segunda-feira, 2 de julho de 2012

Brilho nos olhos

Eles moravam ao lado de um dos pontos mais movimentados do estado de São Paulo: o Aeroporto Internacional André Franco Montoro, ou simplesmente Aeroporto de Cumbica ou de Guarulhos. Por lá passam diariamente milhares de pessoas e é também o local de mais intenso tráfego aéreo na América do Sul.
Mas bem ao lado de todo aquele movimento, de todo aquele luxo, há bairros bem humildes. Num desses bairros, o Haroldo Veloso, moravam os dois irmãos. Naquele tempo ainda não havia ocorrido a invasão dos sem-teto nos terrenos próximos do aeroporto. O que tinha nas imediações era o bairro e muito mato. Rios, lagos e brejos completavam a paisagem bucólica do local.
Os dois irmãos, na faixa dos 10 anos, cresceram por ali. Pouco iam para São Paulo ou até mesmo para o centro de Guarulhos. Aliás, essa era uma tendência de boa parte dos moradores do Haroldo Veloso. O bairro, um conjunto habitacional inaugurado no final dos anos 1960, era bastante distante, o caminho era longo e quem não trabalhava fora acabava vivendo muito tempo por lá.
O ônibus era uma aventura. Pegava-se um que contornava o Aeroporto Internacional e a Base Aérea de Cumbica. O outro fazia o caminho oposto. Para ir até o ponto final, na Estação Ponte Pequena do Metrô (hoje Armênia), levava-se pelo menos duas horas e meia.
E foi naquele local que os dois cresceram. Mas brincavam muito. E brincadeiras que a molecada de bairros bem próximos dali não conheciam mais. Haviam caído no esquecimento. Soltar pipa era regra por lá. Nadar em lagos e rios também. A molecada adorava pescar e capturar rãs. Cabe aqui um parenteses: esse anuro é delicioso, principalmente quando era preparado pelos "nativos" do Haroldo Veloso.
Mas um dia veio a ideia: levar os dois para ver o mar. Se andar de carro já era uma aventura para os irmãos, que dirá descer a serra? Depois de tudo combinado e da noite passada em claro tamanha ansiedade dos dois. Lá fomos rumo a São Vicente. Saímos do Haroldo Veloso, pegamos a Rodovia Dutra, voltamos para São Paulo, passando pela Vila Prudente até pegar a Anchieta, bem no comecinho. Quando mais avançávamos, mais os dois ficavam eufóricos.
Tinham a companhia de um sobrinho, este já "experiente", com muito "tempo de praia". Mas a alegria tomava conta do banco de trás do Passat. Até que antes de chegar ao pedágio, um susto: o escapamento estourou. A viagem prosseguiu com um som ensurdecedor, mas nada que abalasse os ânimos da molecada.
Havia operação e da Anchieta nos mandaram para Imigrantes.Descemos por lá, ainda não era a pista dupla, o tapete de hoje em dia.
Passamos pela represa Billings. Aquele mar de água doce dos dois lados da pista. Os dois estavam em transe. Mas ainda não era a praia. Fomos nos aproximamos e ao longe, na estrada, avistamos aquela imensidão de oceano Atlântico. Quanto mais o carro seguia em frente, maior era o brilho ofuscante vindo da parte traseira do veículo. Até que chegamos. O brilho nos olhos dos dois podia talvez cegar todos que estavam por lá, tamanha sua intensidade. Saíram com roupa e calçado e mergulharam na areia. Até o menino que já tinha muito tempo de praia se contagiou e foi junto com os dois. Pois é, ver a alegria de quem conhece o mar pela primeira vez é algo ímpar. Essa alegria contagiante não tem preço.

Um comentário:

  1. E nós tivemos o prazer de presenciar! Que saudade e que memória esta sua hein?
    Martha

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