Ele cresceu na periferia de Guarulhos. Sua mãe casou-se cedo com seu pai, aos 14 anos. Era 10 anos mais nova que o marido, vindo do sertão da Bahia. Os dois tiveram mais de 10 filhos, mas apenas quatro deles sobreviveram ao parto, aos primeiros dias ou à infância.
Quando se mudaram para o bairro, bem distante e isolado do resto de Guarulhos, ele tinha nove anos. Cresceu como se vivesse em cidade do interior. Logo que chegaram ao conjunto habitacional, um vendaval destelhou várias casas e eles foram alojados, temporariamente, num conjunto de prédios que estava sendo construído na zona norte, no Jaçanã, perto do Clube de Campo Guapira.
Mas foi no Veloso que ele se divertiu à valar. Como todo moleque naquela época, vivia na rua. Soltava pipa, rodava pião, jogava bolinha de gude e adorava brincadeiras coletivas, como pega-pega, queimada e outras do gênero. Em pouco tempo, tornou-se uma espécie de ídolo dos mais novos. Cuidava dos menores sempre com muito carinho. Inclusive de uma sobrinha seis anos mais nova que foi morar com ele por um tempo após ter perdido o pai.
A vida foi passando e o menino virou homem. Ainda assim, era muito popular e com muitas iniciativas. Foi procurar emprego e conheceu as más companhias. Junto com as más companhias, conheceu a maconha. Tal qual a música "Faroeste Caboclo", do Legião Urbana, "já no primeiro roubo ele dançou e pro inferno ele foi pela primeira vez".
Assaltou um ônibus e acabou baleado e preso. Ficou um tempo atrás das grades até que a família conseguiu soltá-lo. A essa altura, estava prestes a ser pai. Tomou jeito na vida e tratou de se dedicar à família. Mas tinha outros vícios: o cigarro e a bebida. Mas continuou tocando sua vida.
Nasceram dois meninos, com intervalo de um ano entre ambos. Inconformado com a relação patronal, ele sempre tentou se virar e, em algumas ocasiões, se deu bem em seu improviso. Aprendeu a misturar massa, assentar pisos e azulejos e fez as vezes de ajudante de pedreiro. Achou que podia e passou a pedreiro.
Foi mais além e envolveu-se com políticos. Sempre popular, tornou-se uma espécie de cabo eleitoral naquela periferia de Guarulhos, esquecida pelos homens. Ajeitou as imediações de onde morava. Com sua habilidade, construiu em cimento armado uma grande mesa. Lá a garotada se dividia para desafiá-lo em partidas de pingue-pongue e futebol de botão. Os filhos cresceram vendo o pai ser aquele herói da longínqua periferia.
Reunia a molecada e passavam a madrugada nos brejos das imediações capturando rãs. O banquete no almoço do dia seguinte era farto. Ele mesmo limpava os saborosos anuros, tirando a pele e temperando. Depois fritava, divertindo-se com os espectadores, que viam a rã tento espasmos musculares na frigideira, como se viva ainda estivesse.
Algumas tubaínas para a molecada e a festa estava completa: rã com tubaína. No pedaço era autoridade. Fazia pipas como ninguém. Passou a misturar componentes químicos que comprava em casas de produtos agrícolas e passou a fabricar veneno para combater insetos em residências. O produto era bom e a procura cresceu a ponto de juntar algum dinheiro e comprar um pulverizador, fazendo dedetização nas casas do bairro e região.
A essa altura, ele tinha mais dois filhos e as imediações de seu bairro, finalmente, chegaram por linhas tortas até a última área habitável de Guarulhos. Houve invasões dos sem teto e o bairro acabou integrado à cidade. O que muitos não sabia é que, mesmo durante todo esse período de popularidade, dedicação e bons exemplos como pai, ele manteve seu lado oculto e continuou consumindo drogas.
A coisa só ficou escancarada quando ele já estava viciado no crack. Sua aparência o denunciou. Sua debilidade o sentenciou. A família se desestruturou. A mulher, que sempre trabalhou como doméstica em casas de família, passou a sofrer com a diabetes e ter dificuldade para trabalhar. A filha foi mãe solteira com menos de 16 anos. Os dois filhos mais velhos tiveram problemas com a justiça. Todos foram se separando. Hoje os dois filhos se recuperaram e tocam a vida. A mulher, a filha, o outro filho e o neto também sobrevivem com dificuldade.
Ele perdeu o pai - talvez a maior perda de sua vida - quando tinha 16 anos e há alguns anos a mãe. Ficou com a casa, velha, com impostos atrasados e que mais parece um castelo mal feito, tantos os "puxadinhos" lá existentes. Vive como zumbi. Seu tempo se divide entre consumir crack e se recuperar no que pode para acender um novo cachimbo. Ele até tentou se tratar, parentes chegaram a interná-lo, mas a fissura é maior que qualquer remédio ou vontade própria.
Antes silenciosa, a droga hoje escancara para o mundo mais um da enorme legião de zumbis. Quem não o conhece jamais imagina que atrás daquela figura mal ajambrada existe um homem que foi um moleque feliz, que foi exemplo para seus filhos e que foi admirado. Ali está apenas e simplesmente para a maioria das pessoas, mais um viciado, uma pessoa que muitos querem simplesmente apagar de sua visão. Esse é o resultado do crack e das drogas em geral.
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