Comprar passagens para o Trem de Prata era algo bastante concorrido. Somente 15 dias antes da viagem é que eram vendidos os bilhetes. E esgotavam-se em pouco tempo. Pois 15 dias antes de viajarmos, fui para a fila, de madrugada. Era na Estação da Luz. Chegando lá, já havia umas 20 pessoas à minha frente. Comprei uma das últimas cabines duplas do trem. Não consegui comprar a passagem de volta e tive de voltar de avião. Trem e avião custavam praticamente a mesma coisa.
No dia marcado, lá estávamos nós, para nossa viagem no "Expresso Oriente" brasileiro. Talvez não tenha a mesma mística do passeio oriental, que já rendeu muitos filmes. Mas não deixava de ser luxuoso. Logo que chegávamos à Estação da Luz, com o movimento frenético dos trens dos subúrbios, éramos levados a uma espécie de plataforma vip.
Carregadores vestidos iguais aos mostrados no recentemente relançado filme Titanic. Apanhavam as malas dos passageiros, etiquetavam e nos encaminhavam a uma ala onde havia bancos confortáveis iluminados por lustres e candelabros magníficos. Quando o trem chegava à plataforma, o embarque era feito em clima de muita tranquilidade, contrastando com o frenético movimento da grande maioria dos usuários da Estação da Luz.
O Trem de Prata tinha o piso todo revestido de carpete. Um funcionário nos conduziu à nossa cabine. É muito semelhante à cabine de um navio de cruzeiros. Apertada, mas funcional. Achei estranho, pois havia apenas uma sala com duas poltronas, um armário e um apertado banheiro. Perguntei se as poltronas eram reclináveis e o funcionário me mostrou que as camas estavam embutidas na parede. Ele explicou que o jantar seria servido assim que o trem partisse, mas marcamos meia hora depois o nosso turno.
Britanicamente às 23h00, um longo e estridente foi ouvido e a composição começou a rodar, lentamente, sobre os trilhos, deixando aos poucos a Estação da Luz. Ficamos em nossa cabine, confortavelmente instalados. Em poucos minutos, rodando a cerca de 20 quilômetros por hora, já havíamos alcançado a estação do Brás. Lá fora, a multidão correndo entre as plataformas para apanhar composições que faziam as linhas Santos-Jundiaí, a Tronco (Braz-Mogi das Cruzes) e Variante (Braz-Mogi das Cruzes via Calmon Viana). A essa altura, já nos dirigíamos para o vagão-restaurante.
No vagão com várias mesas, lado a lado, luxuosamente decorado, fomos recebidos pelo maître, que nos conduziu à nossa mesa. Jantamos enquanto as estações do subúrbio surgiam e desapareciam, uma após a outra. Tatuapé, Vila Esperança, Patriarca, Arthur Alvin, Itaquera. Em pouco tempo já deixávamos a cidade de São Paulo. Após o delicioso jantar, fomos para a cabine e, surpresa, as camas estavam arrumadas. Ainda fomos tomar um drinque, a famosa "saideira", no vagão-bar. Com o leve chacoalhar do trem, veio o sono e fomos dormir, pois no dia seguinte, por volta de 9h00, chegaríamos ao Rio de Janeiro. Acordamos cedo, fomos ao vagão-restaurante apreciar o café da manhã, quando notamos já estar circulando nos subúrbios cariocas.
Voltamos à cabine para acompanhar a chegada à cidade maravilhosa. Aos poucos, locais conhecidos surgiam nas janelas. Avistamos ao longe o Corcovado, com o Cristo Redentor imponente ao nos dar boas vindas. Surgiu o Maracanã, a favela das Mangueiras e, pouco tempo depois, desembarcávamos na Central do Brasil.
Repeti algumas vezes o passeio. Mas as passagens sempre se esgotavam rapidamente, principalmente nos finais de semana de Fórmula-1 no Rio. Lembro de um deles, em 1988, onde Senna largou dos boxes, em último e fez uma corrida de arrepiar. Estava em segundo, perseguindo o líder Alain Prost, quando recebeu bandeira preta e foi eliminado da prova por ter sido empurrado pelos mecânicos. Na volta, no Trem de Prata, não se falava de outra coisa.
Nas fotos acima, o corredor do vagão, o dormitório e o Maracanã visto do Trem de Prata
O memorável passeio durou pouco mais de 40 anos. Em 16 de fevereiro de 1991, o trem fez sua última viagem. Da mesma forma como começou: às 23h00, saia uma composição do Rio de Janeiro com destino a São Paulo e outra no sentido inverso. O passeio foi retomado em 1995, pela iniciativa privada, mas parou de circular, definitivamente, em 29 de novembro de 1998, por conta das precárias condições de conservação da malha ferroviária. Quem não fez o passeio, só vai ficar na imaginação e quem fez guarda os tempos de Trem de Prata com carinho na memória.

Com alguma sorte um dia ele volta a circular. Só falta aparecer um governo disposto a cuidar da nossa história, pronto pra reconstituir o passeio.
ResponderExcluirExcelente relato, pena que ignore o nome correto dos "trens de prata": VERA CRUZ, entre Rio e BH e SANTA CRUZ, entre Rio e SP. Se quiser conhecer a história destes CARROS DE PASSAGEIROS, conheça www.trem.org.br
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