No último final de semana estive no Teatro Ribcena, em Ribeirão Preto, para assistir à peça Mulheres Vermelhas, dirigida por Gilson Filho. Apesar de já conhecer o brilhante trabalho realizado pelo grupo Ribeirão Em Cena, confesso que me surpreendi com a qualidade do texto encenado e com todos os detalhes apresentados durante o espetáculo.
Mulheres Vermelhas é uma obra que conta a história de coragem e determinação daquelas que ousaram enfrentar, no Brasil, as ditaduras do Governo Vargas e do governo militar. O primeiro iniciado em meados de 1930 e que durou até a II Guerra Mundial e o segundo que se instalou no Brasil nos chamados "Anos de Chumbo", entre 1964 e 1985.
A peça foi inspirada em diversas obras que abordaram dos dois períodos cíclicos na história brasileira, como Mulheres que foram à luta armada, de Luiz Maklouf de Carvalho;
A resistência da mulher à Ditadura Militar no Brasil, de Ana
Maria Collins; Olga, de Fernando Morais; Luta:
substantivo feminino, da Secretaria Especial de Direitos Humanos;
"Batismo de Sangue”, de Frei Betto; e 1968 O ano que
não terminou de Zuenir Ventura.
Mas também valoriza a história das mulheres de Ribeirão Preto que, durante a ditadura militar, foram violentamente torturadas e, prisões por agentes que demonstravam sadismo, impiedade e total falta de respeito para com o ser humano.
Entre tantas histórias de mulheres que sofreram e até morreram pelas mãos dos agentes das ditaduras, duas se destacam: a da mulher de Luiz Carlos Prestes, a alemã judia Olga Benário Prestes e a da estilista de moda Zuzu Angel.
Olga era militante comunista e veio para o Brasil lutar ao lado do marido, Luiz Carlos Prestes, considerado um dos maiores inimigos do getulismo, que se instalara no Brasil. Perseguida, foi presa e torturada. Mesmo grávida, foi enviada para a Alemanha nazista, onde morreu em um campo de concentração, executada numa câmera de gás.
Zuzu havia sido casada com um norte-americano com quem teve um filho, Stuart Angel. Ele e sua esposa se engajaram na luta contra a ditadura e os dois acabaram mortos. A mulher numa unidade do exército, em 1973. Stuart em 1971, numa base da marinha. A estilista, então, passou a denunciar a tortura e as execuções praticadas pelos militares e exigia o corpo de seu filho para que pudesse sepultá-lo com dignidade. Um "acidente" de trânsito acabou matando-a sem conseguir enterrar o corpo de seu filho.
A história conta ainda a saga das ribeirão-pretanas Aurea Moretti, Maria Aparecida dos Santos e de Madre Maurina Borges. Todas foram barbaramente torturadas nos porões da ditadura. Tema forte, com interpretações excelente, direção impecável, trilha sonora sob medida, iluminação que impressiona. Tudo muito bem apresentado num teatro perfeito para o espetáculo. Gilson Filho e sua equipe estão de parabéns pela qualidade.
O Ribeirão Em Cena é um instituto cultural criado em 2001 com o objetivo de promover o ensino e a difusão do teatro, proporcionando inclusão sociocultural e educacional. Já revelou grandes talentos para o palco e mantém uma produção teatral em alto nível. O Teatro Ribcena fica na Rua Lafaiete, 1084, em Ribeirão Preto. A atual temporada foi iniciada em 11 de maio de 2012 e o grupo deve percorrer várias cidades, como Curitiba, Londrina, Maringá, São Paulo, Recife, Pinhal, Votuporanga, Catanduva,
Sertãozinho, Batatais e São Simão.
A agenda pode ser acionada através do
site www.ribeiraoemcena.org.br
Realmente uma peça muito boa. Achei muito interessante o trabalho sólido musical que foi feito com os atores, que muitas vezes é esquecido. Uma peça completa.
ResponderExcluir