sexta-feira, 15 de junho de 2012

A velha ridícula

Que o continente europeu é belo, ninguém tem dúvida alguma. Tem uma história riquíssima, é o berço da civilização ocidental, responsável pela forma de sociedade em que vivemos. Tem também paisagens e monumentos incríveis e viajar pelos países do "velho mundo" é uma experiência que quem tem jamais esquece.
Mas a princesa da mitologia grega por quem Zeus se apaixonou e sequestrou-a para viver em Creta como mortal, aquela mesma que deu nome ao continente europeu, deve estar se remoendo. A bela Europa deve ter se arrependido de emprestar seu nome para batizar um continente tão belo e ao mesmo tempo tão retrógrado.
O que se viu na Europa do pós-2ª Guerra foi um continente semi-destruído, lutando para se reerguer e, em meio a esta luta, acabou fortemente dividido em dois blocos, com um símbolo supremo dessa divisão: o muro de Berlin, que cortava a Alemanha, literalmente, ao meio. Capitalismo e comunismo, numa guerra fria, se desafiavam e se enfrentavam secretamente e escancaradamente, dependendo da situação.
O mundo foi adiante, o muro caiu, alguns países seguiram mais à esquerda, outros radicalmente à direita. A Europa unificou sua moeda, criando o Euro e boa parte dos países aderiram a ela. Mas não acompanharam a evolução mundial.
Enquanto o mundo seguia adiante, práticas preconceituosas, discriminatórias e anti-semitas continuaram arraigadas na cultura europeia. Além, obviamente, da tradicional soberba dos povos do berço ocidental em relação aos habitantes de outras regiões. Sempre com ares de superioridade, os europeus seguiram ditando as regras mundiais em vários aspectos. No máximo, seguiam aos Estados Unidos, mas jamais se curvaram aos países do hemisfério sul do planeta.
Hoje o tempo prova que é senhor da razão. O continente impingiu ao mundo uma crise sem precedentes. Os países mais tradicionais e até os menos tradicionais, estão quebrados. Grécia, Espanha, Portugal, Itália e até a poderosa Alemanha de outros tempos vivem o temor da falência. Para piorar, a população desses países é velha, não se renova. Muitos acabam se obrigando a "importar" jovens de outros mundos para assumir postos de trabalho onde não há mão-de-obra qualificada para tanto.
Mas esse não é o principal problema do continente europeu. O mais grave é que, mesmo diante de tamanha crise, a mentalidade arcaica continua em alta. Basta perder uma tarde para acompanhar ao torneio de futebol que já foi um dos mais badalados do planeta, a Eurocopa. Além do péssimo futebol apresentado por grande parte das seleções - incluindo-se nesse grupo as grandes escolas mundiais -, o péssimo exemplo é visto nas arquibancadas e nos entornos dos estádios.
Grupos de hooligans - torcedores que praticam a violência gratuita - se enfrentam antes, durante e após as partidas das seleções de seus países. E o coro racista é crescente. A Polônia, que tanto sofreu durante a 2º Guerra Mundial, aniquilada pelos nazistas e depois que cresceu sob um rigoroso regime comunista e que, por conta disso deveria ser um bom exemplo, tem sido um dos maiores problemas para os organizadores do torneio.
Torcedores racistas - muitos dos quais cultuadores do nazismo que, ao contrário do que se imagina, está cada vez mais forte no velho mundo. Promovem espetáculos lamentáveis em enfrentamentos com torcedores de outros países e com a polícia que procura garantir a segurança na Polônia e na Croácia, onde os jogos são realizados.
E foi em um jogo entre a seleção croata que o racismo ficou ainda mais evidenciado, embora já fosse o terceiro caso registrado durante o torneio. Toda vez que o atacante italiano Mario Balotelli, que é negro, tocava na bola, vaias e sons imitando macacos vinham das arquibancadas. Balotelli havia dito antes do início da Eurocopa que não toleraria racismo, mas foi advertido pelo presidente da UEFA, o francês e ex-jogador Michel Platiny, que criticou sua postura acusando-o de tentar denegrir o torneio.
Pois bem, Balotelli fez sua parte e jogou bem, mesmo tendo sido ofendido pela torcida. Agora cabe ao senhor Platiny uma resposta aos animalescos atos racistas praticados no estádio. Mas a dúvida é se podemos esperar alguma atitude contra o racismo.
Estão à beira da falência, como no caso da Espanha, que ainda insiste em mal tratar turistas brasileiros que chegam ao seu enfadonho Aeroporto Internacional de Barajas, em Madri. Como os italianos - vítimas do preconceito na Eurocopa - tratam os turistas em Roma ou Milão com tremendo desprezo. Ou ainda como alguns portugueses que são estúpidos no trato com turistas brasileiros. Isso para ficar somente nos três países que mais descendentes têm no Brasil. Ou a Europa muda, ou afunda de vez, porque o resto do mundo já não quer mais esperar sua evolução. Chega de intransigência europeia.

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