quinta-feira, 19 de abril de 2012

Talento que brota até nas pedras

A porta do necrotério se abre. Sobre a mesa fria, o corpo recém-costurado. Entram na sala o delegado acompanhado de dois investigadores. Como de costume, o auxiliar de necrópsia vai em direção ao grupo que acabara de chegar e estende a mão para cumprimentar o delegado. "Não dou a mão em quem mexe em cadáver", disse friamente o delegado.
A cena nunca saiu da lembrança do policial civil que havia acabado de necropsiar aquele corpo. Ele contou que foi fato isolado, mas o suficiente para marcá-lo por toda a vida. A história me foi contada durante uma reportagem especial que fiz sobre a carreira de auxiliar de necrópsia, uma carreira da Polícia Civil de fundamental importância para esclarecimento de crimes e mortes violentas. Sob a supervisão do médico legista, é o auxiliar quem executa os cortes no corpo durante uma necrópsia. E mesmo sem faculdade de medicina, não raras as vezes é o auxiliar quem alerta ao legista sobre marcas não observadas num corpo pelo profissional médico.
Mas até o próprio auxiliar de necrópsia admite que é uma árdua tarefa. Por isso meu entrevistado conta que encontrou em outra atividade forças para superar as dificuldades da carreira. Ele tornou-se um damista, aquele que disputa partidas oficiais de damas, o tradicional jogo disputado no mesmo tabuleiro do xadrez. Hoje coleciona medalhas nos torneios da terceira idade.
Assim como o auxiliar de necrópsia, outros policiais civis acabam descobrindo talentos para suportar a estressante missão de combater a criminalidade. Foi o que descobri ao longo de 18 anos atuando especificamente na área policial. Não que essa fosse minha área preferida, mas como em nossa vida nem tudo é um roteiro de novela, muitas vezes a oportunidade se apresenta e é preciso abraçá-la.
É claro que há maus policiais. Assim como há maus jornalistas, maus médicos e maus profissionais em geral. Mas particularmente a carreira policial sofre com um crime hediondo, o da generalização. Principalmente por conta da própria imprensa, que explora à exaustão as ações nefastas dos maus policiais e se omite em mostrar o lado humano do profissional que se dedica à segurança pública.
E foi graças à ideia da presidente do Sinpol (Sindicato dos Policiais Civis da Região de Ribeirão Preto), Maria Alzira da Silva Corrêa, que descobri não serem raros os policiais a terem atividades, no mínimo, curiosas para quem atua no combate ao crime. Conheci um policial civil que dedica-se, na sua apertada sacada de apartamento, à pintura. Mesmo tendo à sua frente uma selva de pedra, ele pinta belas paisagens da natureza, graças à sua imaginação.
Também conheci uma escrivã que se dedica à dança do ventre. Nos trabalhos manuais, foram vários exemplos. Tem policial civil que confecciona artesanato e tem uma das barracas mais concorridas na tradicional feirinha dominical, em frente à Catedral. Há também outro que tem um enorme talento para criar decorações para festas infantis. É só dar o tema que ele faz tudo conforme o gosto do cliente.
Outro caso muito interessante foi o de uma policial civil que é formada em música e é um nome respeitado no acordeão. Ela integra um famoso sexteto que anima muitas noites no coreto de uma praça próximo ao Centro de Ribeirão Preto com suas serestas repletas de chorinho.
Mais recentemente, conheci o Leão Branco, um carcereiro que é locutor de rodeios. Ele pretende decidar-se à carreira artística assim que se aposentar, mas por conta de sua paixão pelos rodeios, já gravou cds, escreveu um livro e ganhou concursos de trovas de rodeios.
E todos estes policiais se dedicam apesar das dificuldades da carreira. Talvez muitos não saibam, mas o estado mais rico do Brasil é um dos que pior remunera o profissional da segurança pública. Assim como o faz com o da saúde, da educação. E o que aprendi nestes 18 anos de atuação na área profissional é que, de fato, generalizar é um crime gravíssimo. Como costuma dizer o auxiliar de necrópsia que se tornou campeão de damas, talento brota até nas pedras, quando se busca.

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