Foi o meu genro quem chamou a atenção para o assunto. Nada mais natural, afinal ele cresceu em Brasília, cidade de pouquíssimas esquinas. Mas o Guilherme observou bem o estranho hábito da moçada em Ribeirão Preto: passar as noites, principalmente nos finais de semana, em postos de combustíveis, em rodas de amigo regadas a bebidas alcoólicas, normalmente vendidas nas lojas de conveniência.
Renato Russo chamou minha geração em uma de suas obras primas de "Geração Coca Cola". Se vivo estivesse, o poeta do pós-punk certamente chamaria essa atual galera de "Geração Gasolina". E o problema ganhou tanto espaço que as autoridades passaram a fiscalizar os postos de combustíveis na tentativa de coibir a venda de bebidas alcoólicas, principalmente para os menores de idade, que consomem livremente.
A ação até que deu certo num primeiro momento, com a proibição do consumo nos próprios postos. Mas o problema, na verdade, acabou transferido. Hoje a moçada continua se reunindo nas imediações. Alguns para o "esquenta", antes de sair para outras "baladas". Os maiores de idade é quem fazem a "vaquinha" e compram a bebida que é partilhada com todos, inclusive os menores de idade.
Numa praça de um bairro nobre da Zona Sul de Ribeirão Preto, próximo à Avenida João Fiúsa, os jovens passaram a se reunir para passar a noite. O local fica a cerca de um quarteirão do posto de combustíveis. Lá, dividem-se entre vários bandos e consomem bebidas, algumas das quais com teor alcoólico tão alto que talvez seja possível até acender churrasqueira com ela. Alguns vão mais além e consomem outras substâncias proibidas. Um colega meu, policial militar e constantemente atuando nas rondas, disse que os PMs apelidaram aquele local de praça do "Você sabe com quem está falando?".
Ele conta que nas abordagens, vem sempre a frase intimidatória e que já presenciou a chegada de pais dos adolescentes que se apresentaram como autoridades, destratando os policiais militares e negando que houvesse qualquer irregularidade. Simplesmente passando a mão na cabeça dos filhos e ensinando-os como se deve fazer para não se tornar um cidadão digno.
A praça, que durante o dia e início da noite é frequentada por famílias, por pessoas que praticam caminhada, corrida, ou que se reúnem para jogar futebol, brincar de skate ou bicicleta, tem outro público na penumbra da noite. Quando amanhece, principalmente nas manhãs de sábados e domingos, a situação é deplorável. Geralmente aos domingos, pela manhã, levo minha cachorrinha Pandora para uma volta. Quer dizer, levava. Acaba sendo uma caminhada de risco.
Sim, a praça mais parece um cenário pós-guerra. Garrafas de cerveja, vodka, vinho e até de uísque espalhadas. Muitas quebradas, tudo jogado pelo chão da praça, pelo gramado. Até no meio da rua. Já cheguei a encontrar latas amassadas, que normalmente são utilizadas para o consumo de crack. A equipe de limpeza tem, de verdade, um grande trabalho para deixar a praça em ordem para aqueles que virão, ao longo do dia, fazer sua caminhada, sua corrida, seus exercícios nos equipamentos. Para que aqueles que vão praticar skate, andar de bicicleta ou jogar uma bola não sejam feridos por destroços deixados pela moçada do "agito". E assim segue a vida: durante o dia uma geração mais saudável. À noite, na penumbra e abastecidos de muita bebida e talvez de drogas, chegam os da Geração Gasolina, composta por gente de classe média e alta.
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