terça-feira, 3 de abril de 2012

Cotas para a classe média

Quando comecei a estudar, em 1970, escola pública ainda era conceituada, apesar de estar apresentando um pequeno declínio em sua qualidade. No final da década de 1970, a situação já era outra e na década seguinte complicou-se de vez. Mesmo assim, tive a felicidade de estudar em boas escolas públicas, como a grande maioria o fazia. Naquele tempo, escola particular era só para quem foi expulso de escola pública ou não tinha condições de acompanhar o ensinamento.
Os tempos mudaram e quem, como eu, estudou naquela época, faz o possível e o impossível para manter os filhos em escolas particulares, vislumbrando um futuro melhor para a nova geração. A classe média se esforça, fechando meses e meses no vermelho, para proporcionar aos filhos um ensino de qualidade. Afinal, não dá para confiar na qualidade do ensino oferecido pelo governo, assim como não dá para confiar na saúde pública. Por essa razão, convênio médico e escola particular têm peso enorme no orçamento das famílias de classe média.
Em mais uma atitude populista, o governo Lula estabeleceu as chamadas "cotas sociais", que só crescem ano após ano em detrimento da classe média. Sim, pois os ricos e as classes menos abastadas não são atingidas pela enorme carga tributária à qual a classe média é submetida para financiar o "assistencialismo" iniciado no governo Lula, com bolsa isso, bolsa aquilo. É a classe média quem paga a conta.
Mas isso é outro assunto. A questão é que as cotas são usadas politicamente. É bem verdade que surgem alguns - pouquíssimos - exemplos de eficiência. Pior, dando a falsa impressão de que o ensino médio na rede pública melhorou muito. Mas o que vem ocorrendo é risco de enfraquecimento no ensino superior público. Com as cotas, as chamadas minorias - que de minoria não têm nada, são maiorias absolutas - ganham mais espaço e a classe média se vê às voltas com a escassez de vagas para seus filhos, que frequentaram graças ao sacrifício dos pais, escolas particulares.
Não que os menos favorecidos não devam ter acesso ao ensino público superior. Mas se o governo realmente quisesse fazer a mudança, atacava a base do problema, melhorando o ensino fundamental e o ensino médio públicos. Dando condições às pessoas de lutarem em igualdade por uma vaga. Não manipulando uma situação e enfraquecendo a única instituição pública que realmente funciona bem até aqui: o ensino superior público.
É nas faculdades públicas que se encontram as melhores cabeças do País. É de lá que surgem grande parte dos cientistas que lutam por conquistas para a população como um todo. Mas por conta de uma demagogia populista, cria-se acesso a quem muitas vezes sequer consegue acompanhar o ensino superior público. Hoje já tenho conhecimento de pessoas que mantém, no ensino médio, seus filhos cursando duas escolas. Uma pública e outra particular. Afinal, se o aluno não conseguir uma vaga pelos meios normais, consegue pelas cotas disponíveis. Mas isso é justo?
As cotas são injustas por natureza, afinal não contemplam a grande maioria. São exploradas como a salvação da lavoura. E muita gente acredita peremptoriamente nisso. Defender cotas é defender a manutenção da segregação racial, social, moral, étnica. E não se ampliam as vagas em universidades públicas com a contratação de mais professores. O que se têm criado com as cotas é um gargalo tão estreito que já passou da hora de se criar cotas para a classe média. Cota vestibular, antes de tudo. Mas também "cota-menos impostos", "cota-menos juros", e outras mais. Ou o governo, numa atitude digna, decide-se por melhorar o ensino público desde o fundamental. Afinal, quem é que gosta de pagar para ter o filho em escola particular e, muitas vezes, deixar de ter uma casa melhor, ter melhores móveis, ter acesso à cultura e lazer? Cotas para a classe média já!

Nenhum comentário:

Postar um comentário