Nada melhor para uma sexta-feira do que falar sobre viagem. Mesmo quando nada sai como o planejado, sempre é bom viajar. A história que vou contar se passou no carnaval de 1987. Naquele ano, fazia faculdade em Mogi das Cruzes, morando em São Paulo e trabalhando em Guarulhos. Uma verdadeira maratona. Para ir de Guarulhos até a faculdade, seguia de ônibus fretado. E foi o motorista desse ônibus o contratado para levar uma turma até São Tomé das Letras, no sudeste de Minas Gerais.
Quem organizou a excursão foi meu amigo Eduardo Theodoro. Na sexta-feira, véspera de carnaval, a galera toda estava reunida em frente à Filizola, fábrica de balanças, onde e o Eduardo trabalhávamos. Quem tinha carro, deixaria o veículo estacionado na frente da empresa e seguiria de ônibus.
Deu a hora e nada do motorista chegar. Naquele tempo não tinha celular e ninguém sabia o que podia ter acontecido. Já se passaram duas horas quando alguém, não lembro quem, conseguiu contato com a sogra do motorista. A mulher dele fazia faculdade conosco e também trabalhava na Filizola de Guarulhos. Veio então a notícia: o motorista descobriu que sua mulher estava saindo com o chefe e o tempo fechou. Viagem cancelada, cada um para o seu canto.
Foi quando o Jorginho, que tinha acabado de comprar um legítimo fusca azul veio conversar comigo e com minha esposa, na época namorada. "Eu tenho o carro, mas não sei dirigir e não tenho carta. Você topa rachar combustível e irmos acampar na praia?" Opa, topei na hora.
Fomos de ônibus, com as malas e mochilas até a casa do Jorginho pegar o carro. Sua irmã também se animou e fomos os quatro. Dormimos lá e saímos por volta de 5h00, com destino ao litoral sul. Resolvemos ousar e ir até o extremo sul do litoral paulista. Ilha Comprida era nosso destino. E lá fomos nós, pela Regis Bittencourt, a famigerada estrada da morte.
Passando a entrada de Peruíbe, rodamos mais um pouco e logo chega a estradinha que dava acesso a Iguape, Cananeia e Ilha Comprida. Tudo deserto. Já estávamos com fome, o dinheiro era raro, tanto naquela época quanto hoje em dia. E era bananeira carregada para todos os lados. Ninguém vendo. Veio a ideia coletiva: comer bananas na beira da estrada. Paramos o carro, desligamos o motor, abrimos a porta e, surpresa: quando olhamos, dezenas de trabalhadores rurais nos olhando, para ver se iríamos roubar algum cacho de banana.
Disfarçamos, fingindo que descemos para esticar as canelas, beber água e seguimos até Ilha Comprida, sem paradas. Passamos lá uma noite e veio nova ideia. Vir parando pelas praias do litoral, durante o carnaval. Foi o que fizemos. Levantamos acampamento, passamos o dia conhecendo Iguape e Cananeia. Chegamos a Peruíbe e encontramos uma área para armar a barraca.
Passamos a noite em Peruíbe. Naquele ano não pudemos ir até Jureia, pois estava proibida a visitação, não lembro se só durante o carnaval ou por um período mais prolongado. Tudo bem, a estrada nos esperava. Levantamos acampamento, alojamos tudo no fusca azul do Jorginho e seguimos. Passamos o dia entre Itanhaém e Mongaguá. Então chegamos à Praia Grande. Mas lá não tinha lugar para acampar e a coisa complicou. Voltamos para Mongaguá e acampamos por lá mesmo. Naquele tempo, ainda dava.
Durante a noite, resolvemos que seria e última noite e voltaríamos na segunda de carnaval. Logo cedo, na estrada entre Mongaguá e Praia Grande, tiramos fotos com vários urubus, que fizeram belas poses. Passamos o dia parando um pouco em cada praia da nossa "Long Beach". Solemar, Balneário Tupy, Cidade Ocean, Aviação, Guilhermina e Boqueirão. Almoçamos por lá e ainda comi algumas ostras na calçada, em frente a um parque de diversão. Adoro fazer isso. Todos que têm nojo param para ver. Já chegaram a me pagar porções de ostra duvidando que eu comesse. Uma delícia.
Mas terminou ali nossa aventura no carnaval de 1987. Subimos a serra pela Imigrantes, que naquela época não era duplicada. Final de tarde, já anoitecendo e o trânsito tranquilo. Chegamos a São Paulo ainda a tempo de pular carnaval no clube à noite. Dia desses estive analisando como seria esse passeio hoje. O cenário mudou completamente. Mongaguá, por exemplo, tem construções dos dois lados da estrada, parece uma selva de pedras. Na área onde existe hoje a plataforma de pesca, que é totalmente tomada por casas no entorno, em 1987 tinha até dunas de areia. De uma coisa tenho certeza: o trânsito jamais será o mesmo. Quem não viu, não vai ver nunca mais, em pleno carnaval, o litoral daquele jeito tão tranquilo. Um detalhe: no fusca azul do Jorginho, tinha tape (sim, o toca-fitas, algo hoje pré-histórico). E andamos boa parte do tempo ouvindo Premeditando o Breque, principalmente a música Fim de Semana. Conhece? Bom final de semana a todos.
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