terça-feira, 10 de abril de 2012

Profissão: extinta

Imagine uma pessoa preenchendo uma ficha qualquer e quando chega no item profissão, coloca: operador de teletipo. Esquisito? Inimaginável? Puxando pela memória, muitos logo vão se lembrar de uma ou duas profissões ou ocupações que foram extintas. Principalmente se quem estiver tentando a lembrança tiver mais de 30 anos. E quando nominamos aqui algumas das profissões que foram extintas, muita gente vai se surpreender com as mudanças do mundo, do século passado para o atual.
Lembro que eu tinha mais ou menos 12 anos e adorava jogar bola no campinho, próximo de casa, no Jaçanã - aquele bairro de São Paulo imortalizado pelo trem de Adoniram Barbosa. Pois no campinho, tinha uma senhora que quase sempre saia com a vassoura em mãos atrás da molecada. Dona Sebastiana era uma lavadeira. Já existiam lavanderias, mas ela ainda era do tempo em que passava nas casas das "freguesas" para apanhar as trouxas de roupa para lavar. Ela estendia nos varais que ficavam próximos ao campinho. Uma bola mal chutada e a coitada tinha que refazer o serviço. Não faltavam reclamações, inclusive para minha mãe, uma das "freguesas" da dona Sebastiana.
Assim como quase não existem mais lavadeiras - ou as que existem trabalham em esquema quase comercial -, outras profissões ou ocupações deixaram de existir. Uma delas é o técnico de máquina de escrever. Sempre que havia algum problema como quebrar uma tecla ou mesmo cair a letra que seria impressa, ou o carro da máquina travar, lá vinha a figura do técnico, com seu fiel tubinho de óleo para engrenagens, dar um jeito na situação.
Ele aproveitava até para trocar a fita da máquina. Como andam os que, naqueles tempos, fabricavam fita para máquina de escrever ou calcular?  O que dizer, então, do datilógrafo? Lembro que era um cargo almejado por muitos em início de carreira. Era preciso ter uma certa velocidade, de pelo menos 100 caracteres por minuto. Teste de datilografia era eliminatório em muitas entrevistas de emprego. E a maioria das pessoas tinha diploma de datilografia.
Outras carreiras curiosas também se tornaram raras. Na minha época, as matinês do Cine Valparaíso, no bairro do Tucuruvi, próximo a Santana, eram concorridas. E lá tinha um profissional muito talentoso, que atraia os cinéfilos. Era o cartazista, ou pintor de cartazes e letreiros de filmes. Hoje não tem mais como imaginar alguém trabalhando em cinemas de shoppings nessa função. Já vem tudo impresso. Mas antes eles ampliavam as fotografias dos filmes em cartazes desenhados para chamar mais público.
Certa vez, andei pelos lados da Praça das Bandeiras, próximo ao Edifício Joelma, aquele que pegou fogo em 1974, matando mais de uma centena de pessoas. Naquela região, próximo onde funciona a Câmara Municipal de São Paulo, havia uma grande concentração de pintores de cartazes. Daqueles que pintavam um cartaz, por exemplo, de um determinado comércio. Eu era "office-boy", profissão que também não é mais tão comum, e procurava um pintor para fazer uma faixa indicando mudança de endereço do escritório de meu patrão advogado.
Já morando em Ribeirão Preto, lembro que precisamos fazer um jornal com um anúncio do governo do Estado. Só que o anúncio requisitava clichê da foto. Rodei bastante até achar quem fizesse clichê de fotografia para impressão. Outro cargo que não existe mais hoje em dia. Assim como linotipista - carreira que meu pai exerceu por muitos anos na gráfica da Polícia Militar -, gravador de chapas fotográficas ou outras carreiras afins na área gráfica.
Lembro também de uma exótica e, porque não dizer, nojenta função. Em grande parte das igrejas, na hora da homilia - também conhecido por sermão -, havia concentração de homens fumando às portas do templo, enquanto o padre falava, basicamente, para as mulheres e crianças. Para ajudar os fumantes, havia um objeto muito usado, a escarradeira. Aliás, em uma cena do terceiro filme da trilogia De Volta Para o Futuro, a escarradeira é o objeto que dá início a um duelo ocorrido no final da película. Pois tinha também limpador de escarradeira, um profissional que, a exemplo do jardineiro, se apresentava para oferecer seus préstimos aos locais onde havia tal objeto instalado.
Quando trabalhava na TV Ribeirão, muita notícia chegava via telex. Para que isso ocorresse, havia o operador de telex, cargo indispensável para agilizar informações vindas de longe. Muita gente deve estar se lembrando de outras carreiras extintas. Fala-se muito em carreiras de futuro, mas nunca é demais lembrar de algumas que ficaram no passado, mesmo que por conta de curiosidades ou simples diversão. Afinal, muita gente se manteve trabalhando com algo que hoje não existe e que há quem sequer imagina que existiu um dia.

Acrescentando o link da Fani:

  1. E obrigado, mais uma vez, Fani, por dicas interessantes. 

2 comentários:

  1. Para ilustrar o texto do Adalberto Luque, encontrei estas fotos muito boas. As profissões modificaram, outras ainda existem. http://profissoes.web.simplesnet.pt/

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  2. Nossa, muitas dessas eu nem conhecia

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