Há cerca de duas semanas, achei bastante interessante um artigo do jornalista Marcelo Canellas, com quem tive o prazer de trabalhar e conviver na EPTV (Globo) de Ribeirão Preto. No texto, ele escreve com muita propriedade a forma pela qual se enxerga e que ainda se surpreende ao ver que, no espelho, não está aquela pessoa que ele tem em sua memória.
Marcelo Canellas se vê exatamente como no auge de sua mocidade, com vinte e poucos anos, vigor de "foca" (jornalista iniciante, se bem que isso ele mantém até hoje), cabelos negros e quilos a menos. Porém, quando ele se mira no espelho, vê um reflexo totalmente adverso ao que tem em sua mente sobre sua própria pessoa.
Comigo acontece exatamente a mesma coisa. Eu até evito olhar no espelho, porque a decepção é sempre grande. Além dos quilos a mais, dos cabelos começando a ficar grisalhos e bem mais ralos que nos áureos tempos em que cultivava uma cabeleira de "roqueiro contestador", começam a sobressair as marcas de expressão. Mas tão logo saio da mira destruidora do espelho, volto a me sentir como antes, tão logo entrei para a fase adulta de minha vida.
No último final de semana, entretando, percebi que essa relação vai além do espelho. Eu já havia até parado para pensar que vejo Martha, minha esposa, exatamente do jeito que ela era, há 29 anos, quando nos conhecemos ainda no colégio, ou há 27 anos, quando começamos a namorar, nos primeiros dias de faculdade.
Mas reunimos uma turma que não se via há um bom tempo, na sexta-feira, 24 de agosto. O encontro reuniu uma galera do colégio - hoje ensino médio - e que trabalhou junto em uma empresa de consórcio de automóveis, a Conprof. Pois família por família, cada um que chegava ao local, a sensação era a mesma: ninguém mudou nada.
Nem mesmo o tempo, a distância, as marcas adquiridas - com merecimento e até com orgulho, pois chegamos até aqui. Nada disso fazia com que visse aquelas pessoas como muitos as vêem hoje. Maria Edna, Nilza, Sandrinha, Cláudio, Ariane, Álvaro, Ivone, Amarildo, Iara, Baduca, Eduardo Theodoro, Sandra Valverde, Mirinha... Estavam todos do mesmo jeito, ninguém mudou nada. Talvez para o Dimas e para os filhos, aquela turma não passava de um grupo de pessoas rumo a meio século de vida. Mas para nós, aquele encontro significou muito mais. Significou que o tempo nem sempre é soberano. E que a distância não é suficiente para apagar de nossas memórias os bons momentos da vida, nem mesmo diante das adversidades que todos ali enfrentaram ou enfrentam.
Foi um momento tão mágico quanto o retratado na música eternizada por Elis Regina: "apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais".
E a coisa não parou ai. No sábado festa da Giovana, irmã do Cauê e filha da Dani... e do Sílvio. Meu amigo em atividade por mais tempo. Nos conhecemos em 1979 e, desde então ainda mantemos amizade. Pois fomos à festa e lá encontramos o Edson, também da galera do Comercial. E encontramos os irmãos do Sílvio, um capítulo à parte. O Silas ainda é o mesmo menininho que se divertia fazendo roda-roda com a chave do carro do meu pai. Ou que jogou futebol de botão comigo a manhã inteira no dia em que eu me casei, ajudando a passar o tempo e deixar mais calmo - embora ele tenha ganho com o seu Palmeiras do meu São Paulo. A Sueli é a mesma baixinha invocada que adorava - e adora - Educação Física. O Sérgio e seu jeito reservado daquele garoto que vivia com violão às costas, sempre admirável. O Sidnei ainda é o molecão que vivia querendo saber de tudo para aprender mais. E o Sílvio é o mesmo que me ensinou a curtir Caetano Veloso e Beatles.
Mais à noite, passamos pela casa da minha irmã Angelica e ela e meu cunhado Luiz estavam do mesmo jeito que em 1985, quando se casaram naquele 19 de janeiro. Talvez isso explique, por exemplo, porque ao ver a foto da Fani no facebook, com quem trabalhei no BHU/Aymoré, não a reconheça da forma como ela é hoje, mas me venha à lembrança como ela era nos anos 1980.
Alguém que estiver lendo, certamente vai se perguntar: então ninguém envelhece? Claro que envelhece, mas isso que senti e sinto talvez só Freud explique. Isso é um tipo de memória menos cerebral e mais do coração.
ADEUS
Quando desembarquei em Ribeirão Preto, há quase 25 anos, fui a um telefone público e pedi, através do 102, o número da TV Globo local. Pedi para falar na Chefia de Reportagem e um homem com voz grossa e jeito matuto me atendeu. Ouviu meu pedido de emprego e me convidou a ir até o local. Não fosse João Garcia, talvez eu jamais tivesse mudado para Ribeirão Preto e aqui construido minha vida familiar e profissional. Ele foi o meu grande padrinho no jornalismo, deu-me a oportunidade da vida. Autor de três livros, João Garcia foi certamente o melhor jornalista na concepção da palavra com quem tive o prazer de trabalhar. Ontem, aos 65 anos, ele nos deixou, vítima de um mal súbito. Vai com Deus, João Garcia. Certamente terá muitas ótimas pautas para onde vai. E obrigado por tudo!
Bom dia primo, infelizmente com o passar dos anos vão-se os nossos melhores Amigos, parentes e pessoas do bem, parece que os bons vão antes e nos deixam sempre um legado a continuar,o sentimento da perda de um grande Amigo e como perdessemos uma parte de nós, é a vida. Vivamos sempre como fosse o nosso último dia, amamos sempre como se fosse o último amor, e acreditamos como se fosse a última verdade do mundo.Pois se pensarmos muito nos fatos e acontecimentos politicos e sociais do país, envelheceremos e seremos sempre tristes, abração, que Deus coloque seu Amigo junto com os meus que se foram, lá eles serão mais Felizes, Hélio
ResponderExcluirSaudades desses artigos!!!
ResponderExcluirHoje terminei de ler todos desde o 1º... Alguns colegar e amigos de trabalho também já conhecem de tanto que imprimo e digo para eles entrarem também...
Beijão a todos!
Silas