terça-feira, 22 de maio de 2012

A virada na virada

Ribeirão Preto não fez parte, neste ano, do movimento de Virada Cultural do interior paulista, como vinha integrando em anos anteriores. Vários motivos foram elencados como possíveis responsáveis pela não realização do evento: falta de força política da atual prefeita, falta de interesse do governador em Ribeirão Preto - não só no setor de cultura -, falta de um local compatível para a sua realização, entre outros.
Cada argumento tem lá suas razões para indicar a não realização do movimento em Ribeirão Preto, inclusive o local: o Teatro de Arena, um marco na cultura da cidade, está se deteriorando e precisa urgente ser reformado. Mas ainda assim, teríamos outros locais para a realização da virada.
O que os políticos não esperavam, todavia, é que várias pessoas ligadas direta ou indiretamente à cultura se mobilizaram através de redes sociais, principalmente do facebook, para organizar um movimento marginal, paralelo, bem ao exemplo do que se fazia nas décadas de 60, 70 e 80. Um movimento que surgiu independente dos poderes, ganhou corpo e ganhou as ruas.
As manchetes dos jornais de segunda-feira davam conta de que pelo menos 10 mil pessoas participaram da virada cultural denominada "Se Vira Ribeirão", que aconteceu nos dias 19 e 20 de maio, em vários locais da cidade. A tônica do movimento foi que ele ocorreu sem a necessidade do apoio dos poderes públicos constituídos. E focaram, sobretudo, o artista local. Não foi preciso "importar" shows que chegam como "esmolas" às cidades do interior, bancados com o dinheiro público, de grupos famosos e com qualidade cultural duvidosa. Sim, pois ao contrário de São Paulo, o interior se contenta com shows enlatados de artistas que percorrem durante o período da realização da Virada Cultural do Interior várias cidades que participam do projeto.
O exemplo de Ribeirão Preto deve ser melhor estudado pelas nossas autoridades. A cultura da cidade que também tem o epiteto de "Capital da Cultura" voltou a aflorar. Uma nova geração de ótimos artistas está surgindo, seja na música, nas artes, na dança ou em outras formas variadas de expressão. E o melhor de tudo isso é que a população aderiu ao movimento.
Ribeirão Preto tem dado bons exemplos ao país nos últimos tempos de que o povo pode e deve se organizar independente de lideranças políticas. Assim foi no caso da campanha que exigiu e conseguiu reduzir o número de vereadores. A cidade tem 20 e passaria a 27 cadeiras na próxima legislatura. O movimento "20 vereadores bastam para Ribeirão" ganhou as ruas e os edis acabaram revendo o assunto e o aumento será de apenas duas cadeiras, embora muitos ainda pretendam continuar até que se consiga manter em 20. De qualquer forma, foi uma importante vitória.
Outro movimento importante foi o panelaço. Estudantes e trabalhadores indignados com o aumento dos vereadores saíram às ruas e protestaram contra os mais de 39% aplicados aos salários dos edis na próxima legislatura. O índice também foi revisto.
Agora vem a virada cultural. Se os políticos no poder querem continuar acertando, que tomem por base esse movimento e, nas próximas viradas, em vez de gastar rios de dinheiro com cultura de massa, podem prestigiar os artistas locais, investindo muito menos e movimentando a indústria cultural regional. Parabéns a todos os que, mesmo diante das dificuldades, levaram adiante o "Se Vira Ribeirão".

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