Aumentar IPTU para cobrir acordo com empresários do transporte coletivo na capital e privatizar nosso petróleo mostram divergências do PT de hoje para o de ontem
Tudo bem. É verdade. Esse título inspirado na obra de Caetano Veloso já foi usado em uma infinidade de artigos, inclusive alguns publicados no Observatório da Imprensa. Mas não há nada melhor para definir o que estou sentindo e pensando do que este refrão da música Fora da Ordem. Independente da polêmica envolvendo a opinião de um dos líderes da Tropicália em relação às biografias não autorizadas, Caetano Veloso foi ímpar ao escrever a letra e, em especial, esse trecho da música.
No começo dos anos 1980, ainda vivíamos sob o rigor da ditadura militar, que se instalou no Brasil em 1964 e oficialmente encerrou-se em 1985, com o fim do mandato do general João Baptista de Oliveira Figueiredo, o último dos militares a ocupar a presidência no Brasil. Por volta de 1982, o PT despontava como uma alternativa à política então vigente. De um lado, havia o partido oficial, a Arena – que depois passou a ser o PDS. Do outro, com ares de submissão e até subserviência, estava o MDB, que já abrigara o MR-8, um grupo de revolucionários que lutou contra a ditadura e que tinha bons nomes em seus quadros, mas não representava os anseios da maioria do partido. Tempos depois, mudou para PMDB.
Lembro que eu, Sílvio, Hélcio, Eduardo, Edmilson, Gérsio e outros amigos, simpatizávamos com o PT. Meu flerte com o partido durou até a virada do século XX. Acreditava que aquela legenda havia vindo para mudar o jeito de fazer política. Um partido que atraia estudantes, intelectuais e trabalhadores - principalmente os de carreiras ligadas aos sindicatos atuantes, já devidamente conscientizados politicamente. Mal imaginava que, passados pouco mais de 30 anos, o PT mudaria seus rumos radicalmente.
A começar com Lula. Era nossa esperança. Quando digo nossa, falo em nome dos amigos que militavam. Acho que hoje, só o Eduardo ainda é petista e tem lá suas razões. Lula era uma liderança, mas, em minha opinião, transformou-se em uma decepção. Logo que assumiu a presidência da República, tornou-se mais populista que o maior líder populista brasileiro, Getúlio Vargas. Aquele mesmo que, no início da Segunda Guerra Mundial, flertou com o nazismo, oferecendo a Adolf Hitler a judia russa Olga Benario – mulher do líder comunista e seu desafeto político, Luís Carlos Prestes – em sacrifício. Um detalhe: Olga estava grávida de Prestes quando foi entregue ao nazismo para, tempos depois, ser morta em um campo de concentração.
Anos depois, Getúlio deixou o flerte com o nazismo e apoiou os Estados Unidos na guerra, tudo para se eternizar no poder.
Tal qual fez Lula, que até no futebol intercedeu para garantir a construção do estádio para seu time do coração, o Corinthians, usando todo o seu poder e prestígio em fim de mandato - espero que seja só isso. Mas Lula superou Getúlio com programas pseudossociais onde dá ajuda, mas não capacita o cidadão. Isso o atrela eleitoralmente ao governo. Tudo pago com impostos para garantir a continuidade de seu grupo no poder.
Fora da nova ordem mundial
E um de seus afilhados políticos seguiu a cartilha do novo PT. Fernando Haddad – também já sendo citado como Malddad -, enfrentou protestos no efervescente junho deste ano. Foi obrigado a tergiversar e acenar com uma redução na tarifa dos ônibus urbanos. Agora aprovou na Câmara Municipal de São Paulo um projeto de aumento abusivo no IPTU para fazer jus às possíveis perdas das empresas que operam o transporte coletivo na Capital. Quer dizer, toda a população, inclusive a que não utiliza o transporte coletivo, vai pagar a conta. Fosse em outros tempos do PT, seriam os empresários, com seus lucros tidos como exorbitantes, quem pagariam a conta.
Mas este não é o principal problema, a meu ver, no PT do novo milênio. A maior aberração, em minha opinião, foi mesmo a privatização do nosso petróleo. Com o Leilão de Libra, a presidente Dilma Rousseff apareceu para dizer maravilhas sobre sua obra. E justificou que, "é claro que as empresas vencedoras do leilão visam o lucro, mas o Brasil saiu ganhando". Sou totalmente incrédulo a essa afirmação da presidente.
A meu ver, houve sim a privatização de nossas reservas petrolíferas. Não haveria necessidade de entregar para empresas do exterior o direito de explorar nosso petróleo e receber quirelas por essa operação. O Brasil poderia, ele próprio, administrar isso e contratar tais empresas para prestarem serviços. Talvez rendesse 30% para eles e 70% para o Brasil, não o contrário como foi feito com a privatização.
O efeito pode ser ainda mais devastador. Além de entregar nosso petróleo, Dilma pode também ter decretado a falência da Petrobrás, que terá de cobrir sua participação com capital no "negócio da China", num momento em que, apesar de garantirem que há caixa, há muitas incertezas em relação à saúde financeira da empresa de economia mista que controla o petróleo brasileiro.
Não tivesse Caetano escrito a música em 1989, certamente não lhe faltaria inspiração para escrever agora. Afinal, o PT está privatizando nosso petróleo. E o PSDB está protestando contra a privatização. "Alguma coisa está fora da ordem. Fora da nova ordem mundial".
Adalberto Luque
Jornalista