Conheci Moacir há uns 12 anos. Típico retirante nordestino. Veio tentar a sorte na cidade grande, trazendo com ele mulher, dois filhos e pouquíssimos pertences. Instalou-se em Itaquera, zona leste de São Paulo. Pouco estudo, mas muita vontade de aprender. Fez de tudo um pouco na maior cidade da América do Sul. "Só não pedi, nem roubei", orgulha-se em dizer.
Quando o conheci, ele tinha uma pequena portinha comercial, uma coisa indefinida, meio bombonière, meio boteco. Praticamente recebia seus clientes na calçada. Durante o dia, na semana, a clientela era composta de alunos que iam ou vinham da escola estadual que ficava a poucos metros e dos assíduos admiradores da "marvada pinga". Aos finais de semana os moradores dos prédios próximos lá se encontravam para tomar cerveja, pinga e comer os pitorescos acepipes: salsicha em conserva, ovo de codorna em conserva, picles em conserva, tudo em conserva.
Foi meu sogro quem apresentou o Moacir. Ele me disse que naquela portinhola vendia a cerveja que eu gostava na época, a Original. Fomos lá, com meia dúzia de garrafas e ele me apresentou o comerciante. "Prazer, Móaci", disse com seu sotaque. Logo vi que o Moacir era um sujeito de conversa fácil. Meu sogro disse que eu era jornalista e que havia me mudado de Itaquera para Ribeirão Preto.
Foi o que bastou. Toda vez que ia lá comprar Original, ele me apresentava aos seus clientes; "Esse aqui é meu amigo jornalista de Ribeirão. Saiu desse fim de mundo e foi ganhar o interior, lá na nossa Califórnia", dizia. Nem ele sabia me dizer como ficou conhecendo o termo Califórnia Brasileira, atribuído a Ribeirão Preto por conta de seu desenvolvimento econômico, principalmente a partir dos anos 1980.
Certa vez cheguei lá com as garrafas e o Moa me contou que tinha voltado a estudar. "Vou terminar o ginásio e fazer colégio, tudo de uma vez só, no supletivo", disse orgulhoso. E tome conversa. Moacir sempre se orgulhava em afirmar que sua clientela era selecionada. "Aqui não tem nóia, meu amigo jornalista", dizia referindo-se aos viciados em droga.
De fato, lá conheci muita gente interessante. Tinha um motorista de um grande industrial da região do ABC, na Grande São Paulo, que viajou com o patrão pelo mundo. E tinha fotos para mostrar onde estivera. Conheci também um senhor que já havia sido topógrafo. "Medi muita terra por esse Brasil afora", orgulhava-se.
Tempos depois, cheguei ao boteco do Moa. "Tenho aqui sua Original, meu amigo jornalista". Foi quando disse que estava enjoado daquela cerveja, que a "bola da vez" era a Heineken. "Pois tenho dessa" e foi logo me servindo um copo. Eu sempre tomava uma no balcão, antes de levar as outras garrafas para o almoço de domingo na casa de minha sogra. Naquele dia, Moa pagou duas para comemorar. "Sabe o que é, amigo? Passei na faculdade, vô sê doutô, tô fazendo direito", disse com os olhos radiantes. Fizeram um brinde coletivo para a conquista do Moacir. Àquela altura, ele sempre me perguntava que livro ler. Pegou gosto pela coisa. Claro, citei algumas obras de jornalismo que sempre gostei. Ele adorou, por exemplo, a biografia "Chatô, o rei do Brasil", de Fernando Morais.
O tempo passou, cheguei na minha sogra, apanhei as garrafas e fui comprar cerveja. Mas o Moa não estava mais lá. Não pensem que ele morreu. O homem trabalhou tanto no boteco dele que acabou ajuntando dinheiro, comprou um ponto maior e montou um bar com mais aspecto de bar do que de bombonière. "Isso tudo é meu, de papel passado", disse-me. Então não me contive e perguntei se foi como advogado. "Que nada, meu amigo. Fiz a faculdade, peguei o canudo. Mas minha vida é isso aqui. Foi com isso que sustentei e sustento minha casa, que eduquei meus filhos. Minha filha também vai ser doutora. Mas dinheiro eu gosto é de ganhar aqui, trabalhando de domingo a domingo, sem folga, cercado de amigos". Moacir até ajuda como voluntário em um centro social de Itaquera, que atende pessoas carentes prestando consultoria jurídica. Então me perguntou: "Vai de Heineken, jornalista?". Resolvi driblar meu amigo: "Mudei, Moa. Agora só bebo Budweiser". E não é que ele tinha? Esse é o doutor Moa.
Dedico esse artigo ao meu maior amigo, Jesus Cristo. Ele foi imolado em nosso lugar. Dedique a ele um pouco de seu tempo e oração! Ótimo feriado e Feliz Páscoa!
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