quinta-feira, 24 de maio de 2012

Direito de greve

É inegável que as relações de trabalho no Brasil estão longe de serem aceitáveis. Também é inegável que é justo e legítimo ao trabalhador exercer seu direito de se organizar para pressionar através da greve. Mas o assunto já rendeu o que poderia ter rendido. Não há santos ou ingênuos nos dois lados de uma negociação por melhores salários e condições de trabalho. Ao contrário. Hoje a máquina sindical é voraz, bem aparelhada, rica.
Por outro lado, os patrões insistem em propostas irrisórias, arcaicas, bem ao estilo dos senhores feudais da idade média. Isso, deixe-se bem claro, não é algo generalizado, mas algo que atinge à maioria das grandes greves deflagradas pelo País afora.
Ontem, na greve do Metrô paulistano, o governador Geraldo Alckmin veio a público acusando o movimento de ser político. Ele não deixa de ter razão. Foi um movimento vergonhosamente político, aproveitando-se de um momento pré-eleitoral. Por outro lado, o senhor governador, como de costume, mesmo sabendo da concreta possibilidade de sua realização, não fez nada para impedir. E depois vai à mídia posar de coitadinho, de que estão explorando politicamente a questão. Da mesma forma como ele o fez ontem.
Hipocrisias à parte, que se deixe claro uma coisa: os trabalhadores do Metrô foram usados como massa de manobra. De um lado, o governo e seus pares. De outro, os sindicalistas e suas centrais sindicais. Hoje o dia do trabalho, comemorado em 1º de maio, por conta do crescimento das centrais sindicais, é um megaevento. Multidões se reúnem para megashows em palcos gigantescos, com todo aparato e pompa possíveis, onde além de grandes nomes da música de apelo popular, os milhares de presentes também concorrem a sorteios de que vão de automóveis zero quilômetro a apartamentos ou casas.
Para que haja esse sorteio, essa despesa, é preciso haver receita. E as centrais souberam muito bem, ao longo dos anos, captar tais receitas. Bem diferente de outros tempos. Lembro de um distante 1º de maio, em 1984, quando Mário Covas era prefeito. Interditaram a avenida Paulista, montaram um palco e houve uma série de shows patrocinados pela prefeitura. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) ainda dava seus primeiros passos. Os shows eram de bandas independentes, que frequentavam o universo underground paulistano, que gravavam seus discos pela saudosa Lira Paulistana, um selo fonográfico igualmente independente, ligado ao Teatro Lira Paulistana.
Naquele 1º de Maio, apresentaram-se nomes como Premeditando o Breque, Grupo Rumo, Língua de Trapo, entre outros. Agora são megashows com nomes que frequentam a lista de shows mais caros do Brasil. Pago pelas centrais sindicais, invariavelmente.
Existe o sindicalismo sério, é bem verdade. Aliás, é praticado pela maioria dos sindicatos. Mas existem muitos oportunistas que, diante dos descontos compulsórios no contracheque dos trabalhadores, mantêm máquinas em atividade. Longe, como já disse, de querer questionar o legítimo direito de greve. Mas essa situação precisa ser urgentemente revista, quando o principal prejudicado é o povo.
O que se viu ontem, em São Paulo, não é algo único. Tem ocorrido sistematicamente. Durante boa parte do ano passado, por exemplo, os residentes do HC (Hospital das Clínicas) de Ribeirão Preto exerceram seu justo direito de greve. Em contrapartida, pessoas de centenas de cidades da região e até distantes, que mandam seus doentes em ônibus diariamente, se viram prejudicadas pelo cancelamento de consultas, cirurgias e tratamentos.
O jornal A Cidade, de Ribeirão Preto, divulgou que, da média anual de 80 cirurgias bariátricas - para a redução do estômago em pessoas que sofrem de obesidade mórbida - feitas anualmente, apenas três foram feitas em um ano no HC.
E ontem o povo novamente sofreu. Congestionamento histórico, batendo na casa dos 300 quilômetros em uma cidade cotidianamente caótica, onde metroviários e ferroviários deixaram boa parte da população sem transporte e com muitos transtornos. De um lado, os trabalhadores e seus sindicatos não quiseram evitar o caos e avisaram horas antes do início do movimento grevista. De outro o governo que está acostumado a dar de ombros aos direitos e reivindicações dos trabalhadores que costuma vir a público quando se vê encurralado dizendo ser vítima de movimento político para desestabilizá-lo às vésperas de eleição. Não deixa de ter razão, pois as greves quase não ocorreram em 2011 e começam a se multiplicar em 2012. Mas também têm razão os trabalhadores. O que ninguém pode esquecer é que no centro dessa briga está o maior prejudicado: o povo brasileiro.

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