Andar pelas ruas do centro velho de São Paulo nunca deixou de ser uma aventura, mesmo nos dias atuais, apesar de muitas das grandes empresas que lá estiveram instaladas terem se mudado para os novos centros, como Avenida Paulista, Avenida Faria Lima e, mais recentemente, Barueri, deixando o centro menos movimentado que em sua áurea fase. Nos meus tempos de escola, não foram poucas as vezes que marcávamos para fazer pesquisas na Biblioteca Mário de Andrade, localizada no cruzamento da Avenida São Luiz com a Rua Xavier de Toledo.
Era um prédio imponente, majestoso. Ao chegar, deixava parte do material escolar no guarda-volumes e ia até a bibliotecária para solicitar os livros que precisava. Torcia para que fossem nos andares mais altos. Demorava um pouco, mas era muito interessante ver o livro descendo nos pequenos elevadores do prédio.
Depois da pesquisa, nada como dar um pulo no Mappim, na Praça Ramos, para um lanche. Subia até a lanchonete no terceiro andar do prédio. Lembro que uma vez um daqueles velhos elevadores despencou do segundo andar comigo e outras pessoas à bordo. Fiquei uns dois dias com dor de cabeça por conta da aventura. Além disso, tivemos que sair usando uma escada improvisada pela brigada de incêndio do Mappim.
Em frente ao Mappim, até hoje triunfa belo e imponente o Teatro Municipal. Aquele lugar é um sonho. Fui poucas vezes. Na maioria delas - talvez em todas elas - por conta das apresentações de meu tio Edmilson, que tocava na Sinfônica Municipal.
Para ir ao Morumbi assistir futebol, vinha de Metrô até a estação São Bento. Lá, descia e seguia para o Vale do Anhangabaú, onde dezenas de ônibus da antiga CMTC (Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos) levavam os torcedores ao estádio. Também era na estação São Bento onde descia quando o assunto era coleção. Em frente à estação havia a agência central dos Correios. Lá era possível comprar selos raríssimos, tanto no setor de filatelia da agência, como nas bancas de revista localizadas em seu entorno. E era meu endereço preferido quando, acompanhando pelo jornal, descobria que teria lançamento de mais um selo. Comprar um selo com o carimbo de primeiro dia de circulação valorizava o objeto de coleção. Além de selo, as bancas vendiam outros tipos de coleções, como gibis, tampinhas de garrafa, caixa de fósforo e outras esquisitices.
Para lanchar, em frente ao Correio, havia um lugar não muito recomendável por sua péssima aparência, mas com pastéis deliciosos e um geladíssimo caldo de cana. Se o dinheiro não desse para tanto, o ideal era improvisar com "churrasco grego" e suco nas imediações.
Quem gostava de corrida de cavalo mas não tinha tanto dinheiro para frequentar o "jet set" no Jockey Club, podia fazer suas apostas numa loja localizada na esquina da Ladeira Porto Seguro com Rua Boa Vista. Já quem queria comprar joias, bastava ir nas diversas lojas instaladas nas ruas próximas à Praça da Sé.
Almoçar no centro velho de São Paulo também era algo bastante divertido. E opções não faltavam. De um lado do Viaduto do Chá, os restaurantes mais refinados, com pratos preparados de acordo com um cardápio fixo semanal. Segunda era dia de virado à paulista, por exemplo. Toda quarta-feira havia feijoada. De quinta-feira o prato do dia era o peixe à milanesa. Havia, é claro, outras opções. Um dos tradicionais restaurantes, frequentados pelos bancários em horário de almoço era o famoso "Sem Dez", porque não cobravam os 10% do garçom.
Do outro lado do viaduto do Chá, no sentido da Praça da República, a opção era comer nos PFs (Pratos Feitos) instalados nas diversas galerias das ruas 24 de Maio e 7 de Abril, principalmente nos arredores da sede dos Diários Associados, um imponente edifício onde Assis Chateaubriand solidificou seu império das comunicações até meados dos anos 1960.
Se sobrasse tempo, após o almoço, o passeio preferido era subir no Edifício Itália até seu terraço. Os mais abastados levavam a namorada para jantar nas alturas. Mas quem não tinha dinheiro pagava apenas para ver São Paulo do alto no mirante. Muitos optavam por tomar um café no térreo do Edifício Copan, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e que fica ao lado do Itália.
Cinema em shopping nem pensar. O primeiro shopping brasileiro, o Iguatemi, ficava longe do centro velho. E cinemas bons eram os de rua. Tinha o Metro (sem acento circunflexo), com três salas na Avenida São João, o Paissandu, no Largo do Paissandu, o Cine Regina, também na São João, o Marabá e o Ipiranga, na avenida do mesmo nome. Mas o que mais gostava era mesmo o Comodoro. Em frente ao Comodoro tinha um moderninho, chamado Cine Espacial. A sala era redonda, com três telas que projetavam a película de forma simultânea. Mas era no Comodoro que projetavam os filmes do momento.
O centro velho pode ter perdido grande parte do seu glamour, mas não perde seu charme. Entre diversos projetos para sua revitalização, os paulistanos ainda vêem situações de quem agoniza, mas não se entrega. E a contar pela tradição do local, onde até hoje está instalado o marco de sua fundação - o Pátio do Colégio - não vai entregar os pontos jamais. Centro é centro e São Paulo nunca vai conseguir esquecer o seu centro. Nem eu.
COMODORO!... Esse era o meu cinema favorito! Pertinho dali, bem ao lado do Cine Metro, tinha a "Muito Prazer", uma loja especializada em quadrinhos, tanto os nacionais quanto os importados, usados, novos, fanzines, independentes... tinha de tudo! Os funcionários já até me conheciam e guardavam aqueles que eles sabiam que me interessariam.
ResponderExcluirEu saia do colégio (no Pari) seguia pela Rua São Caetano - a famosa "Rua das Noivas" - atravessando a Avenida do Estado, passando pela Estação da Luz (fazia questão de passar por dentro dela... é LINDA!), pegava a Avenida Ipiranga até a Avenida São João e ia até o Cine Comodoro, isso tudo passando de banca de jornal em banca de jornal para encontrar gibis e revistas de quadrinho independentes para minha coleção - e olha que isso me rendeu raridades valiosíssimas a preço de banana, como a revista "Ferdinando" nº1 de Al Capp (de 1962), um dos primeiros títulos de um personagem solo editados no Brasil, comprado por NCr$0,50 (cinquenta centavos de Cruzados Novos, o que valeria mais ou menos R$1,00 hoje em dia)- e, depois de assistir a um filme com meus colegas de classe (lembro de ter assistido a "Akira" de Katsuhiro Otomo, um desenho que me marcou muito... vi três sessões seguidas!), passávamos na "Muito Prazer" para comprar alguma raridade mais em conta e, ao sairmos, íamos até o "Jack in the Box" ao lado do Cine Ipiranga para tomarmos um lanche ou ao "Rei do Mate", na Avenida São João, em frente à "Galeria do Rock", para tomarmos um chá gelado com leite, chocolate em pó, conhaque, chantilly e cobertura de chocolate com uma cereja na ponta, que era feito exclusivamente para nós (fregueses frequentes) e que batizamos de "Chá das Trevas"!
EH SAUDOSISMO!...
Você andava bastante, hein Sidney??? Bem lembrado, a Estação da Luz, onde hoje inclusive funciona o Museu da Língua Portuguesa, é um lugar à parte, assim como a Praça da Luz, a Pinacoteca... Região rica em cultura. E em outras coisas, infelizmente.
ResponderExcluirLembro muito bem do Jack'n the Box. Era infinitamente melhor do que o Mac Donalds, que surgiu, pelo que me lembro, no finalzinho da Rua Direita, quase na Praça da Sé. E a Galeria do Rock, apesar de não ser como antes, ainda está firme e forte, em frente ao Largo do Paissandu!!!
É isso mesmo! Jack in the Box era melhor que todas essas lanchonetes fast foods de hoje!... E o melhor... TINHA CERVEJA! Kkkkkkkkkkk!
ExcluirApesar da migração, muita coisa ainda continua trazendo o charme da cidade,pena que para andar por lá vc tenha que rereredrobrar a segurança, e não esquecendo o Mercado Municipal com suas cores,sabores e aromas, e onde nós fomos nos divertir muitas vezes com o Vô Mané aos domingos de manhã levando pão para as pombas, o Parque da Luz.
ResponderExcluirAngelica.
Verdade, Angelica! Aliás, o Mercadão hoje é chique, mas sempre esteve lá daquele mesmo jeito. É que virou moda, merecidamente. E o Parque da Luz era mesmo muito bacana - e continua.
ResponderExcluirBelo texto Luque viajei sem sair do lugar.
ResponderExcluirAbração
Gil
Grande Gilberto Negro!!! Desculpe, só vi seu comentário hoje. Obrigado!!!
ExcluirAbraços.
Adal, em primeiro lugar, parabéns pelo seu texto. Você me trouxe lembranças maravilhosas que se referem a minha infância e juventude. Sou uma paulistana apaixonada por essa cidade tão maravilhosa e infelizmente hoje em dia, tão judiada. Atualmente moro na Baixada Santista e cada vez que subo a serra é como se estivesse indo pela primeira vez á Sampa, me deslumbro e me apaixono mais ainda. Mas, me dói ver como a nossa cidade está sendo destruída pela falta de memória de seus munícipes e governantes.
ResponderExcluirMas, vamos lá: tudo isso que você descreveu, eu conheço muito bem e, me permita acrescentar algumas coisinhas.
Eu ia muito ao Mappin, até porque o meu padrinho trabalhava lá e quando criança, eu achava muito chique isso. Era uma glória para mim, comentar com os meus colegas de escola que eu tinha livre acesso á loja por conta disso. Eram outros tempos, quase todos os funcionários me conheciam e eu ficava muito orgulhosa. O Mappin era muito chique na minha visão de criança.
E a casa de chá que tinha ao lado? Meu Deus era divina. Eu não tinha grana prá freqüentá-la, ia sempre com a patroa da minha mãe, cada vez que ela ia fazer compras no Mappin me levava e depois íamos lá a fim de lancharmos. Eu tinha oito anos na época e achava aquilo tudo deslumbrante. Imagine a filha da empregada sentada naquelas cadeiras maravilhosas, estilo Luiz XV, tomando chá com bolos, torradas, geléias, etc.
Voce fala do “churrasco grego” e do “Sem Dez” e eu me lembro que já adolescente eu trabalhava num banco na Rua Álvares Penteado e quando não tinha dinheiro prá almoçar, eu ia numa lanchonete que de tão pequena, a gente chamava de “dá licença”, era impossível você chegar ao caixa, por exemplo, sem se espremer entre as pessoas e repetindo: dá licença, dá licença... Lá faziam um hot dog delicioso e baratinho, quebrava um galho danado, rsrs.
Todos os cinemas que você cita, eu conheci. Eu gostava muito do cine Paissandu, o hall de entrada era muito grande e no fundo dele, havia um piano de calda onde sempre tinha alguém tocando entre uma sessão e outra. Ô saudades...
Muito obrigada por me proporcionar esses momentos de lembranças tão agradáveis. Se eu for descrever aqui o que vi e vivi de bom em São Paulo, ficarei dias e dias digitando e vocês poderão até se entediar. Vou parando por aqui, talvez mais prá frente eu me inspire novamente e conte um pouco mais.
Abraços, Plena.
Olá Adalberto !
ResponderExcluirTambém sou apaixonada por São Paulo e seu texto fez com que eu mergulhasse na infância e adolescência - Foi maravilhoso !
Passei o link do seu blog p/ minha amiga Plena pq dividimos a mesma paixão e eu sabia q ela ia gostar (viu o comentário acima neh).
Quando eu era criança ia passear todos os domingos com meu pai no centro velho, era divino, íamos ao cinema, comíamos pastel e caldo de cana - era tudo muito divertido. Me lembro que o "dá licença" que a Plena mencionou fazia o cachorro quente mais gostoso do mundo ! ficava no Largo do Café. Anos mais tarde comecei a trabalhar e meu primeiro emprego foi na Rua XV de novembro (meados dos anos 80).
Atualmente moro em Bauru - interior de SP mas nunca me esquecerei de Sampa - cidade em que passei a melhor época de minha vida.
Abraços
Rô
Olá, Plena!!!
ResponderExcluirFiquei muito feliz com o seu comentário e com as coisas que você acrescentou. Quero pedir desculpas por só ter respondido agora, mas o Blog foi feito com o e-mail do hotmail que eu não uso sempre e as notificações vêm para cá. Então só quando acesso é que vejo. É muito importante sua opinião e suas informações. Também não moro mais em Sampa, mas vou sempre e, sempre que passo por lá, a nostalgia é fatal. Esse "Dá Licença" devia ser marca registrada no Centro. Não conheci com este nome, mas todos os locais que vendiam lanche eram bastante apertados. Sobre o piano de cauda, não lembrava dele. Mas aqueles cinemas do Centro eram um luxo só! Obrigado por suas palavras e espero que me perdoe a demora em responder. Meu e-mail que abro com frequência é adalbertoluque@uol.com.br .
Um grande abraço.
Adalberto
Olá, Rô!
ResponderExcluirDesculpe só responder agora mas, como já citei na postagem à Plena, estou reestruturando o blog para corrigir essas situações. Só percebi a notificação hoje. Também trabalhei na XV de Novembro, no número 150, de 1983 a 1986. Vivemos a última grande fase do Centro velho. Também moro no interior, Ribeirão Preto, mas sempre que vou a Sampa é como disse a Plena, vem o filme à cabeça e tudo parece ser como era no começo. Obrigado pelos comentários, são muito importantes. E espero contar com sua participação em outros temas. Obrigado, mais uma vez.