana Santa, numa das missas, no momento das intenções do ofertório, pegou o microfone e fez sua prece pessoal. Primeiro agradeceu à família que tem e aos cuidados deles a ela dispensados. Depois agradeceu a comunidade. Mas agradeceu sobretudo a Deus por dar-lhe força interior para lutar nesse momento tão duro. E pediu para que orassem por ela nesse instante delicado em que se encontra. Fará a mastectomia amanhã. E não sentiu abalar sua fé. Ao contrário. Continua firme em suas orações. Esses são apenas dois entre tantos exemplos da força na fé.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O canudo do Moacir

Conheci Moacir há uns 12 anos. Típico retirante nordestino. Veio tentar a sorte na cidade grande, trazendo com ele mulher, dois filhos e pouquíssimos pertences. Instalou-se em Itaquera, zona leste de São Paulo. Pouco estudo, mas muita vontade de aprender. Fez de tudo um pouco na maior cidade da América do Sul. "Só não pedi, nem roubei", orgulha-se em dizer.
Quando o conheci, ele tinha uma pequena portinha comercial, uma coisa indefinida, meio bombonière, meio boteco. Praticamente recebia seus clientes na calçada. Durante o dia, na semana, a clientela era composta de alunos que iam ou vinham da escola estadual que ficava a poucos metros e dos assíduos admiradores da "marvada pinga". Aos finais de semana os moradores dos prédios próximos lá se encontravam para tomar cerveja, pinga e comer os pitorescos acepipes: salsicha em conserva, ovo de codorna em conserva, picles em conserva, tudo em conserva.
Foi meu sogro quem apresentou o Moacir. Ele me disse que naquela portinhola vendia a cerveja que eu gostava na época, a Original. Fomos lá, com meia dúzia de garrafas e ele me apresentou o comerciante. "Prazer, Móaci", disse com seu sotaque. Logo vi que o Moacir era um sujeito de conversa fácil. Meu sogro disse que eu era jornalista e que havia me mudado de Itaquera para Ribeirão Preto.
Foi o que bastou. Toda vez que ia lá comprar Original, ele me apresentava aos seus clientes; "Esse aqui é meu amigo jornalista de Ribeirão. Saiu desse fim de mundo e foi ganhar o interior, lá na nossa Califórnia", dizia. Nem ele sabia me dizer como ficou conhecendo o termo Califórnia Brasileira, atribuído a Ribeirão Preto por conta de seu desenvolvimento econômico, principalmente a partir dos anos 1980.
Certa vez cheguei lá com as garrafas e o Moa me contou que tinha voltado a estudar. "Vou terminar o ginásio e fazer colégio, tudo de uma vez só, no supletivo", disse orgulhoso. E tome conversa. Moacir sempre se orgulhava em afirmar que sua clientela era selecionada. "Aqui não tem nóia, meu amigo jornalista", dizia referindo-se aos viciados em droga.
De fato, lá conheci muita gente interessante. Tinha um motorista de um grande industrial da região do ABC, na Grande São Paulo, que viajou com o patrão pelo mundo. E tinha fotos para mostrar onde estivera. Conheci também um senhor que já havia sido topógrafo. "Medi muita terra por esse Brasil afora", orgulhava-se.
Tempos depois, cheguei ao boteco do Moa. "Tenho aqui sua Original, meu amigo jornalista". Foi quando disse que estava enjoado daquela cerveja, que a "bola da vez" era a Heineken. "Pois tenho dessa" e foi logo me servindo um copo. Eu sempre tomava uma no balcão, antes de levar as outras garrafas para o almoço de domingo na casa de minha sogra. Naquele dia, Moa pagou duas para comemorar. "Sabe o que é, amigo? Passei na faculdade, vô sê doutô, tô fazendo direito", disse com os olhos radiantes. Fizeram um brinde coletivo para a conquista do Moacir. Àquela altura, ele sempre me perguntava que livro ler. Pegou gosto pela coisa. Claro, citei algumas obras de jornalismo que sempre gostei. Ele adorou, por exemplo, a biografia "Chatô, o rei do Brasil", de Fernando Morais.
O tempo passou, cheguei na minha sogra, apanhei as garrafas e fui comprar cerveja. Mas o Moa não estava mais lá. Não pensem que ele morreu. O homem trabalhou tanto no boteco dele que acabou ajuntando dinheiro, comprou um ponto maior e montou um bar com mais aspecto de bar do que de bombonière. "Isso tudo é meu, de papel passado", disse-me. Então não me contive e perguntei se foi como advogado. "Que nada, meu amigo. Fiz a faculdade, peguei o canudo. Mas minha vida é isso aqui. Foi com isso que sustentei e sustento minha casa, que eduquei meus filhos. Minha filha também vai ser doutora. Mas dinheiro eu gosto é de ganhar aqui, trabalhando de domingo a domingo, sem folga, cercado de amigos". Moacir até ajuda como voluntário em um centro social de Itaquera, que atende pessoas carentes prestando consultoria jurídica. Então me perguntou: "Vai de Heineken, jornalista?". Resolvi driblar meu amigo: "Mudei, Moa. Agora só bebo Budweiser". E não é que ele tinha? Esse é o doutor Moa.

Dedico esse artigo ao meu maior amigo, Jesus Cristo. Ele foi imolado em nosso lugar. Dedique a ele um pouco de seu tempo e oração! Ótimo feriado e Feliz Páscoa!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Mudança de hábitos

A crise econômica que afetou o planeta e, em especial os Estados Unidos, é mais facilmente sentida quando se chega por lá. Antes de desembarcar na Flórida, procurei me cercar de todas as garantias possíveis para, além da barreira da língua, não esbarrar em outras barreiras desagradáveis, como discriminação por exemplo. Ouvi muitos relatos onde brasileiros, décadas atrás, eram muito mal tratados, inclusive em Miami e Orlando, locais repletos de latino americanos vivendo legal ou ilegalmente por lá.
Tão logo desembarquei no Miami International Airport, notei que a coisa não era mais bem daquele jeito, como já davam a entender os relatos de quem foi para lá mais recentemente. Aliás, a cordialidade já começou no próprio consulado dos Estados Unidos, quando fui bem atendido por funcionários na maratona para obter o visto de turista.
Mas chegando ao aeroporto, me surpreendi. Guardas educados procuravam organizar as filas dos turistas que não viam a hora de ter em seus passaportes o tão esperado carimbo de ingresso ao País. Na imigração, o oficial faz poucas perguntas em inglês, pacientemente. Ao ver que éramos brasileiros, já tentou um espanhol para facilitar. Em poucos minutos, fomos aceitos nos Estados Unidos.
Mesma condição encontramos após retirar as malas das esteiras e ao pedir informações. Na locadora de automóveis, também não houve problemas. Ligamos o GPS e fomos rumo a Orlando, nosso destino final. Uma bela rodovia nos levou até a capital dos parques temáticos. No caminho, paradas obrigatórias para comprar café, afinal, viajar em classe econômica não é fácil e o sono bateu na viagem até Orlando. Nas lojas de conveniência, todos se esforçaram para entender meu "inglês sem sotaques".
Durante toda a minha estada por lá, tive pouquíssimos problemas. E fiz muitas constatações. A principal é que a crise realmente afetou a vida dos cidadãos estadunidenses. Nos parques temáticos, principalmente os da Disney, observei que é grande o número de idosos trabalhando. Enquanto os jovens desempenham a chamada linha de frente, estando sempre à disposição dos turistas, os idosos - muitos com mais de 75 anos - trabalhavam em setores de retaguarda. E setores exaustivos. Vi muitos idosos trabalhando em banheiros. Um deles, recolhendo o lixo acumulado, e empurrando um carrinho lotado de sacos de lixo. Não me contive e perguntei-lhe a idade. Tinha 78 anos e trabalhava seis horas diárias no parque. A crise o fez ter que complementar sua renda.
Também observei que muitas lojas, restaurantes, hotéis e os próprios parques investiram nos povos "da vez". Empregos para brasileiros, chineses, indianos e mexicanos - latinos em geral - estão em alta por lá. Tudo porque essa casta, antes proscrita e hoje adorada pelos cidadãos dos Estados Unidos, é quem está levando rios de dinheiro para ajudar na economia em crise daquele País. Sim, definitivamente invadimos a terra do Tio Sam. Os brasileiros dividem espaço com chineses, indianos e mexicanos. E com árabes. O mais curioso é que os árabes iam aos shoppings comprar, acompanhados de suas mulheres trajando burcas e carregando todo o tipo de sacolas para os maridos.
Mas trabalhar lá já não é mais conquistar a América, como se diziam antes. Falei com vários brasileiros que por lá trabalham. Num dos vários restaurantes brasileiros para brasileiros, em Orlando, conversei com o garçom e com a garçonete. Ambos estão por lá há alguns anos, mas não vêem a hora de voltar para o Brasil. Dizem que ficou difícil viver por lá trabalhando, que não há mais poder de compra no dólar e querem voltar para suas regiões. Ele, do interior de Santa Catarina e a mulher de Maceió.
Também em uma loja de brasileiros especializada em vender ingressos para parques em Orlando, ouvi um relato do atendente. Ele comenta que trabalhar com brasileiros é bom e ele vê o quanto cresceu o poder de compra em nosso País. Por conta disso, já pensa em fazer o caminho de volta. Está trabalhando com ingressos há pelo menos seis anos, só em Orlando. Mas conta que está difícil viver por lá. Não sei se a lição irá servir para os estadunidenses, mas, caso não sirva, que estendam-nos o tapete vermelho enquanto a crise durar - e o Brasil ainda puder comprar.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Cotas para a classe média

Quando comecei a estudar, em 1970, escola pública ainda era conceituada, apesar de estar apresentando um pequeno declínio em sua qualidade. No final da década de 1970, a situação já era outra e na década seguinte complicou-se de vez. Mesmo assim, tive a felicidade de estudar em boas escolas públicas, como a grande maioria o fazia. Naquele tempo, escola particular era só para quem foi expulso de escola pública ou não tinha condições de acompanhar o ensinamento.
Os tempos mudaram e quem, como eu, estudou naquela época, faz o possível e o impossível para manter os filhos em escolas particulares, vislumbrando um futuro melhor para a nova geração. A classe média se esforça, fechando meses e meses no vermelho, para proporcionar aos filhos um ensino de qualidade. Afinal, não dá para confiar na qualidade do ensino oferecido pelo governo, assim como não dá para confiar na saúde pública. Por essa razão, convênio médico e escola particular têm peso enorme no orçamento das famílias de classe média.
Em mais uma atitude populista, o governo Lula estabeleceu as chamadas "cotas sociais", que só crescem ano após ano em detrimento da classe média. Sim, pois os ricos e as classes menos abastadas não são atingidas pela enorme carga tributária à qual a classe média é submetida para financiar o "assistencialismo" iniciado no governo Lula, com bolsa isso, bolsa aquilo. É a classe média quem paga a conta.
Mas isso é outro assunto. A questão é que as cotas são usadas politicamente. É bem verdade que surgem alguns - pouquíssimos - exemplos de eficiência. Pior, dando a falsa impressão de que o ensino médio na rede pública melhorou muito. Mas o que vem ocorrendo é risco de enfraquecimento no ensino superior público. Com as cotas, as chamadas minorias - que de minoria não têm nada, são maiorias absolutas - ganham mais espaço e a classe média se vê às voltas com a escassez de vagas para seus filhos, que frequentaram graças ao sacrifício dos pais, escolas particulares.
Não que os menos favorecidos não devam ter acesso ao ensino público superior. Mas se o governo realmente quisesse fazer a mudança, atacava a base do problema, melhorando o ensino fundamental e o ensino médio públicos. Dando condições às pessoas de lutarem em igualdade por uma vaga. Não manipulando uma situação e enfraquecendo a única instituição pública que realmente funciona bem até aqui: o ensino superior público.
É nas faculdades públicas que se encontram as melhores cabeças do País. É de lá que surgem grande parte dos cientistas que lutam por conquistas para a população como um todo. Mas por conta de uma demagogia populista, cria-se acesso a quem muitas vezes sequer consegue acompanhar o ensino superior público. Hoje já tenho conhecimento de pessoas que mantém, no ensino médio, seus filhos cursando duas escolas. Uma pública e outra particular. Afinal, se o aluno não conseguir uma vaga pelos meios normais, consegue pelas cotas disponíveis. Mas isso é justo?
As cotas são injustas por natureza, afinal não contemplam a grande maioria. São exploradas como a salvação da lavoura. E muita gente acredita peremptoriamente nisso. Defender cotas é defender a manutenção da segregação racial, social, moral, étnica. E não se ampliam as vagas em universidades públicas com a contratação de mais professores. O que se têm criado com as cotas é um gargalo tão estreito que já passou da hora de se criar cotas para a classe média. Cota vestibular, antes de tudo. Mas também "cota-menos impostos", "cota-menos juros", e outras mais. Ou o governo, numa atitude digna, decide-se por melhorar o ensino público desde o fundamental. Afinal, quem é que gosta de pagar para ter o filho em escola particular e, muitas vezes, deixar de ter uma casa melhor, ter melhores móveis, ter acesso à cultura e lazer? Cotas para a classe média já!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sacolas plásticas: perdendo a esperança

Quando comecei a escrever no Blog do Adal, um dos primeiros assuntos, que rendeu muitos comentários dos amigos que acompanhavam à época os meus textos foi a questão do fim da distribuição gratuita das sacolas plásticas nos supermercados. E, pelo que pude notar em debates com esses amigos, percebi que a questão não lhes é tão favorável quanto eles queriam fazer-nos crer. Essa história de preocupação ambiental, para a maioria dos consumidores, é pura balela.
O que os supermercados querem mesmo é economizar, sem repassar a economia ao consumidor. É uma forma velada de aumentar os lucros. A situação suscitou muito debate, muitos protestos. Não porque a maioria da população seja contrária à preservação da natureza. Longe disso. Mas porque existem alternativas para transportar produtos comprados nos supermercados que são mais facilmente decompostos pela natureza, mas jamais cogitaram assumir esse custo para beneficiar o consumidor.
Acho que a questão deveria ter sido mais amplamente discutida, principalmente no sentido de educar à população para que o uso de sacolas plásticas fosse consciente. Que nada. O Procon conseguiu uma medida judicial que obrigava os supermercados a estender por mais um tempo a distribuição de sacolas plásticas.
O prazo termina amanhã, dia 3 de abril. E, nesse período em que tornou-se novamente obrigatória a distribuição das sacolinhas, nada de concreto foi feito em termos de conscientizar a população. Nem quanto aos supermercados, que se mantém firmes no propósito de acabar com as sacolinhas gratuitas. Uma pena. Chegamos ao fim e, a menos que alguém de bom senso tome providências para que possamos mudar a forma de utilização das sacolas plásticas, teremos que nos acostumar a pagar por sacolas retornáveis ou carregar nos braços.
Sim, pois se ilude quem acha que as tais caixas de papelão - consideradas inclusive anti-higiênicas por sanitaristas - ficarão à disposição dos clientes. Quando iniciou o período de proibição das sacolinhas plásticas gratuitas, sumiram as caixas de papelão. Em síntese, voltamos à estaca zero, ao ponto de partida, com a perspectiva de continuarmos andando para trás. Foi bom enquanto durou. Mas sugiro aqui, para conter a ganância do setor supermercadista, que ano após ano cresce vertiginosamente - principalmente agora com o tão propalado crescimento do poder econômico das classes C, D e E -, que nos organizemos e privilegiemos supermercados ou pequenos mercados e mercearias que ainda mantenham a distribuição gratuita das sacolas aos seus clientes, sempre levando em conta a questão da preservação ambiental. Ou que procurem comprar menos, só o necessário. É como diz o ditado popular: "feio é roubar e não conseguir carregar". Pois para os supermercados, o negócio é comprar e se virar para carregar.
Boa semana a todos.

Apenas para acrescentar, texto retirado do http://sacolinhasplasticas.blogspot.com.br/ 
"Não há lei que proíba a distribuição de sacolas plásticas no Estado de São Paulo. O que está ocorrendo é um acordo voluntário encabeçado pela Associação Paulista dos Supermercados (APAS) e pelo Governo do Estado de São Paulo, a fim de que os supermercados não distribuam mais sacolinhas.
Denominada “Vamos tirar o planeta do sufoco”, a campanha sofreu forte rejeição da população, que tem direito garantido no Código de Defesa do Consumidor às embalagens para carregar compras. Desde o dia 3 de fevereiro está em vigência um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pelo Ministério Público, pelo Procon e pela APAS, que obriga os supermercados a distribuírem gratuitamente embalagens, como as sacolinhas plásticas, garantindo o direito do consumidor que já paga por elas no preço dos produtos. O TAC tem vigência por 60 dias. Em 1º de março, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), entendendo se tratar de propaganda enganosa, decidiu por unanimidade que a APAS deve suspender sua campanha publicitária contra as sacolas plásticas."
Pense nisso!