sexta-feira, 23 de março de 2012

Onde está a livre concorrência?

Não é de hoje que o consumidor brasileiro tem se deparado com abusos praticados por grandes grupos. Mas a situação de liberalismo no controle dos preços chega ao que se pode chamar de libertinagem nos preços. É tudo tão complicado que chegamos a ter saudades dos fatídicos tempos dos "fiscais do Sarney", onde a inflação galopante criou esses seres curiosos e pitorescos - e porque não dizer, grotescos.
Naquela época, havia aplicações hoje tão absurdas, mas que ajudavam muita gente, o famigerado over night. Recorria-se a esse tipo de aplicação no final da tarde, começo da noite, para garantir ao menos o repasse da inflação, que se superava um dia após o outro. Diante da situação abusiva, determinou-se o controle de preços e surgiram os tais "fiscais do Sarney". Tudo era tabelado, para impedir a ganância das máquinas remarcadoras de preços que trabalhavam incessantemente naqueles tempos.
Tudo mudou, o País se estabilizou com o Plano Real - de paternidade assumida por FHC. O Brasil prosperou, mas a liberdade nos preços possibilitou a criação de situações prejudiciais ao consumidor. Um grande exemplo disso pode ser notado com a proximidade da Páscoa. Tradição neste período, os ovos de páscoa das grandes indústrias estão, simplesmente, tabelados.
Não é preciso ir de hipermercado em hipermercado pesquisar. Os preços estão nivelados. Foram-se os tempos das boas e grandes compras feitas junto às indústrias, onde a competição era por preços menores. Hoje em dia, tanto faz ir ao Carrefour, Pão de Açúcar, Walmart, Extra, Savegnago ou qual rede for. O preço dos ovos de páscoa da Nestlé são basicamente iguais. É como se uma única compra fosse feita em nome de todos os supermercados. Ou a indústria tabelou os preços finais ao consumidor em todas as redes. E não é só Nestlé.
As grandes marcas, como Garoto e Lacta também mantém preços semelhantes pelos produtos do mesmo peso. Aliás, o imbróglio envolvendo a compra da Garoto pela Nestlé que vem se arrastando há quase uma década, ainda não foi totalmente aprovado pelo CADE (Conselho Administrativo de Defesa do Consumidor), mas no mercado as fábricas já atuam como se tudo tivesse sido legalizado. Tanto que há promoções em conjunto das marcas, onde, levando um número específico de ovos, seja da Nestlé ou da Garoto, o consumidor ganha um brinde extra. Mas os preços são basicamente iguais, diferenciando nos centavos. Ou os hipermercados estão se unindo ou as indústrias ditando preços.
Isso não se resume somente a este segmento. Recentemente o Procon, órgão de defesa do consumidor, tentou punir a empresa S2W, que opera os sites de vendas pela internet Americanas.com, Submarino e Shoptime. Os três estão se destacando em reclamações e mal atendimento, num crescimento vertiginoso. A empresa, todavia, conseguiu liminar e continuou vendendo como se nada ocorresse. Pois bem, nesse segmento, havia uma ferramenta muito eficiente chamada buscapé, um site de busca de preços.
Experimente, caro leitor, fazer uma pesquisa para, por exemplo, cotar um aparelho celular ou um televisor de LED ou LCD. Com exceção das redes menores e, talvez por isso, nem tão confiáveis assim para compra pela internet, as grandes redes nivelam os preços. Quer exemplos? Tente checar o preço do celular dualchip Nókia C2-06 ou o da TV LED Sony Bravia Full HD de 32 polegadas. Ficará surpreso ao ver que o que varia também são os centavos.
Falando em centavos, um setor que há muito incomoda e age livremente é o de combustíveis. Não sei se culpa do dono de posto de combustíveis, do distribuidor ou da produtora de combustíveis. O fato é que a tal livre concorrência passa longe. Nesse caso, também exceção feita aos pequenos, ou os de bandeira branca - que muitos temem ter combustível "batizado" -, os preços são nivelados. Ao ponto de, em Ribeirão Preto, o álcool, produzido nesta região em grande escala, ser bem mais caro para o consumidor final do que, por exemplo, na cidade de São Paulo.
E em nome da "livre concorrência", ninguém toma providências para regulamentar esses mercados. Começo a achar que a culpa é mesmo do consumidor, conformado com uma situação que lhe é desfavorável. Melhor seria optar por ovos de páscoa de empresas menores ou que não vendem nos grandes hipermercados. Melhor voltar às compras nas lojas físicas e abandonar a virtual. Melhor optar por um posto bandeira branca, não atrelado às grandes empresas de combustíveis. Ou tabelar novamente os preços e reconvocar os "fiscais do Sarney". Bom final de semana!

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