Certa vez vi essa frase num movimento pela valorização dos trabalhadores da rede ferroviária no Brasil. Achei interessante por demais e comecei a perceber que, apesar do hoje quase falido sistema ferroviário, principalmente no setor de passageiros, o trem sempre fez parte de minha vida.
Lembro que era pequeno, uns seis ou sete anos, e alguns domingos no ano a família toda se arrumava. Eu, minha irmã, meus pais e meus avós íamos a pé até o Parque Edu Chaves, apanhávamos o Vila Magdalena, linha da CMTC (Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos) que atravessava a cidade de São Paulo. Descíamos no Largo da Concórdia e, na Estação Brás embarcávamos rumo às estações Poá e Calmon Viana.
O passeio era mágico. Aquele enorme meio de transporte, cheio de passageiros, janelas abertas, cabelos esvoaçando ao vento, barulhento, com um harmonioso chacoalhar. Em Poá, descíamos para visitar a antiga lavadeira - que cuidava de lavar e passar a roupa - da família de minha vó, quando ela ainda morava no bairro da Moóca. Tomávamos o café da manhã e o grupo seguia à pé, rumo à estação Calmon Viana, que ficava cerca de três quilômetros de Poá. O percurso era feito no trilho do trem e, vez por outra, tínhamos que sair do trilho quando vinha alguma composição. Uma emoção a mais.
O tempo passou e o trem continuou fazendo parte de minha vida, fosse em passeios ou no dia-a-dia. Na minha época de faculdade, foram quatro anos seguidos andando de trem, na ida e na volta de Mogi das Cruzes. Lembro que trabalhava no Banco Holandês Unido, no Centro de São Paulo, ao lado da amiga Fani que constantemente participa deste Blog. Em algumas ocasiões, usava terno e gravata e saia do banco direto para a faculdade. Chegando no Brás, esperava o trem na parte da frente da plataforma. Era o trem dos Estudantes. Ele seguia direto, com pouquíssimas paradas até a estação final, localizada no Campus da UMC (Universidade de Mogi das Cruzes). Quando o trem chegava na plataforma, eu pendurava na porta, mesmo de terno e gravata, para conseguir dois lugares e seguir sentado até Mogi, na companhia de minha namorada, hoje esposa.
Presenciei acidentes de trens, suicídios, mas nunca deixei de gostar do meio de transporte. Em 1988, mudei-me para Ribeirão Preto, uma cidade que cresceu e se desenvolveu por conta do progresso trazido pela Companhia Mogiana. O trem sempre teve fundamental importância na história cidade. Quando cheguei a Ribeirão Preto, lembro que havia um cruzamento, na Avenida Dom Pedro, onde ficávamos às vezes até 15 minutos parados, enquanto o trem realizava manobras. Era caminho obrigatório de minha casa até o trabalho, na EPTV, afiliada da Rede Globo. Mas valia a pena ver as manobras, lembrar dos tempos de criança.
Ribeirão Preto, a exemplo do restante do Brasil, começou a deixar de lado o transporte ferroviário e tudo começou a se deteriorar. Minha filha ainda chegou a fazer o passeio entre Ribeirão Preto e São Simão, de trem, mas que foi desativado pouco tempo depois. Hoje boa parte dos trilhos foi removido, principalmente dentro da cidade. Uma pena.
Na Europa, o trem é ainda um importante meio de transporte. É possível, através do Eurail Pass (sistema de passes e percursos interligados) conhecer muitas cidades no Velho Mundo sobre os trilhos. Passeios confortáveis, práticos e baratos. Em alguns casos, dependendo do trajeto que for traçado, economiza-se até em hotéis, pois o turista dorme no próprio trem. Praticamente toda Europa está interligada pelos trilhos.
No Brasil ainda restam alguns roteiros que resistem ao tempo. Um deles é o que faz o passeio turístico entre Curitiba e Paranaguá. Deslumbrante. O trem vai passando por penhascos e desfiladeiros, numa área de rica mata atlântica.
Tem também a Maria Fumaça que oferece passeios em Jaguariúna. Outro passeio interessante é entre Belo Horizonte e Vitória. A Estrada de Ferro Vitória-Minas conta com 905 quilômetros de extensão e dois trens diários, com cerca de 13 horas de duração na viagem. Contando com classe executiva, o passageiro conta até com ar condicionado e serviço de bordo.
Outro passeio interessante é o de Campos do Jordão, até Santo Antonio do Pinhal, passando pela Serra da Mantiqueira até chegar ao Vale do Paraíba. Porém é bastante concorrido, principalmente nos feriados. Mas dois passeios em especial fizeram muito sucesso. Um deles é o da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Na serra, havia cabos de aço e os vagões desciam um por vez. O outro passeio que não existe mais é o Trem de Prata, já descrito neste Blog do Adal. Um meio de transporte prático, dinâmico, econômico e ecológico. Que ainda pode ser resgatado, para o bem do Brasil. Como dizem os ferroviários, o Brasil Trem Jeito.
Adorei, muito bem colocado. Uma boa solução pro excesso de pessoas que depende do transporte público, além de nostálgico.
ResponderExcluirVerdade, Mari. Pura nostalgia! Mas o Tem é algo bastante necessário, sim.
ResponderExcluirMelhoraria o trânsito caótico das grandes cidades e também aliviaria o tráfego de caminhões, no caso do trem para transporte de cargas. Que saudade do trem!
ResponderExcluirMartha