quarta-feira, 4 de abril de 2012

Mudança de hábitos

A crise econômica que afetou o planeta e, em especial os Estados Unidos, é mais facilmente sentida quando se chega por lá. Antes de desembarcar na Flórida, procurei me cercar de todas as garantias possíveis para, além da barreira da língua, não esbarrar em outras barreiras desagradáveis, como discriminação por exemplo. Ouvi muitos relatos onde brasileiros, décadas atrás, eram muito mal tratados, inclusive em Miami e Orlando, locais repletos de latino americanos vivendo legal ou ilegalmente por lá.
Tão logo desembarquei no Miami International Airport, notei que a coisa não era mais bem daquele jeito, como já davam a entender os relatos de quem foi para lá mais recentemente. Aliás, a cordialidade já começou no próprio consulado dos Estados Unidos, quando fui bem atendido por funcionários na maratona para obter o visto de turista.
Mas chegando ao aeroporto, me surpreendi. Guardas educados procuravam organizar as filas dos turistas que não viam a hora de ter em seus passaportes o tão esperado carimbo de ingresso ao País. Na imigração, o oficial faz poucas perguntas em inglês, pacientemente. Ao ver que éramos brasileiros, já tentou um espanhol para facilitar. Em poucos minutos, fomos aceitos nos Estados Unidos.
Mesma condição encontramos após retirar as malas das esteiras e ao pedir informações. Na locadora de automóveis, também não houve problemas. Ligamos o GPS e fomos rumo a Orlando, nosso destino final. Uma bela rodovia nos levou até a capital dos parques temáticos. No caminho, paradas obrigatórias para comprar café, afinal, viajar em classe econômica não é fácil e o sono bateu na viagem até Orlando. Nas lojas de conveniência, todos se esforçaram para entender meu "inglês sem sotaques".
Durante toda a minha estada por lá, tive pouquíssimos problemas. E fiz muitas constatações. A principal é que a crise realmente afetou a vida dos cidadãos estadunidenses. Nos parques temáticos, principalmente os da Disney, observei que é grande o número de idosos trabalhando. Enquanto os jovens desempenham a chamada linha de frente, estando sempre à disposição dos turistas, os idosos - muitos com mais de 75 anos - trabalhavam em setores de retaguarda. E setores exaustivos. Vi muitos idosos trabalhando em banheiros. Um deles, recolhendo o lixo acumulado, e empurrando um carrinho lotado de sacos de lixo. Não me contive e perguntei-lhe a idade. Tinha 78 anos e trabalhava seis horas diárias no parque. A crise o fez ter que complementar sua renda.
Também observei que muitas lojas, restaurantes, hotéis e os próprios parques investiram nos povos "da vez". Empregos para brasileiros, chineses, indianos e mexicanos - latinos em geral - estão em alta por lá. Tudo porque essa casta, antes proscrita e hoje adorada pelos cidadãos dos Estados Unidos, é quem está levando rios de dinheiro para ajudar na economia em crise daquele País. Sim, definitivamente invadimos a terra do Tio Sam. Os brasileiros dividem espaço com chineses, indianos e mexicanos. E com árabes. O mais curioso é que os árabes iam aos shoppings comprar, acompanhados de suas mulheres trajando burcas e carregando todo o tipo de sacolas para os maridos.
Mas trabalhar lá já não é mais conquistar a América, como se diziam antes. Falei com vários brasileiros que por lá trabalham. Num dos vários restaurantes brasileiros para brasileiros, em Orlando, conversei com o garçom e com a garçonete. Ambos estão por lá há alguns anos, mas não vêem a hora de voltar para o Brasil. Dizem que ficou difícil viver por lá trabalhando, que não há mais poder de compra no dólar e querem voltar para suas regiões. Ele, do interior de Santa Catarina e a mulher de Maceió.
Também em uma loja de brasileiros especializada em vender ingressos para parques em Orlando, ouvi um relato do atendente. Ele comenta que trabalhar com brasileiros é bom e ele vê o quanto cresceu o poder de compra em nosso País. Por conta disso, já pensa em fazer o caminho de volta. Está trabalhando com ingressos há pelo menos seis anos, só em Orlando. Mas conta que está difícil viver por lá. Não sei se a lição irá servir para os estadunidenses, mas, caso não sirva, que estendam-nos o tapete vermelho enquanto a crise durar - e o Brasil ainda puder comprar.

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