Conheci o Henrique no começo da década de 1970. Ele tem 10 anos a mais que eu e já cursava engenharia civil, enquanto dava meus primeiros passos na alfabetização. Mas sempre foi um sujeito tranquilo, boa praça, que gostava de filosofar.
Henrique cresceu nos anos 1960, diante da turbulência em torno da ditadura militar e dos movimentos culturais. Sempre gostou do bom e velho rock'n roll e, de certa forma, acabou me influenciando. Foi dele meu primeiro compacto - no tempo dos bolachões, havia os LP's (long plays) e os compactos, que eram pequenos discos com duas ou, no máximo, quatro músicas em seus dois lados. Era do Creedence Clearwater Revival, disco que tenho até hoje, embora não tenha mais onde tocá-lo. Também gostava muito de Beatles. E era sãopaulino, talvez nos três casos tenha me influenciado bastante.
O tempo foi passando e lá estava eu no segundo grau, hoje ensino médio. Estudava pela manhã e trabalhava à tarde com o irmão do Henrique, o Ângelo, advogado recém-formado com um escritório da Rua Tabatinguera, centro de São Paulo. A essa altura, Henrique já cursava outra faculdade, em Campinas, trabalhava em uma grande construtora, mas queria mesmo era ter seu próprio negócio. Sempre afirmou que gostava de construir, de ser um construtor.
E acabou me convidando para trabalhar com ele, tornando-se então, meu segundo patrão. Era muito interessante conviver com alguém tão tranquilo. E que acabava sendo extremamente didático. Tudo para ele era motivo de filosofar. Sempre discutia todos os pontos de vista, todas as dúvidas, para se chegar a uma conclusão. Tudo tinha de ter uma razão concreta.
Enquanto filosofava, começava seu caminho de construtor. Uma capelinha próxima de onde está atualmente o Terminal Rodoviário do Tietê foi totalmente reformada e ganhou um novo telhado graças a um projeto do Henrique. Isso lhe rendeu uma reforma de casa na Vila Ede, zona norte de São Paulo, além de uma outra na rua Cardoso de Almeida, próxima ao estádio do Pacaembu.
O tempo passou, acabei saindo da empresa e trilhando outros caminhos, fiz faculdade, casei e não vi mais o Henrique. Até que o facebook surgiu. Encontrei o cara por lá. Tentei contato, levou cerca de um mês. Sim, sou um adepto tardio do face, relutei muito em aderir a essa rede social. Mas acabou dando certo e hoje fico algumas horas por semana vendo, revendo e conhecendo amigos, virtuais e reais.
E o Henrique estava lá, dizendo que não havia mudado tanto, apesar do tempo. E que deveríamos marcar um almoço, um churrasco e coisa do gênero. Mas a distância não é minha aliada no caso de amizades antigas, afinal, não moro mais em São Paulo, estou a mais de 300 quilômetros de onde cresci.
Até que na semana passada, quando chegava em casa, toca o celular. Era o Henrique, reconheci imediatamente a sua voz. O mesmo tom calmo e otimista de 30 anos antes. Convidou-me para sua festa de aniversário. Tinha outro compromisso, mas sabia que não podia perder a chance e fui para Sampa com a família, encontrar o Henrique.
É impressionante como algumas pessoas são lineares em suas vidas. Talvez pelo gosto de filosofar, Henrique continua do mesmo jeito de antes. Sereno, tranquilo, sempre de bem com a vida, sempre querendo curtir tudo e todos. E sua filosofia não é barata, afinal como ele mesmo diz, vamos todos morrer, essa é a certeza. Que possamos então conviver. E haja amigos. Henrique continua construindo não só amizades. É um grande construtor de prédios residenciais, comerciais, enfim, sempre edificando. E não se limita só às zonas sul e oeste de São Paulo, não. Tem construções em vários pontos, inclusive na badalada praia de Astúrias, no Guarujá, litoral paulista.
Lá ele construiu três torres. Mas não perde o seu jeito sereno. E acaba estimulando você a encontrar respostas para suas perguntas. Se você lhe pergunta algo, ele não responde diretamente, te dá instrumentos para que você mesmo responda à sua pergunta. Mesmo quando seja sobre a vida dele. Aos cinquenta e poucos anos, Henrique segue a vida como de costume, ao prazer da arte de filosofar.
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