Tive várias propriedades de frente para o mar. Já morei "pé na areia" em Riviera de São Lourenço. Morei também na Prainha Branca, ao lado da Praia de Pernambuco, no Guarujá. Já morei em tanta praia que nem me lembro mais. Na verdade, o meu morar se resumia a um bom pedaço de lona, com algumas armações de alumínio: minha fiel barraca de camping.
Foi com uma mochila e uma barraca nas costas que conheci boa parte do litoral paulista, principalmente do Guarujá até Ubatuba, quase na divisa com o estado do Rio de Janeiro. Acampar era o sonho da minha geração e quem teve coragem, conseguiu realizá-lo.
Na Riviera de São Lourenço - que ainda não tinha o Riviera no nome - era tudo uma grande aventura. Para chegar até lá, tomávamos o trem no Brás até Mogi das Cruzes. Descíamos na última estação e seguíamos com mochilas, barracas e provisões, até a Rodoviária de Mogi das Cruzes, distante mais ou menos três quilômetros. Quando o dinheiro dava, fazíamos um rateio e um de nós seguia de táxi, levando todas as tralhas, enquanto o resto seguia a pé até a rodoviária. Apanhávamos o ônibus para Bertioga e descíamos antes do final, na praia do Indaiá. Caminhávamos cerca de seis quilômetros até chegar a São Lourenço. Lembro que numa das últimas vezes que acampamos lá, já tinha a placa do loteamento Riviera de São Lourenço, mas não imaginava que ali seria um reduto tão caro.
Era tudo uma farra só. Como naqueles tempos não contávamos com internet para boas pesquisas, o que valia eram informações privilegiadas. Nesse caso, tínhamos as melhores informações. Afinal, dois dos integrantes de nossa turma tinham irmãos mais velhos, já em cursinho pré-vestibular ou em faculdade. O Hélcio recebia as dicas do irmão dele, o Hércules, hoje jornalista-diagramador da Folha. O Sílvio se informava com sua irmã, a Sueli, que já cursava Educação Física. E as dicas eram ótimas.
Foi graças ao Hércules e à Sueli que acampamos na Prainha Brava, hoje reduto de condomínios fechados, no Guarujá. Também com suas dicas conhecemos as praias de Toque-toque Grande e Pequeno, em São Sebastião. A turma acampou em praias ainda hoje selvagens, como Puruba, em Ubatuba.
Mas nosso roteiro de aventura não se limitava apenas às praias do litoral norte, não. Valia de tudo. Santos, São Vicente, Praia Grande. Aliás, em Praia Grande a coisa era um luxo só. O Hélcio tinha um primo meio "rico". Os tios do Hélcio tinham uma kitinete (quarto, cozinha e banheiro) na Praia Grande, e ali a turma se instalava em acomodações muito melhores do que a barraca.
Acampamos também numa casa em construção, em Itanhaém. Conheci todo o litoral paulista assim, com barraca ou em instalações simples, para não dizer duvidosas. A melhor de todas sempre foi mesmo a kit do primo do Hélcio.
Numa das viagens, seguimos com minha Brasília velha para o litoral norte. Foi uma viagem do tipo "Férias Frustradas" - filme com Chevy Chase e Beverly D'Angelo na década de 1980. Foi no carnaval de 1984. Em seis na Brasília, com barracas, mochilas e mantimentos devidamente alojados em cima do motor. Fomos até São José dos Campos, com o objetivo de descer até Caraguatatuba. Chegamos lá pela Dutra - a Ayrton Senna ainda estava em construção - e a estrada que liga São José dos Campos a Caraguá estava interditada, por conta de um acidente. Ficamos umas seis horas parados, jogando baralho, esperando liberar o trânsito. Quando liberaram, era por volta de 5h00. Chegamos em Caraguatatuba com o dia amanhecendo.
Fomos até Bertioga parando de tempos em tempos, conhecendo as praias, numa Rio-Santos sem asfalto em grande parte do percurso. Mas nos instalamos mesmo no nosso ponto preferido: São Lourenço. Foram dois dias até lá. Mas quando chegamos, senti que estava em minha casa. Também já fizemos loucuras em outras praias, de outros estados. Certa vez fomos acampar na Ilha do Mel de avião. Quando voar era muito caro, financiando tudo em "módicas" prestações. Fomos em 42 pessoas. O ET (Eduardo Theodoro) foi quem organizou o aluguel de um ônibus do aeroporto de Curitiba até Pontal do Sul, onde embarca-se para a Ilha do Mel. Na volta, nas esteiras do Aeroporto Internacional de Guarulhos, havia malas de luxo dividindo espaço com mochilas, barracas, lampiões e outros apetrechos de camping. Sempre o selvagem, que era o melhor.
Dizem que o importante é acumular lembranças, pois essa é a riqueza que se tem na fase mais adiantada da vida. Se for assim, pelas lembranças que tenho principalmente dos anos 1980, terei uma velhice milionária.
Nenhum comentário:
Postar um comentário