segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Espanhol

Conheci José Carlos em 1995. Ele é daqueles tradicionais frequentadores da Única, um café em Ribeirão Preto famosa por ter sido palco de muitos negócios fechados nos tempos em que o fio de bigode valia muito mais que qualquer assinatura. Para quem não é de Ribeirão Preto se situar, a Única é um café que está localizado na esquina oposta, no mesmo quarteirão onde surgiu o Pinguim, a choperia tida como a mais famosa do Brasil.
José Carlos sempre foi vendedor de mão cheia. Também conhecido por Espanhol, dada a sua descendência, ele começou trabalhando em banco, mas tomou gosto mesmo pelo contato direto, olho no olho, com seus clientes. Tornou-se, então, representante comercial. Um dos melhores que conheci.
Com seu jeito tranquilo, acabava envolvendo o cliente com seu carisma. De riso fácil, otimista por natureza, vender era com ele. Quanto maior o desafio, melhor para o Espanhol. Corintiano fanático, adorava zombar com os torcedores dos times rivais, principalmente quando seu timão estava por cima. Gostava de viajar para vender os produtos que representava e, em suas viagens, não dispensava a boêmia. Saia, invariavelmente, todas as noites.
Nem mesmo quando viajava em companhia de outro representante comercial, deixava de aproveitar a noite. E foi por conta desses excessos que acabou desenvolvendo uma das doenças crônicas mais comuns nos dias de hoje, a diabetes. Isso, porém, não foi suficiente para tirá-lo da boa vida noturna. Apreciava os bares, as noitadas e as mulheres.
Casou-se duas vezes. Não sei se alguma delas foi no papel. E teve duas filhas. Nesse quesito, ele era bastante conservador. Ai de quem falasse de suas filhas. Virava uma onça para defender uma integridade jamais atacada ou sequer ameaçada. Mas tinha o protótipo de pai ciumento. Suas piadas sempre divertiram quem o conheceu. Mas não pela piada em si. O engraçado mesmo era ver sua risada debochada, divertida, rindo do que acabou de contar para o ouvinte.
Pois toda essa alegria cessou no último dia 10. Internado desde o dia 8 na UTI da Santa Casa de Ribeirão Preto por conta de um edema pulmonar, Espanhol ainda teve esperança de reverter a situação. Principalmente quando recebeu a notícia de que seria transferido para o quarto, para continuar o tratamento - talvez para liberar leito. Já planejava como seria seu final de semana, o primeiro dia das mães que passaria sem sua mãe, morta no final de 2011. Mas seus planos duraram exatos 20 minutos. Foi o tempo em que ele ficou no quarto, longe dos aparelhos de respiração mecânica. Acabou morrendo "afogado fora da água", pois seu pulmão voltou a encher-se de líquidos. Assim se foi o Espanhol, ao 52 anos, com muitos planos, mas que não conseguiu realizá-los. Deixa muita saudade.

Um comentário:

  1. AMIGO É COISA PRA SE GUARDAR, DO LADO ESQUERDO DO PEITOOOO.... Muitas vezes dizemos uma frase bem popular que "meus amigos verdadeiros, eu conto nos dedos das minhas mãos". Meu amigo "Zé Carlos" o espanhol, eu sempre contei nos dedos de uma só mão. Nesses 16 anos que trabalhamos no Jornal do Sinpol, tive a grata satisfação de ter sido seu parceiro em um período que me trouxe muitas alegrias. Um cara digno, justo e ético, coisa muito rara no nosso meio nos dias de hoje. Felizmente Deus repentinamente o chamou na tarde de quinta feira dia 10/05/2012, poupando-lhe dos sofrimentos da dor, deixando isso, para nós que ficamos no sofrer da sua ausência. Deixei no meu Facebook "Israel Leal de Souza" para os amigos, colegas e conhecidos, alguns momentos da nossa amizade. Deus está te levando ao encontro de seus pais, em uma fase dessa vida, nos encontraremos aí no seu novo plano.

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