Ao contrário do que muita gente pensa, água e óleo misturam-se, sim. Todavia, não se dissolvem, o que faz com que o sistema água+óleo seja uma mistura, não uma solução. No caso da aliança entre o PT de Lula e o PP de Maluf, pelo jeito houve mistura e solução no acordo alinhavado para a candidatura de Hadad à prefeitura paulistana. Melhor fez Luiza Erundina, que deixou de ser vice na chapa do PT por conta dessa aliança.
Toda essa situação me remete ao ano de 1982, quando por conta de movimento estudantil secundarista, ainda sob o resquício da ditadura militar, conheci o PT. Naquele tempo quem era engajado em algum movimento, estudantil ou sindical, fatalmente simpatizava com o PT. E simpatizar com o PT, nos anos 1980, fatalmente era ir contra Maluf.
Já faz muito tempo que não me considero mais petista, embora possa votar tanto em candidatos deste partido, quando em candidatos do PP de Maluf. Quando ficamos mais velhos, normalmente enxergamos a coisa com outros olhos e acabamos optando em o que nos é melhor, independente de ideologias. Falo isso não generalizando.
Mas ideologia é coisa que há muito o PT deixou de lado. E tento imaginar alguns amigos meus, grandes amigos, que ainda se consideram petistas. Como aquele militante ou simpatizante do partido, forjado nos anos 1980, vê essa aliança, a meu ver, espúria?
Não tem nada mais preciso para definir isso do que a música do genial Chico Buarque de Holanda, "Quem te viu, quem te vê". Basta acompanhar alguns versos:
"Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala (PT: a esperança de trabalhadores e intelectuais)
Você era a favorita onde eu era mestre-sala (era a certeza do voto daquele público)
Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua (o PT afastou-se das bases verdadeiras)
Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua (hoje vive sob os holofotes, esquecendo-se a que veio)
Quando o samba começava você era a mais brilhante (nos calorosos debates dos anos 1980, ninguém calava o PT e seus candidatos)
E se a gente se cansava, você só seguia adiante (seus representantes não se curvavam e denunciavam toda a falcatrua da época)
Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado (quanto tempo faz que não vejo uma manifestação autêntica da militância)
Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado (quando chegou à presidência da República, a história mudou)
Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria (vai de acordo com as alianças que faz, sob a premissa de que ninguém governa sozinho)
Quero que você assista na mais fina companhia (com seus "grandes" acordos políticos, até anos atrás, surpreendeu até mesmo adversários históricos)
Se você sentir saudade, por favor não dê na vista (hoje não é mais o representante dos trabalhadores e estudantes, da forma como fazia no início de sua jornada)
Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista (e tem feito exatamente isso quando dá de ombros para movimentos, como o sindical, que também desviou de seu caminho com centrais sindicais que mais se preocupam em crescer e ter poder do que, de fato, representar o trabalhador - não generalizando, mas também não correndo o risco errar ao afirmar que é a maioria)
(e vamos ao refrão:)
Hoje o samba saiu, lá lalaiá, procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer"
Com o refrão, é covardia acrescentar algo, não é mesmo? Sintetiza bem a aliança que surpreendeu a todos, anunciada nesta semana. PT, saudações.
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