quarta-feira, 11 de abril de 2012

União Marabá, a cidadania através do futebol

Que o futebol é a esperança de uma vida melhor para muitas pessoas, quase todos sabem. Mas que uma simples ação social pode ajudar e dar, através do esporte uma condição melhor de vida nem todos sabem. E foi através da vontade de integrar a sociedade que uma conversa de pai e filho, num domingo de céu encoberto no outono de Guarulhos deu origem, há 21 anos, ao União Marabá.
Formado em contabilidade e torcedor fanático do Corinthians - ninguém é perfeito, meu amigo... -, Eduardo Theodoro conversava com seu pai, Laul Theodoro, no portão de casa, sobre a falta de opções de lazer das crianças que moravam no Parque Marabá. Eles assistiam a uma das muitas peladas de rua realizadas no bairro, que não dispunha de centros esportivos e de recreação para a população menos abastada que era maioria naquela região.
E foi entre dribles com uma velha bola de "capotão" faltando alguns gomos de couro e gols na improvisada marcação com pedras colocadas, uma de cada lado, onde surgiam imaginárias traves e travessões, é que os dois tiveram a feliz ideia de alugar um local para entreter a garotada através da prática de futebol.
Com recursos próprios, os dois bancaram alguns aluguéis de uma quadra de esportes, localizada no bairro vizinho da Vila Galvão. Para muitos garotos, aquela era a única opção de lazer seguro que tinham, afinal, jogar futebol na rua era sempre um risco, sem dizer que o jogo era interrompido a cada carro que passava pelo local.
Em pouco tempo, mais de 50 crianças frequentavam os treinos do União Marabá. A falta de recursos fez com que pai e filho mudassem o projeto de local, passando a atuar no CSU (Centro Social Urbano Jairo Furini), anexo à favela São Rafael, na Vila Galvão. Foram tempos difíceis, em que a dedicação dos dois foi o primeiro passo para agregar mais pessoas no projeto. Compravam tudo do próprio bolso: bolas, camisas, locação de área. E o União Marabá foi ganhando forma e novos colaboradores.
Como costuma dizer Eduardo, "numa região de baixo desenvolvimento social, 'jogar futebol' era, muitas vezes, a única opção de diversão para as crianças que passaram a frequentar as aulas do União Marabá". A essa altura, chegavam mais pessoas para compor o projeto e ajudá-lo a se desenvolver.
Neste período, engajaram-se à associação, pessoas ligadas à igreja católica, e as colaborações foram importantíssimas. Padre Lazinho, Padre  Jair Benedito - à época ainda seminarista -e Luisa Brunelli, coordenadora da catequese, foram os responsáveis em iniciar os trabalhos sociais. "Wagner Pereira Neto, Weber Machado (Fofo), Bispo, Betânia, Coelho, Rubinho, Angélica Baggio, Manoel Félix, Raimunda Félix, Claudinha, Dona Maria, são igualmente nomes que não poderiam deixar de serem citados", acrescenta Eduardo.
Crianças de várias partes, principalmente da favela localizada ao lado de onde passou a funcionar o União Marabá, passaram a frequentar o local. E Laul Theodoro, falecido há alguns anos, já mostrava que seu faro era inigualável, garimpando possíveis talentos, não só dentro das quatro linhas, mas para trabalhar com o esporte. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o garoto Cícero Silva Pastoura. Naquela época, Cícero era morador da Favela São Rafael e "seu" Laul insistiu em trabalhar com ele. Hoje tornou-se técnico de um time na região e cria grandes oportunidades para os garotos formados na base do União Marabá.
"O trabalho cresceu e passou a marcar presença em Guarulhos, configurando-se numa das únicas associações com foco exclusivamente social", lembra Eduardo. Centenas, talvez milhares de garotos já passaram pelo União Marabá e, certamente, a ideia de aliar o esporte a um auxílio na formação do caráter do cidadão, da importância em se conquistar a cidadania, foi uma semente que germinou. Desde 2009, o União Marabá conta com uma escola de futebol de campo. Quem tem condições, paga e ajuda a custear as aulas daqueles que não têm condições. Respeitado, o grupo do União Marabá é constantemente convidado a participar de peneiras de grandes clubes e já revelou alguns talentos dos gramados. Também encaminhou muita gente para trabalhar com o esporte.
E o Ministério do Esporte dedica milhões a projetos que vem sendo questionados, como a escola de pilotos  de automobilismo do narrador Galvão Bueno ou para a carreira no exterior do piloto e neto do bi-campeão mundial Emerson Fittipaldi, apenas para ficar em dois exemplos, enquanto projetos de cunho realmente social ficam à margem das verbas públicas.
Parece que foi ontem. Aquele 7 de abril de 1991 tinha tudo para ser apenas mais um monótono domingo. Mas a conversa do pai Laul e do filho Eduardo, que tinha tudo para acabar à mesa, durante o tradicional frango com polenta, mudou a vida de muita gente. Parabéns ao União Marabá, pelos 21 anos de ação social e esportiva.

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