sexta-feira, 25 de maio de 2012

O preço da cultura

Foi a maior expectativa. A turma toda estava ansiosa para assistir ao inédito show Uns, de Caetano Veloso. O palco não podia ser melhor: o Palácio das Convenções do Anhembi. Era considerada uma das grandes casas para shows e espetáculo com acústica perfeita. Corria o ano de 1983. Naquela época, boa parte da turma trabalhava, mas ninguém ganhava bem.
Só que não foi preciso parcelar o ingresso com cartão de crédito. Apertamos daqui e dali e, quem não teve grana para comprar o ingresso pediu emprestado. Lembro que o Hélcio - hoje doutor em reprodução de peixes pela Unesp de Jaboticabal e professor universitário em Franca e Barretos -, que era dado a trabalhos artesanais, preparou uns vitrais com a imagem de Caetano Veloso. Vendendo apenas três peças foi suficiente para pagar o empréstimo que havia feito para comprar o ingresso.
Na fila do show, uma das abordadas foi a atriz Irene Ravache, que mostrou ser narcisista: "compraria se fosse um com a minha imagem". Entramos. O Sílvio em transe, principalmente porque, além de ser um fã ardoroso do baiano Caetano, acabou sendo chamado por ele para subir ao palco, quando tentava entregar-lhe um dos vitrais do Hélcio.
Mas estávamos todos lá. O Sílvio ainda tem o ingresso, prometeu escanear para eu postar aqui, mas não cumpriu com a palavra. Que feio, Sílvio...
Bom, toda essa história é só para contar que o preço da cultura na década de 80 era muito mais acessível que nos dias atuais. Não cansamos de ir a shows. Fomos aos shows de Legião, Blitz, Paralamas, Titãs, Ultraje - esses dois, últimos eram frequentes. Também fomos a grandes eventos com bandas e cantores internacionais. Queen, Paul McCartney e tantos outros.
Fomos por uma única razão: dava para pagar o ingresso, além do que era muito mais fácil comprar naquela época do que em tempos de internet. Hoje os shows são absurdamente caros. Recentemente esteve em Ribeirão Preto o grupo The Platers, que fez sucesso na década de 50 e 60. Totalmente repaginado, é verdade, mas ainda com um integrante dos áureos tempos. Um ingresso na plateia do Theatro Pedro II custava R$ 100. Se você for acompanhado, vai morrer com R$ 200 só de ingresso. Se for de carro, tem o estacionamento, a pelo menos R$ 10 o mais barato. Aí resolve sair para comer uma pizza. A conta já ultrapassou facilmente os R$ 300. Se pensarmos que o salário mínimo é pouco mais que isso, vamos chegar à concreta conclusão de que cultura é, sim, coisa de elite.
Mas vamos fugir dos shows. Quando morava em Sampa, na década de 80, tinham várias companhias teatrais. Lembro da CER (Companhia Estável de Repertório), comandada por Antonio Fagundes. Você pagava uma mensalidade e tinha direito a assistir à peça em cartaz e aos revivais esporádicos. Assistimos grandes peças com o Fafá, como Nostradamus, O Homem Elefante e Cyrano de Bergerac. E havia outras companhias, assim como grandes peças exibidas no Teatro do Sesi, na Avenida Paulista. No bairro do Bexiga, fazíamos a festa. E olha que ninguém da minha turma ganhava bem naquela época. Todos assalariados.
Hoje, quando uma peça vem a Ribeirão Preto no Pedro II, não tem ingressos por menos de R$ 100, isso nas frisas, onde mal se enxerga alguma coisa. Em Sampa, os custos não são diferentes. Felizmente existe atualmente, como existia nos anos 1980, movimentos paralelos à cultura de elite, que começam a ganhar espaço. Projetos como o Ribeirão Em Cena, que não só revelam talentos, como trazem ao público grandes espetáculos por preço que deve ser praticado pela cultura em geral. Assim como espaços para uma boa música, como o bom e velho rock'n roll no Easy Rider Bar. Ainda resta esperança de não termos de raspar o cofre para assistir, muito esporadicamente a um ou outro espetáculo dos sonhos.

4 comentários:

  1. A grande questão disso tudo é que na verdade grandes shows de bandas consagradas, e peças de teatro com atores também consagrados são vendidos como mercadorias, e não como cultura. E sendo vendidos como mercadorias, estão sujeitos à famosa "mão invisível", de Adam Smith, que controla os mercados. O fato de o Brasil estar hoje passando por uma boa situação econômica, com índices de crescimento constantes, traz diversos benefícios à população, sem dúvidas, mas também desencadeia uma série de efeitos colaterais, entre eles a alta nos preços. Como esse crescimento tem ocorrido num espaço de tempo relativamente curto, o que se vê é que uma mesma geração que enfrentou situações econômicas adversas hoje possui uma condição muito mais favorável, e isso faz com que essas pessoas acabem libertando uma propensão ao consumo reprimida nos últimos anos. Resumindo: a pessoa que nunca teve muito dinheiro, quando ela tem um pouco sobrando, no começo ela vai comprar um monte de coisa que ela sempre quis ter e nunca pôde. E é claro, que pelo conceito básico de oferta e demanda, quanto mais gente querendo comprar ao mesmo tempo, o preço vai subir. E é justamente isso que está acontecendo. Tome como exemplo o preço dos carros no Brasil em comparação com outros países. Temos preços de 30% a 80% mais altos. Muito se fala que isso é por causa do chamado "custo Brasil", que inclui os altíssimos impostos, os custos de falta de infraestrutura, que encarece o transporte, o custo da burocracia, corrupção...etc. Sim, realmente esse custo influencia. Mas não é só isso. O grande vilão também é o "preço Brasil". Sabe porque o carro é tão caro? Porque se paga esse preço. Porque vender um carro "popular" por R$ 10.000,00 se o consumidor está disposto a pagar R$ 23.000,00 ?? E é exatamente isso que acontece com o preço dos ingressos. Temos shows e festivais em São Paulo que os ingressos normais (leia-se aqui, nada de camarotes ou áreas especiais) passa os R$ 500,00. E a pergunta é: esses shows ficam vazios? De maneira alguma...os ingressos se esgotam. Você mesmo citou, que antigamente era MUITO mais fácil de comprar o ingresso. Hoje em dia, mesmo com preços exorbitantes, todos os ingressos são vendidos. Ou seja, em se tratando de uma mercadoria, porque vender todas as mercadorias por R$50,00 se tem pessoas dispostas a comprar todas as mercadorias por R$500,00 ???
    Eu particularmente sou um dos que não está disposto a esses preços exorbitantes, e acabo ficando sujeito a eventos realmente com o cunho cultural, como shows grátis, que vez ou outras são possíveis de serem encontrados. Sempre que posso e acho interessante frequento a Virada Cultural. Recentemente, no aniversário de São Paulo (25/01), assisti ao show dos Paralamas grátis. E assim vamos indo...com as mesmas bandas, os mesmos atores, as mesmas PESSOAS, ora sendo mercadorias, ora sendo cultura.

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  2. Verdade Adal, quantos shows, peças teatrais nós fomos juntos...lembro que num desses espetáculos do Fagundes ele é quem estava na bilheteria vendendo os ingressos! Lembra do Teatro Caetano de Campos, na Praça da República? Toda semana show a preços bem populares. E sabe eu vivo me fazendo essa pergunta: "Como hoje em dia os ingressos vendidos por um preço tão exorbitante são vendidos e tão rapidamente?" Tudo bem que ainda existem algumas companhias de teatro e alguns artistas que se dispõem a oferecer preços mais acessíveis, mas infelizmente são bem poucos. Este ano a Virada Cultural em Sampa não teve uma boa estrutura, minhas filhas foram e passaram por situações de risco, ficaram bem assustadas com a falta de segurança e com as pessoas que, na maioria, não estavam para curtirem os shows e sim vandalizar e atrapalhar os verdadeiros interessados. Bem, mas esse é um outro problema cultural.

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  3. O preço dos ingressos internacionais ainda tem um extra: a meia entrada. Fora do Brasil isso é bem menos comum, então os investidores internacionais dobram o preço, de modo que quem pagaria meia paga a inteira internacional, e o pessoal da inteira paga o dobro. Desse jeito, o investimento fica seguro pra uns e inacessível pra outros. A procura pela cultura gratuita também diminuiu por algumas mudanças de hábitos. Por exemplo, na época das rodas de samba, os grandes nomes estavam acessíveis nos botecos locais. Posteriormente, na bossa nova, nos apartamentos da zona sul. Na era dos festivais, os grandes nomes se apresentavam na record. Nesses tempos, nem todos tinham acesso a um toca discos, de modo que para ouvir suas músicas favoritas, era necessário esperar tocar na rádio ou ir até o intérprete. Essa espera era capaz de tornar a música ainda mais especial, pois não podia ser ouvida a qualquer momento. Desse modo, praticava-se mais a escuta reflexiva, prestava-se mais atenção à música. A procura apenas por artistas famosos é reflexo do abandono da audição consciente. Poucos se interessam por horas ouvindo novas músicas.
    Podemos acrescentar também o próprio incentivo fiscal, que é um provável motivo pra falta de segurança que a Sandrinha verificou na virada cultural. Mas eu acredito que isso tudo possa mudar.

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  4. Esse texto rendeu ainda mais nos comentários pertinentes do Rodolfo, da Sandrinha e da Mari, além dos amigos que comentaram em outros canais. É esse o objetivo do Blog do Adal: fomentar discussões, análises, ter a participação de todos. Obrigado.

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